Alguns amores são simplesmente inevitáveis. No meu caso, um deles atende pelo nome de franquia Pânico. Não importa quantos filmes passem, quantos diretores assumam ou quantos assassinos troquem de máscara: sempre volto. Assisti Pânico 6 recentemente e, como sempre acontece, saí com a mesma sensação contraditória. Nenhum filme vai superar o primeiro. Nunca vai. Mas, ainda assim, eu continuo assistindo todos, porque certas histórias simplesmente fazem parte da nossa vida.
Talvez seja por isso que histórias, no sentido mais amplo possível, continuem existindo. A gente sabe que já viu muitas versões antes. Reconhece arquétipos, caminhos narrativos, personagens que parecem familiares e mesmo assim, voltamos. Porque, no fundo, contar histórias é uma das poucas coisas que a humanidade faz há milênios sem conseguir abandonar.
E é justamente nesse território que entra o livro da resenha de hoje. A conversa é sobre fábulas, mitologia e imaginação. O livro da vez é A Fábula do Príncipe Narseu, de Paulo Otávio Barreiros Gravina, publicado pela Editora Cândido, com ilustrações de Luci Villanova. Este é o segundo livro do autor e foi enviado por ele para leitura.
Quando imaginar ainda é necessário
Logo nas primeiras páginas, o livro apresenta uma dedicatória que funciona quase como um manifesto.
“Dedico este livro àqueles para quem os desgostos do mundo não derrotaram a capacidade de fabular.”
Em tempos de excesso de informação, ansiedade coletiva e uma espécie de objetividade quase industrial aplicada a tudo, inclusive à arte, essa frase ganha um peso especial. A ideia de fabular, de imaginar mundos e possibilidades, parece cada vez mais deslocada em um cotidiano que exige respostas rápidas, produtividade constante e pouco espaço para contemplação.
Talvez por isso a proposta do livro se torne interessante logo de saída. Ele parte justamente daquilo que muitas narrativas contemporâneas evitam: o mito, o maravilhoso e o fantástico.

A sinopse apresenta bem o ponto de partida da obra: fantasia, mitologia, mundos e seres imaginários, além de elementos como mapa, língua e sistema numérico fictícios, compõem o universo de A Fábula do Príncipe Narseu. A narrativa é conduzida por uma voz anônima que conversa diretamente com o leitor desde o início, convidando não apenas a acompanhar a história, mas também a refletir sobre o sentido do maravilhoso tanto no processo criativo quanto na vida contemporânea.
À primeira vista, o livro pode ser definido de maneira bastante simples, trata-se de uma fantasia infantojuvenil estruturada dentro da tradicional jornada do herói. Há terras desconhecidas, povos com culturas próprias, um protagonista bastardo e a promessa de salvar uma princesa e um reino.
Predomina uma escrita acessível, direta, mas que ocasionalmente incorpora um vocabulário um pouco mais elaborado, criando uma leve estranheza que combina com o tom de fábula. Considerando que o autor possui mestrado em Letras, essa escolha parece deliberada, funcionando como uma tentativa de equilibrar simplicidade narrativa com uma atmosfera literária mais tradicional.
O ritmo da história também contribui para essa proposta. A narrativa avança em passos relativamente curtos, sem longas digressões ou descrições excessivas. Ao mesmo tempo, o livro não deixa a sensação de que algo está faltando. Pelo contrário, a impressão é de que o mundo apresentado possui muito mais histórias possíveis do que aquelas mostradas ali.
Mapa, imagens e imaginação em A Fábula do Príncipe Narseu
Outro elemento que contribui para a experiência de leitura são as ilustrações em preto e branco de Luci Villanova. As imagens acompanham o texto ao longo da obra e ajudam a reforçar o clima de fantasia, funcionando quase como margens visuais para a narrativa.

Logo no início do livro, há também um mapa do mundo de Trissena, descrito como “a estrela nova”, que serve como guia inicial para o leitor. Em histórias de fantasia, mapas costumam cumprir exatamente esse papel: abrir a porta para o universo fictício antes mesmo de a narrativa começar.
Aqui, ele funciona como um convite direto à viagem.
Entre os momentos que revelam melhor o espírito da obra está um trecho que reflete diretamente sobre o lugar do ser humano dentro do universo imaginado:
“Cada estrela que observais no céu noturno é um mundo, e todos os mundos estão em movimento uns em relação aos outros, inclusive o nosso. Vossa terra também brilha e voa à distância, entretanto sois incapaz de vê-la assim por estardes fixado nela.”
Sobre o autor
Paulo Otávio Barreiros Gravina é graduado em Economia e mestre em Literatura Brasileira pela PUC-Rio. Atua como autor, tradutor, revisor e editor de livros e textos, além de economista e professor de escrita na CCEC da PUC-Rio. Também participou de projetos sociais voltados ao incentivo da leitura.
Ao longo de sua trajetória, trabalhou como tradutor e revisor de textos acadêmicos, colaborando inclusive com plataformas educacionais como a EnsineMe, que presta serviços para diversas instituições de ensino, entre elas a Universidade Estácio de Sá.
Em 2017 lançou seu primeiro livro, QUE BRAZIL É ESSE? — O que eles disseram sobre o Brasil. Dois anos depois publicou A Fábula do Príncipe Narseu, sua narrativa de fantasia. Mais recentemente, em 2025, lançou seu terceiro livro, Família Pacheco — 190 anos, de caráter biográfico.
Além da produção de livros, seus textos já apareceram em revistas e jornais literários, sites de literatura e publicações acadêmicas. Em 2014, quatro de seus textos foram apresentados na exposição Espace Urbain, realizada em Paris.
Durante a leitura desta resenha, vale mencionar que, além de A Fábula do Príncipe Narseu, o autor também enviou para leitura seu terceiro livro, Família Pacheco — 190 anos, bem como seu primeiro trabalho publicado, QUE BRAZIL É ESSE? — O que eles disseram sobre o Brasil.
