BANDA CELEBRA 20 ANOS DO ÁLBUM THE BLACK PARADE, COM MESCLA ENTRE SUCESSOS E LADOS B, HIPNOTIZANDO UM PÚBLICO DIVERSIFICADO
Na última semana, a banda My Chemical Romance retornou ao Brasil após 18 anos para realizar dois shows no Allianz Parque, em São Paulo, nos dias 5 e 6 de fevereiro. Os espetáculos fazem parte da turnê The Black Parade 2026, uma continuação da turnê do ano passado (a Long Live The Black Parade, que ocorreu em 2025 apenas nos Estados Unidos) que celebra os 20 anos do álbum que dá nome ao circuito. Os suecos do The Hives foram responsáveis por abrir as noites.
Os shows do My Chemical são divididos em duas partes: na primeira, o álbum The Black Parade é tocado na íntegra, conforme é encenada uma parte da história criada por Gerard Way para a turnê, e, na segunda, há uma seleção de faixas, entre hits e b-sides, dos demais álbuns da banda, agora já mais despojada.
A sensação ao assistir é de ser presenteada com um “2×1”, com dois espetáculos totalmente diferentes acontecendo na mesma noite, ambos igualmente satisfatórios. Vale ressaltar, porém, a primeira parte e toda a sua teatralidade.
Isso porque o MCR construiu uma nova narrativa especialmente para as turnês, com cenário, personagens e até mesmo alfabeto próprio, o keposhka. A história se passa em uma espécie de prisão/hospital psiquiátrico localizado na cidade fictícia Draag, onde o grupo é nomeado como a banda oficial do local. Ali, passam por uma espécie de “reprogramação mental” enquanto são “obrigados” a tocar, e a encenação se desenrola em meio à execução das músicas, como em um musical.

O resultado é uma experiência avassaladora, com direito a palco incendiado, personagens pegando fogo, figuras minuciosamente caracterizadas e um encerramento arrebatador, com muito sangue falso voando enquanto Gerard se vê no centro do clímax.
Na segunda parte, mesmo sem a encenação, a surpresa se dá pela escolha das músicas. Ainda que a aguardada “The Ghost of You” não tenha sido executada em nenhum dos dois dias, a seleção não falhou em fascinar o público, sobretudo os fãs de longa data.
Afinal, faixas como “Headfirst for Halos”, exclusivamente tocada no Brasil durante a turnê pela América do Sul, “The World is Ugly”, “Heaven Help Us” e “The Foundations of Decay”, esta utilizada pela primeira vez em um encerramento de show do MCR, puderam ser apreciadas. Sucessos como “I’m Not Okay (I Promise)”, “Na Na Na (Na Na Na Na Na Na Na Na Na)” e “Helena” completaram a noite, embalados pelas guitarras implacáveis de Ray Toro e Frank Iero, pelo baixo de Mikey Way e pela bateria de Jarrod Alexander.

Mas talvez o maior ponto de destaque tenha sido a diversidade da faixa etária dos frequentadores, ainda que a maioria do público tivesse por volta dos 30 anos, representando os admiradores antigos que acompanharam a banda a partir da explosão do emocore nos anos 2000.
Os mais novos, às vezes acompanhados dos pais, lembravam um revival daquela adolescência do passado, visivelmente empolgados por estarem curtindo sua primeira experiência com a banda. Já os adultos deixavam transparecer uma emoção contagiante, seja por quem chorava e cantava ou chorava em silêncio, prestando atenção em cada detalhe para guardar o máximo possível do momento na memória.
Abro um parêntese para uma experiência pessoal, porque o momento me fez lembrar quando vi meu primeiro show internacional, em 2009, no Maquinária Festival. Eu, no auge dos 15 anos e uma adolescente emo, vi minha banda preferida, Panic! At Disco, com direito a acampar na frente da Chácara do Jockey e tudo, sem fazer ideia do que me esperava no momento do show. Lembro que chorei tanto que cheguei a molhar a blusa do cara na minha frente, e dez anos depois pude reviver o momento, dessa vez no Rock in Rio de 2019, e me peguei chorando da mesma forma.
Na segunda vez, porém, tinha uma compreensão um pouco melhor dos meus sentimentos ali: tanto para mim quanto para os demais presentes, a música sempre teve o poder de trazer conforto e ter um papel de “salvadora”, seja eu uma adolescente esquisita ou uma recém-adulta que havia acabado de passar pelo luto de uma ente querida.
Tudo isso para dizer que, sim, música é bom demais, sobretudo ao vivo. Me emocionei ao olhar ao meu redor na noite do show do My Chem de 5 de fevereiro porque vi muitas pessoas cumprindo uma espécie de realização pessoal, não importa quem fossem. Que todos possam ter o grato momento de ver e rever sua banda favorita no palco, nem que esperem 18 anos para isso. Neste caso (e em todos os outros, arrisco dizer), valeu cada segundo de espera.