Depois de chamar atenção com Longlegs e The Monkey, o diretor Osgood Perkins retorna com Keeper (no Brasil, Para Sempre Medo), um thriller psicológico que flerta com o cinema experimental. O resultado? Um filme com momentos genuinamente perturbadores, mas cuja lógica narrativa parece deliberadamente fragmentada e nem sempre de maneira satisfatória.
Se por um lado a atmosfera é densa e inquietante, por outro, a sensação constante é de que Perkins projeta na tela uma colagem de referências e ideias soltas, sem necessariamente amarrá-las em algo coeso.
Romance, isolamento e suspeita
A trama acompanha Liz (interpretada por Tatiana Maslany), uma artista urbana insegura quanto ao próprio relacionamento, e Malcolm (Rossif Sutherland), médico reservado que a convida para passar alguns dias na cabana de sua família, isolada da civilização.
O cenário, uma elegante casa de madeira cercada por floresta, evoca imediatamente o clássico “cabana na floresta”, território fértil para o horror psicológico. Malcolm parece o parceiro perfeito: atencioso, calmo, orgulhoso do talento da namorada. Ainda assim, algo soa errado.
A presença do primo inconveniente Darren (Birkett Turton) e sua misteriosa namorada Minka (Eden Weiss), além de um bolo suspeito deixado por zeladores nunca vistos, adiciona camadas de estranheza à estadia.
O ponto de virada surge quando Liz, aparentemente contra sua própria vontade, devora o bolo de chocolate durante a madrugada. A partir daí, a narrativa mergulha em sequências oníricas e alucinatórias: figuras humanoides sombrias, ecos de antigas namoradas, presenças espectrais e até flashbacks que sugerem eventos ocorridos dois séculos antes.
A proposta é claramente impressionista, menos interessada em explicar fatos e mais focada em provocar sensações. O problema é que, conforme o filme avança, a sucessão de imagens e sugestões começa a soar menos enigmática e mais arbitrária.
Perkins flerta com a tradição do horror psicológico feminino, dialogando com obras como Repulsion, de Roman Polanski e Images, de Robert Altman. Há também ecos do terror experimental contemporâneo, como Skinamarink, de Kyle Edward Ball, embora sem alcançar o mesmo impacto sensorial.
Atmosfera acima de tudo em Para Sempre Medo
Visualmente, Para Sempre Medo é elegante. A fotografia de Jeremy Cox aposta em uma austeridade naturalista, explorando sombras, reflexos em janelas e o vazio da floresta ao redor da casa. O uso do som é igualmente importante: ruídos sutis, passos que não deveriam existir e músicas antigas, como “Love Is Strange”, de Mickey & Sylvia, e “I Don’t Want to Play in Your Yard”, eternizada por Peggy Lee, criam um contraste inquietante.
Durante boa parte do tempo, o filme funciona como um exercício de tensão minimalista: uma mulher sozinha em uma casa que talvez não esteja vazia.
O maior problema surge no terço final. Após investir em ambiguidade e confusão calculada, o filme decide explicar sua própria mitologia. Entram em cena exposições verborrágicas, criaturas digitais excessivamente iluminadas e uma tentativa de amarrar tudo a uma lógica quase “à la Shyamalan”.
O que antes era sugestivo se torna literal e o que parecia ousadia vira excesso de explicação. A sensação final é que Perkins acerta ao apostar em um horror de atmosfera e introspecção mas tropeça ao tentar justificar racionalmente algo que funcionava melhor no campo do não-dito.