Nesta semana, através de um vídeo no YouTube, tomei conhecimento que as redes sociais vêm zoando as pessoas performáticas. O que percebi é que o assunto está sendo destrinchado em como atos do dia a dia estão sendo feitos para ficar visualmente bonitos no meio digital, mas extrapolados para o cotidiano de forma consciente ou não.
Mas classificar algumas atitudes como performáticas é uma tendência em alta já algum tempo. Não é a primeira vez que venho tratar deste assunto aqui, em outra coluna intitulada “O uso dos livros como performance estética”, eu falo sobre como ter e tirar fotos com livros tem se tornado algo instagramável, mesmo que não se tenha o hábito da leitura. Agora que a trend das performances evoluiu para outro aspecto, vou continuar esta conversa. Com isso, retire seu fone com fio, deixe de lado a sua câmera polaroid e acenda a Luminária, porque vamos falar mais sobre a performance de livros.

Sobre a trend das performances
De acordo com a IA do Google, “uma pessoa performática é alguém que age de forma criativa, exagerada ou teatral no cotidiano, frequentemente buscando atenção ou validação social nas redes sociais, como o TikTok. Esse comportamento envolve transformar situações comuns em cenas planejadas, como vestir-se de forma muito peculiar, usar itens analógicos (fones de fio, câmeras antigas) ou exibir leituras densas em público”.
Nas redes sociais de vídeos curtos, tem viralizado a trend de classificar ou caçoar atitudes cotidianas que são feitas, voluntariamente ou não, para chamar atenção. Ou ações que o mundo digital considere como sendo performático, mas que não condiz com a realidade de fato. Mas uma coisa é certa: livros são objetos que transmitem uma mensagem, uma autoridade ou um respeito àqueles a sua volta. É cult ser leitor.
Ter o hábito da leitura é uma tendência secular, que separa as pessoas de classe social mais alta (com poder aquisitivo para boa educação e compra de exemplares) daqueles de renda mais inferior, que malmente sabe ler e escrever. Ler também desenvolve criticidade e amplitude de vocabulário, o que destaca as pessoas na hora de ter um bom desempenho social. Por isso, o livro sempre foi visto como um objeto que transmite uma mensagem de “diferencial” e até de “superioridade”.
Para performar bem, é feito uma curadoria de títulos, normalmente, aqueles classificados como literatura clássica ou os que valorizam a literatura nacional ou de minoria (mulher, raça, LGBT+, entre outros). Mas nem todos que possuem um exemplar em mãos necessariamente é alguém que leu aquela história ou que entendeu o que ali está escrito. O que vale é a demonstração da capa ou dos trechos aleatórios destacados com marca texto.

Ser leitor é estar na moda
Um movimento discreto, mas que sugestivamente vem acontecendo, é a contratação de um book stylist, ou seja, profissionais que escolhem livros para compor um cenário asthetic ou para transmitir a impressão de intelectual ao famoso. Algumas marcas, visando o mercado editorial e querendo angariar os consumidores de literatura, vem apostando em artigos de moda voltados para este público.
Um exemplo recente é a coleção da Dior que estampou seus produtos com a capa original de alguns clássicos, como “Drácula” de Bram Stoker ou “Ulisses” de James Joyce. Outro fenômeno que vem conquistando os artistas é a versão em miniatura de livros e usados como chaveiros, desenvolvidos pela grife Coach. Também viralizou a perfumaria da livraria Leitura que promete devolver ao livro aquele aroma de “cheirinho de livro novo”.



É realmente performance ou está sendo considerado performático?
Alimentar as redes sociais com fotos e vídeos demonstrando um livro ou simulando uma leitura é bem comum, seja dentro ou fora da bolha literária. Seguidores e críticos julgam se realmente tal influencer tem o hábito de ler ou se é apenas um fingimento para viralizar. É sugestivo que, por tal ação ser frequente nas redes sociais, no mundo real há o mesmo pré-julgamento de que, talvez, o indivíduo que está lendo no ônibus seja uma pessoa performática.
No vídeo de Júlia Leivas, “As Pessoas Mais Performáticas da Internet (E Você Também É Parte Disso)”, ela reage em alguns vídeos do TikTok sobre o assunto. Alguns deles são de pessoas que vão ao cinema com um kindle ou um livro nas mãos, provavelmente para destacar que leu o volume daquela obra adaptada ou para demonstrar aos outros assistintes que é um superfã da adaptação. Eu acho que levar livros para o cinema é uma atitude sem sentido, mas claramente é feito para chamar a atenção daqueles a sua volta e hoje, com as redes sociais, tais atitudes são realizadas para viralizar.

Outra atitude performática no vídeo é de pessoas que estudam outros idiomas para ler o livro em língua original. Não estou dizendo que não se possa aprender outras línguas ou que apenas os idiomas convencionais sejam válidos, mas concordo que tal atitude é intencionalmente para chamar atenção. Entretanto, isso não invalida o esforço pessoal, pois aprender uma nova língua pode culminar em um outro hobby, uma imersão cultural ou uma oportunidade profissional, desde que o aprendizado seja real e não meramente fingimento.
Outro exemplo citado é de pessoas que leem em locais inusitados. A pessoa ser vista lendo próxima aos amigos, em lanchonetes ou até mesmo no transporte público está sendo considerada uma atitude performática. Eu confesso que sou essa pessoa e levo livros a todo lugar que vou e os leio, não importa se for no ônibus ou na espera da consulta médica.
Apesar de ter essa atitude pensando em aproveitar o tempo livre para ler um pouco mais, muitos podem julgar como uma atitude performática, conscientemente planejada ou não. E isso chamou minha atenção porque, muitas das vezes, o leitor está apenas vivendo seu dia a dia e praticando seu hobby, não se importando se está sendo filmado ou não. A consideração de ser ou não uma performance parte de como o assistinte interpreta tal atitude.

Uma reflexão que fiz anteriormente e trago para aqui de novo é que, no mundo real, o que você faz ou deixa de fazer pouco é notado pelas pessoas à sua volta. Se está lendo no metrô, poucos pensarão se você realmente está lendo ou se está apenas fingindo, este questionamento julgador faz parte da realidade digital.
O que eu acredito é que certas atitudes, claramente, são feitas com a intencionalidade de serem performáticas, como acessórios personalizados ou uma decoração chamativa, porém o ser humano naturalmente busca destacar-se dos outros e usa-se de dons e hábitos para promover sua individualidade e sentir-se bem. A questão de que toda demonstração de leitura é uma mera performance é um julgamento exagerado, talvez seja apenas a pessoa vivendo a vida dela.
Luminária é a coluna literária na qual conversaremos sobre livros a cada quinze dias. Para mais conteúdos literários, acesse o portal.