Já estamos perigosamente próximos do Carnaval, o ano oficialmente começou atrasado, e existe uma verdade universal que ninguém consegue explicar: café superfaturado é sempre melhor. Não importa se você sabe fazer um ótimo em casa, se tem a máquina perfeita ou o grão artesanal. Se custou caro, veio em copo descartável bonito e foi comprado com pressa, ele automaticamente tem gosto melhor.
Nesse clima de cansaço crônico, calor excessivo e leve dissociação coletiva, nada mais justo do que encarar uma história que mistura crime, fantasmas, droga experimental e relações familiares quebradas. A leitura da vez é Ao Meu Redor, de André Vianco, publicado pela Editora Citadel e surpresa, essa resenha acontece em parceria!
Uma história de crime
Ao Meu Redor é um romance que se recusa a caber em uma gaveta só. Ele parte de um ponto muito concreto, quase policial, e vai escorregando aos poucos para o sobrenatural, o terror psicológico e o drama familiar. A história acompanha duas irmãs que não poderiam ser mais diferentes.
Teodora é policial civil, corrupta, violenta, presa a acordos escusos com o tráfico e já completamente à beira do colapso. Jéssica é o oposto: uma química brilhante, respeitada, emocionalmente frágil, mas intelectualmente poderosa. O reencontro das duas não acontece por afeto, nostalgia ou reconciliação espontânea, e sim por necessidade, culpa e desespero.
Depois de matar Raoni, uma traficante poderosa com quem mantinha um acordo sombrio, Teodora precisa encontrar o dinheiro do crime para garantir sua fuga. O problema é que Raoni morreu sem revelar onde escondeu a fortuna. É aí que entra a Iboga-7, uma droga fictícia criada por Jéssica a partir dos estudos reais da ibogaína, substância usada historicamente em rituais africanos e pesquisas terapêuticas.
Sob efeito da Iboga-7, as irmãs passam a enxergar e se comunicar com os mortos. A missão é simples no papel: encontrar o espírito de Raoni e arrancar dela a informação. Na prática, o que se abre é um portal para um inferno muito mais complexo.
O grande mérito de André Vianco aqui está na atmosfera. O terror não vem apenas dos fantasmas que surgem pelo caminho, mas da forma como o autor constrói esse “entre-lugar” onde vivos e mortos se misturam. O além não é apresentado como algo místico ou etéreo, mas como um espaço sujo, pesado, opressivo, carregado de ressentimento e dor. Não há glamour na comunicação com os mortos. Existe desgaste, confusão, sofrimento e consequências reais para quem cruza esse limite.
O terror está dentro de casa
O livro também funciona muito bem como um drama sobre vínculos familiares rompidos. Ao longo da narrativa, fica claro que o verdadeiro centro da história não é a droga, nem o dinheiro, nem o crime, mas a relação entre Teodora e Jéssica. O sobrenatural serve como catalisador para que traumas antigos, mágoas acumuladas e escolhas erradas venham à tona.
O reencontro das duas é tenso, cruel em alguns momentos, e profundamente humano. Não há idealização de laços de sangue aqui. O livro entende que amar alguém não significa necessariamente saber conviver com essa pessoa.
Ainda assim, Ao Meu Redor não é um livro sem problemas. A narrativa prende bastante no início, especialmente pela premissa forte e pelo ritmo acelerado, mas perde fôlego ao longo do caminho. Há uma sensação clara de repetição, principalmente nos diálogos, que acabam martelando as mesmas ideias e conflitos mais vezes do que o necessário. Em alguns trechos, o terror funciona muito bem visualmente, mas a insistência em certas situações faz a leitura ficar cansativa. É um livro que poderia ganhar força com mais concisão.
Mesmo com esses tropeços, o terror entrega o que promete. As cenas envolvendo o contato com os mortos são perturbadoras e bem construídas. Vianco sabe trabalhar o imaginário do horror urbano, misturando crime organizado, corrupção policial e sobrenatural de maneira bastante brasileira, sem recorrer a fórmulas importadas. Há uma identidade própria aqui, tanto estética quanto temática.
Um Vianco reconhecível
Ao Meu Redor é, sem dúvida, “um livro do André Vianco”. Isso fica claro na forma como o horror se mistura com questões humanas, no interesse pelo limite entre vida e morte e na insistência em personagens quebrados tentando sobreviver ao próprio caos. Para quem já conhece o autor, há familiaridade. Para quem está chegando agora, há uma boa porta de entrada para esse universo.
Apesar dos problemas de repetição e de um certo desgaste narrativo ao longo da leitura, o livro entrega uma experiência intensa, especialmente para quem gosta de terror nacional.
Vale ler?
Ao Meu Redor é, no fim das contas, um livro sobre até onde alguém é capaz de ir para escapar das próprias escolhas. É sobre tentar fugir do inferno pessoal e acabar entrando em outro ainda pior. Não é uma leitura perfeita, mas é uma leitura honesta dentro da proposta que se coloca.