Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

A Noiva! – as lutas ainda são as mesmas

A Noiva! começa com uma espécie de monólogo de Mary Shelley – sim, a autora do famoso romance Frankenstein, falecida em 1851. Na representação dada a ela no longa, Mary deseja voltar ao mundo para contar uma história que não conseguiu contar em vida, e relata que a tal seria mais assustadora que uma história de terror: seria uma história de amor. Logo depois, sua alma se apossa do corpo de Ida (Jessie Buckley), uma jovem que vive nos anos 1930 em Chicago, numa cena que remete a filmes como O Exorcista.

Com esse início de deixar qualquer pessoa espectadora com o cenho franzido, Maggie Gyllenhaal – que assina tanto o roteiro quanto a direção de A Noiva! – deixa um aviso que essa é uma produção que serve para causar sentimentos ruins, e isso não deve ser encarado como um problema. A atriz e produtora utiliza como pano de fundo uma obra de domínio público para contar uma fábula que remete a problemas que (ainda) existem nos dias atuais, e a opção por Frankenstein com certeza não é mero acaso – na verdade, se eu pudesse apostar, diria que a escolha não foi pela obra em si, mas sim por quem a escreveu: não à toa Mary Shelley é o fio condutor da narrativa.

A procura por uma noiva

Não é spoiler nenhum dizer que, logo no início, a jovem possuída pelo espírito de Mary Shelley acaba morta – afinal, a história é sobre como ela se torna “A Noiva” do título da produção. Alheio a isso, a criatura (Christian Bale) trazida à vida pelo Dr. Frankenstein (que também atende pelo nome de Frankenstein, ou “Frank” para os íntimos) chega à mesma Chicago para encontrar uma doutora especialista em reanimação. Frank relata a ela que está vivo há mais de 100 anos, e que está prestes a morrer de solidão. Um pária da sociedade, execrado por sua fisionomia e o cheiro que exala de sua pele costurada, tem no cumprimento à dra. Euphronious (Annette Bening) seu primeiro contato físico da vida (ou pós-vida, como queira). Então, revela que seu intuito é conseguir uma parceira igual a ele – uma noiva.

Apesar da inicial recusa da dra. Euphronious, ela acaba cedendo, e doutora e criatura vão atrás de um corpo feminino recente para a tentativa de reanimação. A escolhida, claro, já sabemos quem é. Em suma: o experimento funciona, o corpo da garota ganha vida novamente e sua personalidade parece saltar de segundos em segundos entre Ida e a escritora, em acessos que lembram a Síndrome de Tourette. Sua memória, no entanto, está estilhaçada, e o comportamento da nova criatura parece ser guiado pelos instintos de Mary Shelley, em uma ânsia de vivenciar tudo que lhe foi privado no passado.

Eu prefiro que não

Apesar do desejo da criatura Frank, a criatura mulher (que, por um motivo de narrativa, abandona o nome Ida e passa a se chamar de Penélope) não aceitou seu rótulo de noiva, mas viu em Frank um companheiro de aventuras. Enquanto Penélope/Mary se entrega às suas próprias vontades, Frank apenas a segue e a admira por ser esse espírito livre, tão diferente de como ele se sente. A questão principal, porém, é que Penélope logo é lembrada de uma terrível realidade: num mundo regido por homens, mulheres são vistas como presa.

Após um incidente ocasionado por uma tentativa de assédio, Frank e Penélope embarcam numa fuga interminável, e até aqui o filme pode parecer um tanto confuso e sem propósito. Entretanto, em uma determinada cena durante um baile da burguesia é que Noiva! apresenta seu verdadeiro intuito: expor a crueldade contra as mulheres, enquanto os homens assediadores permanecem livres e sem pagar pelas consequências de seus atos.

A jornada segue apresentando os agravantes dessa temática, seja por cenas simples, como a de uma brilhante detetive que é ignorada pelos homens ao tentar angariar uma informação – mas que é prontamente atendida por outra mulher –, quanto pela frieza e crueldade de um mafioso (Zlatko Burić) que não tem vergonha de admitir que mutila outras mulheres. Uma cena em específico, com um policial de estrada, é tão perturbadora que pode até gerar gatilhos em algumas espectadoras, mas é algo que a própria Maggie Gyllenhaal declarou ao podcast The Interview ser proposital, porque encarou que era necessário “colocar o dedo na ferida”.

Na saúde e na doença

Frank é brilhantemente retratado por Christian Bale como uma alma gentil, sonhadora e até mesmo infantil, mesmo com sua centenária idade. Por estar acostumado a ser visto como um ser abaixo dos demais humanos, talvez seja aqui onde ele ganha a empatia de Penélope: um homem que não a trata como os outros homens tratam as mulheres. Ainda assim, ele é vítima do que aprendeu a ver na sociedade: na sua visão, Penélope deveria ser a sua noiva e aceitar sê-la independente de qualquer outra vontade da mulher – mesmo que, para convencê-la, precise mentir e inventar histórias.

Já a Ida/Mary Shelley/Penélope/Noiva de Jessie Buckley é um espetáculo à parte. A forma como ela muda de personalidade num piscar de olhos é tão brilhante que nos primeiros minutos (ou talvez meia hora) é até difícil para a pessoa espectadora acompanhar as falas e rompantes da sua personagem. A química de Jessie com Christian é quase palpável, e tem seu clímax num número musical até questionável no ponto de vista narrativo, mas que é de encher os olhos.

Os protagonistas completam a tela de uma forma que até mesmo grandes nomes no elenco de apoio, como Jake Gyllenhaal (irmão da produtora) e Penelope Cruz, acabam por ficar escanteados tanto na importância do enredo quanto na atuação. O filme é realmente do casal, mas a mensagem é para a sociedade de hoje em dia.

O legado

Mary Wollstonecraft, mãe de Mary Shelley, é considerada uma pioneira do feminismo, e sua filha seguiu os seus passos. Logo, como foi dito no início desse texto, não é de se estranhar que Maggie Gyllenhaal tenha escolhido colocá-la como o “id” de sua protagonista: nos anos 1800, Shelley sofreu numa sociedade patriarcal, onde as mulheres não tinham voz e sofriam os mais grotescos atos pelas mãos dos homens, e ainda assim jamais se calou em frente à sua luta, e suas obras são as testemunhas disso. Então, ela se vê num corpo feminino em 1930, e apesar de inúmeros avanços sociais entre uma época e outra, percebeu que o mesmo comportamento machista ainda ocorria. E Maggie Gillenhaal hoje, em 2026, vive numa sociedade (teoricamente) ainda mais evoluída, mas que diariamente nos deparamos com notícias de assédios e crimes hediondos contra as mulheres.

Então, por mais que A Noiva! possa ser um filme difícil de se assistir para algumas pessoas (tanto pelo conteúdo quanto por alguns percalços de enredo e execução), é uma produção necessária. Assim como no longa há um levante feminino após uma ação da protagonista, talvez na vida real A Noiva! possa acender holofotes para situações que há muito deveriam ter sido extintas.

No fim, a Mary Shelley retratada em A Noiva! tem total razão: uma história de amor é bem mais assustadora que uma história de terror. Isso porque, muitas vezes, o amor é confundido com paixão, tesão, obsessão, não saber ouvir um não. E para uma mulher, não há nada mais aterrorizante que isso.

A Noiva! fica em cartaz a partir do dia 5 de março de 2026 em todas as redes de cinema.

Apoie o nosso Projeto através da chave pix: contato@theblackcompany.com.br
ou com QR Code abaixo:
upload de bloco de imagem

Siga a Black nas redes sociais: https://beacons.ai/blackcompanybr

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *