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Luminária: Entretenimento também é literatura

Venho por meio desta coluna promover a justiça! Promover a paz! Aqui na Luminária, já defendi a literatura clássica e sua importância, agora venho argumentar sobre a relevância dos livros de entretenimento e tentar apaziguar a rivalidade que tentam promulgar entre estas duas categorias. Por isso, baixem suas armas, levantem a bandeira branca, acendam a Luminária e vamos conversar sobre a literatura de entretenimento.

A problemática

Uma guerra antiga e infindável é a rivalidade entre a literatura clássica e a de entretenimento, que também posso adjetivar como sendo obtusa e irrelevante. Importante mesmo é o ato da leitura e a diversidade de histórias e gêneros. Porém, este meu pensamento esbarra na visão de outros leitores que defendem ou um ou outro, mas não os dois.

Há leitores que gostam de água com açúcar, da leitura fluida, mais genérica, apelativa e divertida, justificando os livros de entretenimento como um alívio para os momentos de tensão da vida cotidiana ou devido à facilidade de passar as páginas e finalizar uma obra dentro de pouco tempo. E esta pessoa está certa.

Também há leitores que degustam o café mais amargo, pois traçam narrativas mais lentas, com vocábulos por vezes mais complexos ou obsoletos, que mergulham na alma para mostrar o melhor ou o pior de si. Estes consumidores dos clássicos justificam suas escolhas encarando o livro como algo sagrado, um aprendizado infindável. E esta pessoa está certa.

Ambos os consumidores de livros acreditam estar em rotas diferentes, na verdade, estão na mesma estrada, porém de mão dupla. Uma via direciona um sentido em oposição à outra, mas não impede que o condutor transite pelas duas, há uma linha amarela e tracejada nela, a pessoa pode optar pelo que melhor lhe provê.

O entretenimento é propulsor

Em uma das minhas colunas, intitulada “Por que os clássicos não envelhecem mal?”, já abordei o quão essencial é a leitura dos clássicos na vida literária de um indivíduo. São livros que, mesmo datados de sua época, contêm uma diversidade de camadas e subtextos que trazem reflexões essenciais até hoje. Os autores contemporâneos bebem destas histórias para compor as suas próprias narrativas, tal movimento é visto tanto no mercado literário quanto no audiovisual.

A literatura de entretenimento é tão essencial quanto a clássica e isso não é mera opinião minha. A primeira grande vantagem dessas obras é que tais livros são a porta de entrada para o mundo literário. Por possuírem uma linguagem mais simples, mais fluida, por vezes menos descritiva e, normalmente, mais atual, conseguem capturar a atenção daquele que está lendo pela facilidade de compreender o texto.

Um depoimento pessoal que posso dar é que, durante minha adolescência, eu amava ler os livros de Crepúsculo (Stephenie Meyer) e de Percy Jackson (Rick Riordan), mas eu não apreciava tanto os exigidos pela escola que, por vezes, eram os clássicos. Não só o enredo era mais emocionante, mas a facilidade da leitura proporcionava uma experiência melhor do que ler Iracema (José de Alencar), mesmo a versão adaptada para o público infanto-juvenil.

Além disso, os livros de entretenimento também exercitam a compreensão textual e promovem o aprendizado de novos vocábulos. Não era via de regra, mas a primeira vez que li Crepúsculo precisei recorrer algumas vezes ao dicionário, lembro-me que não sabia o que significava “assentir” e “torpor”, por exemplo.

Como há também uma maior oferta de livros de entretenimento, eles engendram nos gêneros e subgêneros, tendo alcance para todas as idades e gostos. Com exceção das histórias envolvendo mundos irreais, há o aprendizado de novas culturas através de narrativas que se passam no oeste dos Estados Unidos, na nublada Londres, nos areais do Deserto do Saara, no frio de uma cordilheira… Por vezes, até em outra época! Os Bridgertons (Julia Quinn) são romances escritos a partir dos anos 2000, mas ambientados entre o século XIII e XIX.

O entretenimento não é somente a porta de entrada para a vida literária, mas também para iniciar a leitura dos clássicos! O leitor que já possui uma quantidade de livros em seu currículo, uma boa carga vocabular e o desejo de se desafiar a expandir suas escolhas pode procurar por livros mais profundos e surpreender-se em gostar da leitura. O romance Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë) teve uma crescente procura quando a autora Stephanie Meyer alegou ter se inspirado em tal obra para compor a sua.

O professor de filosofia Ricardo Villar, para a Folha dos Lagos, comenta que ser “partidário dos clássicos não me proíbe (e nem me inibe) de abordar o lugar, o propósito e as limitações desses livros. Dizer que tais trabalhos não possuem valor seria de uma arrogância absurda, pois são eles que, além de sustentarem muitas das despesas do mercado editorial (permitindo um maior fôlego financeiro para publicar autores consagrados e estreantes), também costumam ser, para muitos, a porta de entrada para o universo da leitura”. Ou seja, uma categoria dá provimentos à outra.

As redes sociais, incluindo o movimento do booktoker, do bookstagram e do booktuber, promovem maior divulgação dos livros voltados para o entretenimento, principalmente na categoria jovem-adulto (YA). Tais volumes de ampla tiragem das gráficas e boa vendagem nas livrarias e e-commerce são o carro-chefe dos lucros editoriais, proporcionando o sustento do mercado, os empregos dos profissionais e promovendo oportunidades para os clássicos também serem acolhidos em seus catálogos.

Por vezes também, as redes sociais e a indústria cinematográfica alavancam a fama de clássicos que despertam a curiosidade daqueles que ainda se limitam ao entretenimento. Quem não se lembra da febre das editoras brasileiras em lançar suas versões de “Anne de Green Gables” (Lucy Maud Montgomery) após o lançamento da série “Anne With An E” (Netflix)? Apesar de ser um clássico canadense e em domínio público desde 2012, a obra só conseguiu espaço no mercado editorial devido à série para TV e ao apelo do público.

Talvez, o que poucos não sabem, é que muitos clássicos hoje já foram entretenimento de suas épocas. As peças teatrais de Shakespeare eram encenadas para o povão de sua época. Outro exemplo são as aventuras de Sherlock Holmes que eram publicadas em folhetins para o grande público. 

Diante disso, proponho um acordo de paz entre os clássicos e o entretenimento, pois ambos são essenciais para o leitor, sendo que gostar de um não impede a leitura do outro. A pessoa que gosta das obras contemporâneas pode (e deve) também se aventurar naquelas que o tempo consagrou, enriquecendo o repertório e se divertindo ora com um, ora com o outro. Aos leitores amantes dos clássicos, por vezes, é bom aventurar-se nos de entretenimento como uma rota de fuga e diversão. Uma dica que sigo e proponho é alternar entre as duas categorias.

Luminária é a coluna literária na qual conversaremos sobre livros a cada quinze dias. Para mais conteúdos literários, acesse o portal.

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