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Luminária: Os vícios e as virtudes de “A Inquilina de Wildfell Hall”

Recentemente, li o clássico inglês “A Inquilina de Wildfell Hall”, de Anne Brontë, através da edição da Principis (2021). Surpreendeu-me perceber o quão fácil foi a leitura para um livro do século XIX, mas o que mais me impressionou foram as temáticas abordadas: as consequências extremas do álcool e a violência no casamento.

A história angustiante da personagem Helen reflete, em certos aspectos, as apreensões vividas pela própria autora, a qual usou tal vivência ruim para compor um dos maiores clássicos mundiais. A minha boa experiência com a leitura provocou o desejo de compartilhar alguns aspectos lidos. Com isso, deixe de lado a garrafa, sente-se sobriamente sob a Luminária e vamos conversar um pouco sobre “A Inquilina de Wildfell Hall”.

As Histórias Paralelas

Para mim, a sinopse mais concisa e ampla sobre “A Inquilina de Wildfell Hall”, ou como também é conhecida “A Senhora de Wildfell Hall”, é a da edição de 2021 da Penguin Companhia:

Gilbert Markham está intrigado com Helen Graham, a bela e misteriosa mulher que acabou de se mudar para Wildfell Hall com o filho e sem o marido. Gilbert é rápido em oferecer amizade, mas, quando o comportamento recluso da inquilina começa a ser motivo de fofoca na cidade, ele se pergunta o que mais pode haver na história daquela família.

Quando Helen permite que Gilbert leia seu diário, ele começa a entender os detalhes obscuros de sua vida, seu casamento desastroso e a situação em que a vizinha se encontra.”

Neste romance há duas narrativas no passado. A primeira é iniciada assim que se começa a história, com o relato de Gilbert Markham ao seu correspondente Halford. A outra linha do tempo evoca um passado mais distante, contado através do diário de Helen, a nova moradora de Wildfell Hall. Apesar da narrativa ser contada por Gilbert, a protagonista é Helen e a obra gira em torno do seu passado, do seu presente e do seu futuro. Irei explanar um pouco mais sobre o enredo:

O leitor inicia o romance conhecendo a família Markham, da qual Gilbert é o filho mais velho e responsável pela fazenda, pelos cuidados com a mãe viúva e com os irmãos e pelo sustento da casa, também se conhece as outras famílias daquele pequeno e pacato vilarejo. A vinda de Helen Graham e de seu filho chama a atenção do pessoal, porém seus ideais e seu isolamento tornam-se temas de fofocas. Entretanto, Gilbert sente-se atraído pela dama, sentimento este que é recíproco, porém não incentivado por ela. Para aplacar as investidas dele, Helen entrega o seu diário e, com isso, o leitor interrompe a primeira linha narrativa e adentra no passado da dama.

Nos capítulos seguintes, conhece-se Helen em seus tempos de solteira, quando ela encontra com Arthur Huntington e por fim seu matrimônio desastroso. O leitor acompanha os primeiros anos da vida do casal, a gravidez, as primeiras chateações, brigas, traições… Até que o relacionamento se torna insuportável e até abusivo. Diante das circunstâncias que se sucedem, Helen não vê outra alternativa senão fugir.

Virtuosidade

É importante saber que a autora Anne Brontë é filha de um pastor anglicano, com isso, a vida clerical e os ensinamentos teológicos são encontrados em seus escritos. Sua personagem principal reflete os ideais cristãos, uma dama virtuosa mesmo na adversidade e nas tentações.

De acordo com o dicionário, virtude significa: “Característica do que está em conformidade com o correto, aceitável ou esperado por uma religião, pela moral, pela ética etc. O que segue os preceitos do bem, de normas morais; boa conduta”.

Helen Graham/Huntington possui bons princípios, é determinada, responsável e centrada. Uma mulher que enfrentou provações que abalariam a boa-fé de qualquer pessoa, mas que se manteve firme e cumprindo seu papel de esposa. Por exemplo: fugida do marido e sob a tentação da paixão que sente por Gilbert, poderia ter engendrado em um relacionamento extraconjugal, mas manteve-se fiel. Ou quando o Sr. Huntington adoeceu e, mesmo não tendo mais contato íntimo, Helen voltou-se para cuidar do mesmo.

 “[…] — Pense na bondade de Deus, e você lamentará por tê-Lo ofendido.

— O que é Deus? Não consigo vê-Lo nem ouvi-Lo. Deus é apenas uma ideia.

— Deus é sabedoria infinita, poder, bondade e AMOR; mas, se essa ideia for muito vasta para suas faculdades humanas, se sua cabeça se perde em tal esmagadora infinitude, fixe-a Naquele que condescendeu em assumir nossa natureza por Ele, que se ergueu aos céus mesmo em Seu glorioso corpo humano, no qual reluz a completude divina. […]” — A Inquilina de Wildfell Hall, ed. Principis, página 469.

Ela é uma mulher que leva os ensinamentos cristãos a sério. O mesmo não pode ser dito do seu marido, Arthur. Suas maneiras impetuosas, traidoras, lascivas e mentirosas manipulavam as pessoas à sua volta, hipnotizadas por seu carisma. Ele é a personificação do “bon vivant: homem bem-humorado, alegre, que gosta e sabe aproveitar os prazeres que a vida lhe proporciona. Seu mau comportamento era intensificado devido ao seu alto consumo de bebidas alcoólicas. Mesmo casado, o Sr. Huntington manteve um caso com outra mulher e pouco fez questão de disfarçar. Também é visto o quanto era influenciável na roda de amigos, sendo considerado o pior libertino dentre eles.

— Então eles próprios eram os demônios! — exclamei, incapaz de conter minha indignação. — E parece que você, senhor Huntington, era o primeiro a tentá-lo.” — A Inquilina de Wildfell Hall, ed. Principis, página 211.

Vício em Álcool

“[…] onde beberico e experimento, ele (Sr. Huntington) sorve a taça até a última gota” — A Inquilina de Wildfell Hall, ed. Principis, página 269.

Antagonista da virtude, o vício é o abuso compulsivo de uma substância ou um comportamento, provocando dependência física ou psicológica. Um mal que o Sr. Huntington sofreu era o uso desmoderado de bebidas alcoólicas, além de influenciar seus amigos e até seu pequeno filho a cometer tais excessos. Já na reta final, Arthur tornou-se tão desregrado com seu apetite, que mesmo quando ele estava tratando de uma condição grave e sob prescrição médica de proibição, o infeliz consomia bebidas cada vez mais, colapsando seu corpo.

A primeira dessas comunicações informou sobre um sério agravamento da doença do senhor Huntington, resultado único e exclusivo da sua própria insistência em saciar seu apetite por bebidas estimulantes. […]” — A Inquilina de Wildfell Hall, ed. Principis, página 462.

Esse aspecto negativista dos efeitos destrutivos do álcool no homem é baseado em fatos reais. A autora acompanhou as crises do irmão Branwell, considerado um alcoólatra e um viciado em ópio. No 2º prefácio da obra, escrito por ela mesma em defesa de sua história, Anne reconheceu que os leitores poderiam até considerar um tanto exagerada a sua abordagem, mas ela defendeu que, apesar disso, é possível que um jovem chegue a tais extremos e, assim, ela busca com sua literatura alertar os males que tais exageros possam provocar no indivíduo.

Não há dúvidas de que a loucura opiácea de Branwell, suas crises de embriaguez no Black Bull, sua violência em casa, seu discurso direto e grosseiro e sua perpétua ostentação de segredos pecaminosos influenciaram a imaginação das irmãs, que eram puras e inexperientes” — Introdução de Mary A. Ward para A Inquilina de Wildfell Hall, ed. Principis, página 8.

A Mulher Reformadora

Um aspecto comum em relações abusivas é o mito de que a “mulher conserta o homem”, dando uma falsa ilusão de que uma esposa tem o papel de reformadora do caráter masculino. Helen, ao ser questionada pela tia antes de casar-se, afirmava que, com boa vontade, conseguiria “corrigir” os maus hábitos do pretendente. Doce ilusão! Com o declínio conjugal e com seus esforços não surtirem efeito, a protagonista admitiu o quão equivocada estava:

Não posso fechar meus olhos para as falhas de Arthur e, quanto mais o amo, mais elas me incomodam. Receio que seu coração, em que tanto acreditei, seja menos acolhedor e generoso do que eu pensava” — A Inquilina de Wildfell Hall, ed. Principis, página 207.

Antagonizando esse tipo de pensamento, acompanha-se o também desastroso matrimônio do Sr. Hattersley, amigo tão inescrupuloso quanto Sr. Huntington, e sua esposa Millicent. Porém, quando este homem acompanhou o desfecho catastrófico de Arthur e ao escutar os bons conselhos que Helen ofereceu em prol de um casamento melhor, Hattersley procurou por si mesmo mudar sua conduta, o que satisfez sua felicidade conjugal. A autora demonstrou através deste exemplo que, com força de vontade e determinação provinda da própria pessoa, o indivíduo tem a capacidade de mudar seus atos para o bem social e afetivo.

É claro que isto não é uma resolução universal para o problema do alcoolismo, acredito que Anne projetou tal exemplo encarando os vícios do irmão como apenas uma má conduta. A visão atual daqueles que sofrem com vícios, seja o álcool ou qualquer outro tipo, é encarar como uma doença que precisa de apoio familiar e acompanhamento profissional.

Abusos Domésticos

As mulheres no século XIX não tinham muitos direitos, o que as deixavam vulneráveis na sociedade. Hoje, em nosso país, a mulher possui o amparo da Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006), a qual cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Esta normativa explica que a violência se configura em 5 tipos:

  • Física: espancamento, estrangulamento, atirar objetos, sacudir ou apertar, lesões físicas, tortura.
  • Psicológica: ameaças, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, insultos, chantagem, exploração, limitação do direito de ir e vir, tirar a liberdade de crença, gaslighting.
  • Moral: acusar a mulher de traição, emitir juízos morais sobre a conduta, fazer críticas mentirosas, expor a vida íntima, rebaixar a mulher por meio de xingamentos que incidem sobre a sua índole, desvalorizar a vítima pelo seu modo de se vestir.
  • Sexual: estupro, obrigar a mulher a fazer atos sexuais que causam desconforto ou repulsa, impedir o uso de métodos contraceptivos ou forçar a mulher a abortar, forçar matrimônio, gravidez ou prostituição por meio de coação, chantagem, suborno ou manipulação, limitar ou anular o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher.
  • Patrimonial: controlar o dinheiro, deixar de pagar pensão alimentícia, destruição de documentos pessoais, furto, extorsão ou dano, estelionato, privar de bens, valores ou recursos econômicos, causar danos propositais a objetos da mulher ou dos quais ela goste.

Destes aspectos, o Sr. Huntington cometeu contra a sua esposa, principalmente, os abusos psicológicos, morais e patrimoniais. Separei alguns exemplos do que Helen sofreu ao longo do desastroso casamento:

  • Constrangimento:

Annabella estava cantando e tocando com Arthur ao seu lado como de costume. […] Ele (Lorde Lowborough) estava na outra extremidade da sala conversando com os senhores Hargrave e Grimsby; […] fiquei imóvel e sem palavras ao vê-la sentada ali ouvindo os murmúrios sutis[…] a mão completamente rendida ao toque dele. […] e, em seguida, com ardor (Arthur) pressionou contra seus lábios aquela mão irresistível.” — A Inquilina de Wildfell Hall, ed. Principis, página 255;

  • Questionamento de sua crença:

“— Helen […] não estou totalmente satisfeito com você. [..] Não é nada que tenha dito ou feito, é algo que você realmente é: você é muito religiosa. […] a religião de uma mulher não deve diminuir sua devoção ao seu senhor mundano. […] Não incite tais paixões doentias de novo, pelo bem de minha alma.” — A Inquilina de Wildfell Hall, ed. Principis, páginas 226 e 227.

  • Manipulação:

No dia 8 de abril nós fomos para Londres, e no dia 8 de maio eu voltei, obedecendo ao desejo de Arthur […] Ele respondeu que era obrigado a ficar mais uma ou duas semanas […] Dia 23 (julho), Graças a Deus, ele finalmente chegou!” — A Inquilina de Wildfell Hall, ed. Principis, páginas 239, 240 e 247.

  • Xingamentos:

Soou muito como ‘vadia maldita’, mas eu esperava que fosse algo diferente” — A Inquilina de Wildfell Hall, ed. Principis, página 235.

  • Controle do dinheiro e privação de recursos econômicos:

Você não sentirá falta do seu dinheiro, das joias e de algumas coisinhas que achei recomendável tomar para mim […]. Deixei alguns soberanos na sua bolsa, que eu espero que dure o mês inteiro; em todo caso, quando você quiser mais, será boazinha e me informará como o dinheiro foi gasto. No futuro, eu lhe darei uma pequena mesada mensal […] — A Inquilina de Wildfell Hall, ed. Principis, página 382.

  • Danos propositais a seus objetos:

Ele deu uma espiada neles e, abaixando a vela, deliberadamente começou a jogá-los no fogo: a paleta, as tintas, as bexigas, os pincéis, o verniz.” — A Inquilina de Wildfell Hall, ed. Principis, página 381.

A Relevância da Obra Literária

O romance “A Inquilina de Wildfell Hall”, assinado a priori com o pseudônimo de Acton Bell, rendeu à autora uma grande notoriedade em sua carreira literária, com rápida adesão do público de sua época e perpetuação da obra ao longo das próximas gerações. As temáticas abordadas no romance o vinculam-no ao momento histórico das primeiras manifestações do feminismo naquele mesmo século.

Ler um clássico, assim como já explanei em outra coluna (Por que os Clássicos não Envelhecem Mal?), é não esgotar totalmente aquilo que ele tem a dizer. Engana-se quem acredita que aqui eu consegui resumir todos os aspectos que “A Inquilina de Wildfell Hall” traz em seus parágrafos. Este romance foi escrito há mais de duzentos anos e, mesmo assim, trata de temas tão atuais quanto a realidade de hoje. Por isso, sugiro fortemente a leitura desta obra.

Luminária é a coluna literária na qual conversaremos sobre livros a cada quinze dias. Para mais conteúdos literários, acesse o portal.

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