Recentemente, li uma newsletter a qual o título me interessou de imediato e, ao final da leitura, fez-me refletir sobre o assunto. O texto aborda o direito de ser lento e o quanto nos cobramos por maior produtividade. Essa pressão social vai além de métricas carreiristas, pois para quem lê e acompanha influenciadores nas redes sociais, a sensação é que você está sendo passado para trás o tempo todo.
Com isso, resolvi compartilhar um pouco sobre minha reflexão. Então, desative os cronômetros, sente-se em posição zen, acenda a Luminária e vamos conversar sobre ritmo de leitura.

A sociedade acelerada e a demanda em curto prazo
Como mencionei, o texto de Luri Ribeiro intitulado “Conquistando o direito de ser lento” fez-me refletir sobre a alta pressão que me imponho ao trabalhar com criação de conteúdo literário, mesmo que de forma amadora. O mundo capitalista sempre pregou sobre demanda e oferta para conquistar clientes e justificar o preço. No caso do influencer digital, o algoritmo exige uma alta demanda de entrega de conteúdo para resultar em maior alcance de público, aumentando a possibilidade de adeptos ao assunto que busca transmitir. O preço? Elevado investimento em performance e ocupação de um tempo já escasso, devido a outros compromissos da vida.
Ao mesmo tempo, é preciso lidar com o cotidiano urbanístico e a relação casa-trabalho-estudo, demandando também tempo em trânsito, exigindo vida social, atenção à família e aperfeiçoamento nos estudos, os poucos minutos que sobram são consumidos pela rolagem de telas e minidoses de dopamina. Tudo isso gera uma percepção de tempo de forma acelerada e resultando em um corpo estafado. Byung-Chul Han chama de “sociedade do desempenho”, na qual o indivíduo é, ao mesmo tempo, explorador e explorado.

A newsletter de Luri Ribeiro expõe a rivalidade da quantidade com a qualidade, ou seja, para a sociedade vale mais o acúmulo de performances para atingir o devido reconhecimento, do que um trabalho mais espaçado cujo desenvolvimento detalhado poderia promover maior assertividade. A matéria exemplifica as obras de Hayao Miyazaki, conhecido pelo seu trabalho primoroso na indústria da animação japonesa, mas que só conseguiu tal reconhecimento quando, na década de 60, ele participou de uma greve contra os prazos apertados, cortes de custos e baixa qualidade do produto cinematográfico.
Posso acrescentar também a recente polêmica da alta demanda de produção da Marvel. Os 15 lançamentos seguidos de séries e filmes entre 2021 e 2022 resultaram em insatisfação do público e dos funcionários da Marvel Studios. Os fãs começaram a reclamar da qualidade dos efeitos visuais e dos roteiros fracos e genéricos, enquanto a equipe de pós-produção denunciou agendas apertadas e más condições de trabalho com o intuito de cumprir os pequenos prazos impostos pela diretoria.

Quantidade e qualidade das leituras
Trazendo esse aceleramento da produtividade para o contexto literário, a pressão pela performance “quanto mais, melhor” pode gerar ansiedade e síndrome do impostor, tanto em leitores quanto em criadores de conteúdo. Afirmo que perfis literários nas redes sociais são um ótimo incentivo para a leitura, mas também podem influenciar indiretamente a uma cobrança pessoal e fora da realidade de quem os consome.
Quem não gostaria de ler 15 livros por mês? Ou participar de vários clubes do livro e receber dezenas de caixinhas em casa? Esta é a realidade de muitos que trabalham exclusivamente com conteúdo literário para a internet, ou seja, seu tempo e dinheiro são totalmente voltados para os consumidores de livros e o mercado editorial. Mas não se engane, há casos cujos profissionais da internet podem demonstrar nas telas uma realidade que não vivem, assim como já falei em “O uso dos livros como performance estética“.
Porém, leitores comuns consomem este conteúdo sem discernir a realidade de cada um e traçam metas impossíveis para si. Eu também já sofri por colocar objetivos que, no final, não conseguia alcançá-los ou porcamente entregava conteúdos necessários, priorizando mais a alimentação do algoritmo do que acrescentar algo na vida de quem assiste ou lê meu trabalho. Foram muitos episódios de frustração que, por vezes, me fizeram cogitar parar com tal esforço sem resultado imediato.

É preciso buscar a virtude da paciência. O que busquei para mim e aconselho aos outros também a fazer, é entender melhor a sua rotina e saber o seu limite de tempo para a leitura, dando-se o direito de levar o tempo necessário para conclusão da atividade. Escolher bons livros, flexibilizar os prazos, ler com mais calma e aproveitar mais as passagens das histórias promovem uma maior qualidade literária e um retorno mais prazeroso pela atividade. O hobby da leitura volta à sua essência de proporcionar satisfação com as palavras.
Porém, tal morosidade deve ser exercida de forma cautelosa, para depois não estar postergando as atividades desnecessariamente. O ideal é sempre equilibrar essas duas realidades, buscando cumprir metas possíveis, que são ótimas ferramentas para completar uma tarefa, mas também utilizando prazos mais amplos e reais, conforme sua capacidade produtiva.
Luminária é a coluna literária na qual conversaremos sobre livros a cada quinze dias. Para mais conteúdos literários, acesse o portal.