Existe algo muito bom em ler um thriller. O clima ajuda, claro. Chuva caindo do lado de fora, café quente na mão, aquela atmosfera perfeita para virar páginas compulsivamente enquanto tenta descobrir quem está mentindo para quem. Thrillers combinam com esse tipo de momento. Com o silêncio da casa, com o som da chuva e com aquela sensação confortável de acompanhar um mistério que parece sempre um passo à frente do leitor.
Talvez seja por isso que esse seja um dos gêneros mais fáceis de amar. Um bom thriller cria exatamente essa relação: ele desafia, provoca, convida o leitor a participar da investigação.
E já estamos na metade de março, o que por si só parece impossível, então talvez seja o momento perfeito para mergulhar em um desses livros que pedem leitura quase compulsiva. A resenha de hoje é As Musas, de Alex Michaelides, publicado no Brasil pela Editora Record.
O começo
Desde os primeiros capítulos, o livro cria uma atmosfera intrigante. A protagonista Mariana é uma terapeuta especializada em dinâmicas de grupo que tenta lidar com o luto recente pela morte do marido. Sua rotina é interrompida quando recebe uma ligação de Cambridge informando que uma estudante foi assassinada.
A vítima era colega de quarto de Zoe, sobrinha de Mariana. O único indício do crime é um cartão com uma citação de Eurípides, sugerindo que a tragédia grega pode ter algum papel naquele mistério.
Esse ponto de partida funciona muito bem. O romance apresenta rapidamente uma série de personagens suspeitos, todos orbitando o universo acadêmico de Cambridge. Há Fred, um estudante de doutorado excessivamente solícito, há Morrison, o jardineiro que parece observar mais do que deveria e há o carismático professor Edward Fosca, especialista em tragédia grega e líder de um grupo seleto de alunas conhecido como “as Musas”.
Todas as integrantes desse círculo eram próximas da estudante assassinada.
A partir daí, o livro constrói um clássico mistério investigativo em que cada personagem parece esconder alguma coisa.
O charme do thriller acadêmico
Uma das maiores forças de As Musas está na atmosfera: o cenário universitário, as referências à mitologia grega e o clima quase gótico de Cambridge criam uma estética única. O olhar da protagonista também acrescenta uma camada interessante ao suspense. Mariana é terapeuta, e isso influencia diretamente sua maneira de interpretar as pessoas ao redor, cada conversa, gesto ou silêncio se transforma em potencial pista psicológica.
Essa perspectiva cria uma dinâmica curiosa para o leitor. Ao mesmo tempo em que Mariana parece especialmente qualificada para analisar comportamentos, sua própria visão pode ser limitada por emoções, traumas e convicções pessoais.
O resultado é um jogo constante de confiança e desconfiança.
Durante boa parte da leitura, o livro sustenta bem esse equilíbrio, o mistério é intrigante, as pistas surgem gradualmente e a quantidade de suspeitos mantém o leitor sempre em alerta.
Red herrings e caminhos tortuosos
À medida que a narrativa avança, o romance passa a investir cada vez mais em desvios narrativos. Novos suspeitos surgem, pistas falsas aparecem e teorias sobre os assassinatos se acumulam. Esse tipo de estrutura é comum em thrillers contemporâneos, que frequentemente apostam em múltiplas camadas de pistas e reviravoltas para manter o leitor constantemente em dúvida.
Em As Musas, essa estratégia funciona até certo ponto. O livro consegue manter um ritmo ágil e envolvente, e a curiosidade sobre a identidade do assassino continua presente durante boa parte da leitura, ao mesmo tempo, a quantidade de desvios acaba diluindo um pouco o impacto do desfecho.
Sem entrar em spoilers diretos, o final do livro muda completamente o tipo de história que parecia estar sendo construída. Durante boa parte da narrativa, a expectativa é de um mistério que dialoga diretamente com a estética da tragédia grega, com rituais simbólicos, obsessões acadêmicas e relações de poder dentro da universidade.
O que surge no final, porém, é uma explicação muito mais ligada a traumas pessoais, abuso e consequências psicológicas profundas. Esse deslocamento narrativo pode dividir leitores.
Por um lado, o romance busca construir empatia e explicar como determinadas experiências traumáticas podem desencadear comportamentos extremos. Por outro, a resolução também levanta discussões importantes sobre a forma como histórias de abuso e sofrimento psicológico são usadas dentro de narrativas de suspense.
Alguns leitores podem sentir que o mistério prometia um tipo de revelação e entrega outro completamente diferente.
Um thriller envolvente, ainda que irregular
Mesmo com essa divisão possível em torno do final, As Musas continua sendo um livro difícil de largar. A escrita de Alex Michaelides é fluida, o ritmo é rápido e o autor demonstra grande habilidade em criar cenários atmosféricos e personagens suspeitos.
Comparações com A Paciente Silenciosa, o primeiro grande sucesso do autor, são inevitáveis. Para muitos leitores, aquele romance ainda permanece como sua obra mais marcante. Isso não significa que As Musas não funcione por si só. O livro entrega um thriller ágil, cheio de personagens ambíguos e com uma ambientação acadêmica extremamente sedutora.
Talvez não alcance exatamente o mesmo impacto de seu predecessor, mas ainda assim mostra a capacidade de Michaelides de construir mistérios envolventes.