Existe um nível específico de insanidade que só quem está esperando um e-mail sem prazo entende. Duas semanas olhando para a minha caixa de entrada, atualizando como se a própria força de vontade fosse acelerar o universo e nada. O ápice foi sonhar com o tal e-mail três vezes. Literalmente. Em duas semanas.
Talvez seja o calor. Porque está calor demais. Eu sei que já reclamei antes, mas agora preciso reclamar mais uma vez dos quase quarenta graus e a sensação de que eu estou assando viva. Hoje a conversa é sobre A Bruxa de Ouro Preto, recebido diretamente do autor L. H. Vaz, um livro que confirma que o horror brasileiro tem identidade própria, força e coragem para cutucar feridas históricas profundas.
Você pode encontrar A Bruxa de Ouro Preto no site do autor AQUI!
Ouro Preto como cenário vivo e ameaçador
A história acompanha a família Resende, que decide deixar Belo Horizonte e recomeçar a vida em Ouro Preto, onde os pais passam a lecionar na UFOP. A nova casa, situada aos pés de um antigo morro de extração de ouro, carrega mais do que poeira e memórias coloniais. Ali habita a presença de uma bruxa devota a forças obscuras, ligada a um passado em que escravidão, rituais e prosperidade caminhavam lado a lado.
Perseguida por um trauma recente, Ana Resende vê na mudança uma tentativa de reconstrução. O que ela desperta, porém, é algo muito mais antigo e cruel. O espírito de uma bruxa do século XIX passa a assombrar não apenas a casa, mas a própria estrutura emocional da família. A luta deixa de ser apenas psicológica e se torna uma batalha direta pela alma e pela sobrevivência.
Ouro Preto não é pano de fundo. As ladeiras, a arquitetura colonial, o peso histórico e as marcas da exploração do ouro criam uma atmosfera quase sensorial e o livro transforma o espaço em extensão do horror, lembrando constantemente que o passado brasileiro nunca está realmente enterrado.
Narrado em terceira pessoa, o romance constrói uma proximidade imediata com os personagens. Há naturalidade no texto, fluidez e uma cadência que faz a leitura avançar com facilidade. É o tipo de livro que só não é devorado em um único dia por falta de tempo, porque vontade não falta.
Os personagens são vivos, reconhecíveis e profundamente humanos. Existe humor sutil, metáforas inteligentes e referências culturais que enriquecem a narrativa sem torná-la excessivamente ornamentada. As menções à cultura mineira e às referências musicais criam uma ambientação e mesmo quando o leitor não compartilha os gostos da protagonista, a imersão acontece.
A atmosfera gótica se combina com elementos que remetem a clássicos do terror como O Exorcista mas sem perder identidade nacional. O livro honra o cenário brasileiro e utiliza a própria história do país como combustível para o horror.
Conexão com o universo de O Culto Amarelo
Para quem já conhece O Culto Amarelo, também de L. H. Vaz, é possível perceber a expansão de um universo que transita entre o sobrenatural e o cotidiano mineiro. Em O Culto Amarelo, adolescentes investigam a morte de uma colega enquanto indícios de uma seita começam a surgir, misturando terror cósmico e conspiração em plena Belo Horizonte contemporânea.
A Bruxa de Ouro Preto amplia esse universo ao deslocar o foco para o interior histórico de Minas Gerais e aprofundar a conexão entre passado e presente. A sensação de que o sobrenatural está enraizado no tecido social permanece.
Uma experiência densa e brasileira
Talvez leitores extremamente calejados no terror não percam noites de sono. Mas isso não diminui a força do livro. A experiência é incômoda, densa e profundamente brasileira. É o tipo de história que puxa pela mão e arrasta o leitor pelas ladeiras de Ouro Preto, fazendo imaginar paredes que sussurram e sombras que observam.
A Bruxa de Ouro Preto confirma que o horror nacional não precisa imitar fórmulas estrangeiras para funcionar. Ele encontra força na própria história, nas próprias cicatrizes e na própria cultura.