Seu Amigão da Vizinhança Homem-Aranha é a mais nova série do cabeça de teia, sendo a volta do personagem ao mundo das séries animadas, desde sua última série em 2017. A obra do Disney+ estreou em 29 de janeiro e teve 10 episódios em sua primeira temporada. Tendo seu ultimo episódio lançado hoje (19).
Nesta primeira temporada, acompanhamos uma história que é a versão alternativa daquela que acompanhamos com o Homem-Aranha de Tom Holland no MCU. Enquanto lá, Peter estudava no Midtown High, uma escola de ciências e tinha como mentor Tony Stark. Aqui, o protagonista vai para uma escola comum e é mentoreado por Norman Osborn, durante seus primeiros passos como o herói que escala paredes.
A narrativa
Apesar de simples, a mudança de escola já traz uma nova dinâmica ao personagem, trazendo-o de volta a suas origens de “pessoa comum”, tirando-o de um local focado em “super gênios” e colocando novos percalços em seu caminho. Uma vez que agora Peter tem mais dificuldades de gerenciar suas aulas com os crescentes afazeres de seu alter-ego, coisa pouco explorada no MCU.
A narrativa da série começa lenta, mas ao decorrer da temporada ela cresce e se torna mais instigante. O que a princípio parecia apenas uma história do cabeça de teia lutando com pequenos bandidos se torna uma teia complicada, quando Peter tem de lidar com inimigos equipados com armas perigosas, enquanto tem que balancear isso com sua vida pessoal.
Além disso, a mudança de mentor traz uma dinâmica de tensão latente, pois embora a princípio esta versão do Norman parece uma pessoa boa, sem segundas intenções, nós, por conhecermos sua persona, devido a outras versões do personagem, sabemos que tem algo a mais nessa relação.
Outro ponto da narrativa que é instigante em Norman, é o tratado de Sokovia (lei da Guerra Civil que obriga os heróis a se registrarem), que usa isso a princípio como desculpas para ajudar Peter. Porém, ao decorrer da temporada, Osborn mostra que é alguém ganancioso e não liga para Parker ou ninguém, focado em apenas ganhar poder, pois como o mesmo diz, “Com Grandes Poderes, Vem Grande Respeito”. Tal filosofia o coloca em conflito direto com as crenças de Peter, fazendo com que, no final da temporada, a relação dos dois deixe de ser Mentor e Mentoreado. E colocando um embate ideológico interessante a ser explorado na vindoura segunda temporada.
A animação
Uma das coisas que mais chama atenção nesta série é sua animação. Ela é baseada nas artes do brasileiro Leo Romero. Porém, a princípio, a animação causa uma estranheza, uma vez que o modelo 3D tenta emular a arte 2d de Romero, mas aos poucos esta estranheza dá espaço a um estilo único. Assim, permitindo que certas coisas que seriam difíceis no 2D, aqui sejam possíveis, como, por exemplo, as cenas de ação que têm movimentos mais fluidos e movimentos de câmeras mais criativos. Dois grandes exemplos disso são as lutas do Aranha contra o Demolidor e do Aranha contra o Escorpião.
Falando no Escorpião, é impressionante o como a série não tem travas no quesito da violência, coisas que outras séries animadas do herói, como a clássica dos anos 90, tinham. Aqui as lutas têm peso e são brutais, fazendo com que seja possível sentir a ameaça crescente em cada novo vilão ao longo dos episódios.

O Dilema MCU
Ainda falando de vilões, esta série decide se afastar ao máximo do MCU neste quesito. Enquanto lá, os vilões em sua maioria tinham alguma ligação com Tony Stark, aqui eles exploram os vilões do aranha por ligações ao Norman e ao próprio Peter. Um grande exemplo disso é o Octavius, que é apenas um personagem que move engrenagens nesta temporada. Mas já começa a expor que Norman pode não ser quem Peter imagina.
Em relação aos visuais, é onde a série encontra o exemplo de seu principal problema. Ela não sabe se quer ser uma série clássica do Homem-Aranha, ou uma releitura do MCU. Assim sendo, muitos personagens têm visuais retirados diretamente das HQs, como Octavius, enquanto outros têm seus visuais quase copiados dos filmes, como o Capitão América.
Isso se reflete na trama, pois assim como o Aranha do MCU, toda vez que parece que vai ser seguido um caminho mais pé no chão, vem algo cósmico, como o Doutor Estranho. Que nessa animação é o responsável por dar, indiretamente, os poderes ao Peter. O causa um certo estranhamento e gera uma duvida de se essa série sabe o que quer ser.
Tal dilema que a série tem é exemplificada na figura do personagem do Tio Ben. Enquanto se diferencia de sua contrapartida do MCU, deixando claro que Ben existiu neste universo e sua vida e morte impactam Peter, inclusive fazendo seu interesse em fotografia vir dessa relação. A série não assume a morte de Ben como algo relacionado ao egoísmo de Peter, assim tirando o peso dela das costas do personagem e não o fazendo aprender a lição do “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”, assim como o MCU.

Os Personagens
As relações entre personagens é o ponto forte dessa animação. A série usa seus 10 episódios com calma para estabelecer quem são os personagens e suas relações, antes de fazê-las mudar. Assim, nada é abrupto e traz para essa versão algo que é imprescindível para toda boa obra do Aranha, o drama pessoal.
Porém, o Peter Parker é o personagem mais desinteressante de sua própria série. Apesar de ser um personagem com suas motivações e desejos, o fato de todos seus problemas serem por conta do homem-aranha o enfraquece. O que é estranho visto que os criadores da série disseram que usaram de inspiração a era Ditko/Lee para a série. Nesses quadrinhos o Peter tem uma personalidade forte, chegando a ser arrogante em certos momentos, o que causa alguns problemas para ele. Coisa que na série não é mostrado.
Porém ao final da temporada é possível observar que Peter se torna menos passivo em sua própria vida e começa a tomar suas decisões. Um exemplo disso é quando o mesmo discorda de Norman abertamente. Mostrando assim, que talvez esta versão do personagem venha a se portar mais como sua contrapartida da era Ditko dos quadrinhos.

Em contrapartida, o Lonnie Lincoln é sem dúvidas o personagem mais interessante, sendo usado como o contraponto de Peter. Enquanto o protagonista aprende sobre responsabilidades e sobe na vida, vemos que Loonie, o quarterback com futuro brilhante, tem sua vida desmoronando sobre seus pés. Uma vez que o mesmo tem que entrar para uma gangue, com o intuito de salvar seu irmão caçula. Logo, o personagem, diferente de Peter, abandona a vida dupla e assume totalmente seu lado gângster. Sentindo prazer nisso, Lincoln cresce dentro da gangue, e assume o nome Lápide.
O futuro
Apesar de sua história ainda não ter recebido seu final, já é possível ver o caminho que Lonnie vai seguir. Uma vez que, após uma tentativa falha de assalto, ele é exposto a um produto experimental, que o torna indestrutível e sua pele começa a se tornando branca. Ademais, neste mesmo assalto, ele se torna o chefe da gangue. Assim sendo, a série cria o caminho para Lincoln se transformar no chefe do crime que é nos quadrinhos.
Além disso, o último episódio traz ganchos interessantes para o que podemos esperar no futuro da série. Ao que tudo indica, ela vai se distanciar cada vez mais de sua contrapartida live action e focar mais no núcleo do Homem-Aranha. Com histórias como a do Doutor Octopus, Duende Verde e até a do traje negro já tendo suas peças colocadas neste tabuleiro.
Ademais a série ainda traz linhas narrativas novas e interessantes para serem exploradas na série, como o fato de o pai de Peter estar vivo e preso. E o fato da personagem Nico ter super poderes relacionados a magia e ocultismo.
Seu Amigão da Vizinhança Homem-Aranha, já está com sua primeira temporada completa no Disney+. Apesar de pequenos deslizes, é uma versão interessante e divertida deste personagem e seu núcleo. Além de ser uma ótima porta de entrada para possíveis fãs do Cabeça de Teia.