Eu realmente não sei de qual árvore algumas pessoas caíram e bateram a cabeça, mas a quantidade de vezes que ainda se repete por aí que “o Brasil não tem livros bons” ou que “literatura nacional não é bem feita” chega a ser cansativa. Não só é falso, como revela uma preguiça enorme de procurar, ler e sair da bolha. Existe muita coisa sendo produzida aqui, em vários gêneros, com identidade, qualidade e personalidade próprias. Fantasia, inclusive.
E é justamente por isso que, hoje, a coluna foge do formato tradicional de resenha. Em vez disso, a conversa é com Henrique Scopel, autor publicado pela Flyve e criador da trilogia Crônicas de Arauver. Sim, a trilogia será resenhada por aqui em breve mas enquanto esse momento glorioso não chega, fica o convite para conhecer o autor, seu processo criativo e sua visão muito clara sobre fantasia brasileira e mercado editorial.
Entrevista: Henrique Scopel
Você cresceu em Antônio Prado, na Serra Gaúcha, rodeado por livros. Que tipo de leitura te formou primeiro: os clássicos ou a fantasia mais “épica”?
Henrique Scopel: Com certeza foi a fantasia épica. A primeira coisa que eu li de verdade, inteira, foi Deltora Quest, da Emily Rodda. É uma saga grande, coisa de uns quinze livros. Depois veio A Batalha do Apocalipse, do Eduardo Spohr.
Você fala que o RPG aumentou muito sua paixão pela fantasia. O que o RPG te ensinou sobre ritmo, conflito e personagens que você não teria aprendido escrevendo sozinho?
Henrique Scopel: Com certeza a questão da improvisação. No RPG você tem uma linha de história, uma linha da aventura, então você cria aquilo, mas precisa ter improvisação criativa pra tapar os buracos que aparecem, os imprevistos. Pra mim, o RPG ajudou muito nessa coisa da narrativa de aventuras e também em resolver situações imediatamente. Aconteceu algo fora do que eu planejei, o que eu faço pra galera não perder o hype, não perder a vontade de jogar? E isso é muito parecido com livro também, porque muita coisa sai do nosso domínio.
Aos 16 anos você começou a criar o seu universo particular, que hoje aparece nos seus livros e contos. Qual foi a primeira imagem desse mundo que nasceu lá atrás e que você segue até hoje?
Henrique Scopel: É interessante, porque a primeira imagem que eu sempre tive de Arauver, da minha trilogia, foi um trono com araucárias no fundo, três ou quatro araucárias como se fossem guardiãs desse trono. E o primeiro personagem que eu pensei foi o antagonista, o Esquecido. Ele surgiu antes da história. Arauver era uma campanha que eu mestrava com meus amigos, e sempre tinha esse Esquecido, uma menção dele. Também as regras de que nesse mundo todos podem usar magia. Essas foram as primeiras coisas mesmo.
Em Crônicas de Arauver, o que você mais quis provar para si mesmo como autor?
Henrique Scopel: Primeiro, que eu conseguia. Eu pensei em ser escritor quando eu tinha uns 15 anos, e também pra provar que era possível fazer uma coisa da hora sem ser só mais uma reciclagem de fantasia gringa. Hoje tem bastante gente no Brasil escrevendo o seu “O Senhor dos Anéis”. Eu amo O Senhor dos Anéis, mas eu nunca quis escrever o meu. Eu quis provar que dava pra desenvolver uma fantasia medieval com elementos do Brasil e que ficasse bom e, modéstia à parte, ficou bom. Eu quis me provar como escritor pra mim e também pra outras pessoas que duvidavam que era possível fechar essa história em três livros.
Muitos autores nacionais escolhem ambientar suas histórias fora do Brasil. Como você enxerga essa escolha?
Henrique Scopel: Eu não vejo problema, mas acho um pouco preguiçoso e, às vezes, é medo de ir contra as tendências do mercado. É fácil escrever uma história que se passa numa high school americana ou em Londres; mas às vezes é melhor olhar para o nosso “mundo” para escrever. Ok, eu inventei um mundo, né? Não se passa no Brasil, mas tem elementos brasileiros. Meu novo livro, por exemplo, se passa no Rio Grande do Sul.
Eu fico muito feliz de ver que, hoje em dia, cada vez mais pessoas estão escrevendo sobre o Brasil, e escrevendo bem! Por que você não pode escrever uma história de terror que se passa em Piracicaba? Por que tem que ser em Westminster, sabe? Eu não tenho nada contra. Às vezes a pessoa simplesmente gosta de escrever sobre fora. A gente é bombardeado todos os dias com propaganda de como é “legal” nos Estados Unidos e na Europa, então às vezes cai nessa síndrome de vira-lata e deixa de apreciar o que tem aqui. Mas a gente precisa romper essa preguiça de escrever sobre o Brasil.
O que cansa é sempre aquela mesma história: mesma região, mesmas coisas. Aqui a gente tem um folclore muito rico, figuras assustadoras no nosso folclore. O próprio boitatá, por exemplo, é um dragão!
Olhando para os próximos projetos: o que você quer explorar que ainda não explorou em Arauver?
Henrique Scopel: Arauver tem muito tema de redenção e morte, sobre a inevitabilidade do fim, como isso afeta uma cadeia hereditária da nossa vida sem a gente perceber. No meu livro novo, que já está pronto e já está com a editora, eu explorei uma coisa que eu não consegui explorar em Arauver: o trauma na adolescência. As diferentes adolescências dentro do Brasil e como os nossos traumas se tornam o verdadeiro medo nessa fase, a aceitação, aceitação da sexualidade, aceitação do corpo.
Só que dentro de um terror cósmico. Normalmente, terror cósmico é aquela coisa contemplativa, de um investigador sozinho, e eu quis trazer isso pra um contexto adolescente. Porque, pra um adolescente, tudo é maior do que um deus cósmico.
Como foi a sua experiência publicando com a Flyve?
Henrique Scopel: Foi a melhor possível. Eu falo isso pra todo mundo desde sempre. Eu vim de uma editora que me tratou muito mal, eu não tinha abertura para saber o que estava acontecendo com meu livro, royalties ou para saber do processo. Na Flyve eu fui tratado muito bem e eu aprendi com a editora como trabalhar minha carreira: desenvolver público, desenvolver post, entender como me posicionar dentro do mercado.
Eu não tinha tanto público quanto tenho hoje. Eu sou publicado há oito anos, mas só faz uns três que eu comecei a saber trabalhar minha carreira. Então não foi só a publicação de um livro, sabe? É uma parceria que me deixa seguro, porque eu sei que se eles fazem a parte deles e eu tenho que fazer a minha também, senão a gente não desenvolve nada. Está sendo a melhor experiência possível de novo agora com o livro novo.
Pra quem está começando agora e sonha em lançar um livro: qual conselho você gostaria de ter ouvido lá no começo da sua carreira?
Henrique Scopel: Tenha uma comunidade que queira ler o seu livro. Antes de qualquer coisa, comece a movimentar suas redes sociais para o lado da literatura. Comece a criar um público que queira ler o que você vai produzir, porque, se você lançar sem esse público, você não vai vender. A sua família inteira não vai comprar. Seus amigos, muitas vezes, também não vão. Então você acaba dependendo de pessoas “estranhas”, gente que não te conhece, mas quer ler o seu livro. Crie esse público.
E não caia na conversa de mentirosos, gente que diz que vendeu 10 mil no mês. Às vezes é melhor fazer o seu trabalho mais sozinho, mais independente, do que comprar curso de gente que faz 10 mil reais por mês na literatura porque vende curso, não porque vende livro.
No fim das contas, a literatura brasileira não está “faltando”: ela está acontecendo o tempo todo, em silêncio e com muita gente trabalhando sério! Se você curte fantasia e quer acompanhar mais do trabalho do Henrique, dá para seguir o autor no Instagram aqui e, para conhecer melhor a trilogia Crônicas de Arauver e ficar por dentro dos livros, é só clicar aqui.
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