Já se perguntou se você, leitor, tem livros demais ou de menos? Ser um acumulador de obras literárias é um motivo de orgulho para quem gosta de ler, é um prazer construir uma biblioteca pessoal. Mas até que ponto a coleção de livros torna-se algo excessivo?
Este questionamento eu tive enquanto escrevia a coluna literária anterior, quando debati sobre a antibiblioteca. Então, para continuar a conversa, deixe de lado sua pilha de livros, aproxime-se da Luminária e vamos falar sobre ter ou desfazer uma coleção literária.

A bibliofilia
O escritor Umberto Eco definiu “antibiblioteca” como sendo os livros adquiridos, mas ainda não lidos. É como ter um mundo novo a ser explorado, um artigo de pesquisa, um objeto de futuro interesse. Porém, muitos o criticaram se esta atitude não era apenas uma justificativa para o seu demasiado acúmulo de livros.
Umberto Eco não foi o único a escutar tal indagação, todo leitor está propenso a crítica de estar acumulando algo que nunca dará conta. Uma crítica válida sim, mas que tenta prender numa caixinha uma diversidade de situações e circunstâncias diferentes. Por exemplo, se o indivíduo é um profissional da escrita (jornalista, escritor, editor, influencer, professor, entre outros), ter muitas obras literárias em casa vai além de um hobby.
Ter muitos livros pode se enquadrar em uma bibliofilia, ou seja, uma manifestação de amor ou prática de colecionar livros, muitas vezes exemplares raros e preciosos. O prazer de comprar, levar para casa, expor na estante e saber que a qualquer momento pode ser lido é uma sensação incrível. Os japoneses chamam de tsundoku o hábito de adquirir livros e deixá-los empilhados ou acumulados, sem lê-los imediatamente.
A bibliofilia não deve ser confundida com a bibliomania, que é um transtorno obsessivo-compulsivo, o qual consiste no colecionamento de livros a tal ponto que impacta negativamente a vida do indivíduo. Tal desordem pode ser expressa pelo ato de acumular uma quantidade excessiva e irrelevante ou pela obsessão em adquirir um determinado título publicado em diferentes edições.

O que fazer com tantos livros após a morte do leitor?
A biblioteca pessoal de Umberto Eco possuía mais de 30 mil volumes e, após a sua morte, as obras foram doadas para duas bibliotecas de universidades italianas. A influencer literária Tatiana Feltrin já admitiu ter, aproximadamente, 5 mil livros em casa, o que surpreende muitos seguidores. Paulo Coelho, através de uma coluna da revista Quatro Cinco Um, argumenta que atualmente possui cerca de 300 livros e conserva-os por razões sentimentais, por vezes para releitura. O autor brasileiro explica que prefere manter uma pequena coleção, pois se entristece ao “ver como bibliotecas acumuladas cuidadosamente durante a vida são depois vendidas a peso, sem qualquer respeito”.
A realidade é que muitos livros, após a morte do colecionador, acabam sendo destinados aos parentes que podem ter apreço por tal herança, se não, serão doados a sebos e bibliotecas locais ou descartados no lixo. Talvez o leitor que esteja criando seu acervo pessoal não imagine que tanto esforço aquisitivo possa resultar em mofo e esquecimento.

O incentivo do mercado editorial
Não é novidade para ninguém que o livro é um produto que sustenta o mercado editorial. Como não dá para viver (apenas) de arte, para sobreviver, as editoras apostam seu faturamento em best-sellers e autores já consagrados pela crítica e pelo público.
Também se agarram ao poder de compra dos fãs, que brilham os olhos por anúncios de edições especiais, de luxo ou comemorativas. Muitas das vezes, tais aquisições não são feitas pelo prazer de uma história nova, mas sim, para exibir e ostentar belos volumes na estante. Com as redes sociais, amplificaram-se tais atitudes, configurando assim em reading performance, como já discorri aqui em outra coluna também.

Encontrar o equilíbrio
É claro que um livro com capa dura, cortes coloridos (pintura trilateral) e ilustrações nas páginas são artifícios para melhorar a experiência de leitura, mas não necessariamente relevantes para a história. Os livros valem pelo seu conteúdo e não por sua beleza exterior. Não julgue o livro pela capa!
Possuir bons exemplares e ter o prazer de ler é o que faz a prática da leitura ser um bom hábito, é o que te torna um bibliófilo. Com isso, é válido comprar obras que podem vir a gostar no futuro, mas também é importante ter a atitude de refletir as suas reais necessidades de ter ou não tal objeto e repassar o produto. O seu livro, que já fez parte da sua biblioteca pessoal, poderá compor a coleção de outro leitor.
Atualmente, tenho algumas dezenas de livros em casa, e sim, desejo aumentar minha coleção. Mas para evitar compras de volumes que talvez eu não goste, faço uma curadoria antes da aquisição. Também faço e indico a doação, troca ou venda de exemplares que não tenho mais interesse, é ótimo abrir espaço na minha estante.
Luminária é a coluna literária na qual conversaremos sobre livros a cada quinze dias. Para mais conteúdos literários, acesse o portal.