Vocês já perceberam que em o verão te faz ter a sensação de estar existindo dentro de uma air fryer ligada no máximo? Nessas horas, qualquer atividade básica vira um exercício de sobrevivência.
Comecei a assistir Gachiakuta e já quero sair correndo para comprar os mangás, mas infelizmente “comprar” não combina muito com a minha atual condição financeira de uma uva esquecida no fundo da geladeira. Também assisti finalmente ao filme Chainsaw Man: Arco da Reze e, sinceramente, o Denji não consegue ter um dia de paz, sabe? Parece que é proibido contratualmente. Para completar esse pacote de sofrimento coletivo, Jujutsu Kaisen finalmente voltou para a terceira temporada. Eu já li todo o mangá, sei exatamente onde isso vai parar e, mesmo assim, não estou nem um pouco preparada emocionalmente para ver certos personagens indo de arrasta para cima.
A resenha de hoje é Contos de Horror da Mimi, de Junji Ito, publicado no Brasil pela sempre impecável Darkside Books.
Uma protagonista azarada
Como o título sugere, Contos de Horror da Mimi é uma coletânea de histórias curtas amarradas pela figura da protagonista Mimi. Ela não é exatamente uma heroína, nem uma investigadora do sobrenatural. Mimi é aquela pessoa comum que parece ter sido escolhida pelo universo para tropeçar, repetidamente, em situações estranhas, encontros desconfortáveis e presenças que definitivamente não deveriam estar ali. Existe apenas uma exceção estrutural dentro do volume, o conto bônus “O Boneco de Assombração”, que não gira em torno da personagem, mas que, ainda assim, se encaixa perfeitamente no clima da obra e é facilmente um dos melhores momentos do mangá.
Mimi funciona quase como um fio condutor casual, alguém que poderia ser “a amiga de um amigo” ou “a garota que estudou com o primo de alguém”. Esse detalhe é essencial para o tipo de horror que Junji Ito constrói aqui. Nada parece grandioso demais ou espetacular demais. As histórias soam como relatos que você ouviria em voz baixa, com alguém jurando que aquilo aconteceu de verdade.
E, honestamente, Mimi precisa de um exorcismo. Coitada. Todo dia é um evento sobrenatural diferente atravessando a rotina dela, quando tudo o que a garota quer é estudar e, quem sabe, morar em um lugar onde o aluguel seja minimamente acessível.
Junji Ito trabalha aqui com uma abordagem de horror que aposta no “menos é mais”, e isso fica muito claro ao longo da leitura. A linha da revelação é extremamente tênue. Ele sabe exatamente até onde ir e, principalmente, quando parar. Muitas histórias terminam sem respostas claras, sem explicações fechadas, sem a famosa sensação de “ah, então era isso”. E é justamente aí que elas funcionam.
A ausência de respostas definitivas faz com que a imaginação do leitor trabalhe sozinha. O desconforto não vem do que é mostrado, mas do que fica sugerido. Eu, pessoalmente, adoro não saber alguns finais. Qualquer tentativa de explicar racionalmente certos eventos seria incapaz de alimentar a curiosidade inquietante que essas histórias provocam.
Quando o terror vem da vida real
Existe um detalhe fundamental que torna Contos de Horror da Mimi ainda mais interessante: ele é baseado em Shin Mimibukuro, uma coletânea de relatos supostamente verídicos organizada por Hirokatsu Kihara e Ichiro Nakayama. O mangá nasce da ideia de que o cotidiano pode esconder algo profundamente errado logo abaixo da superfície.
Junji Ito não inventa monstros grandiosos aqui. Ele reorganiza experiências, sensações e relatos estranhos, filtrando tudo pelo seu traço inconfundível e pelo seu senso apurado de ritmo.
Para entender melhor Contos de Horror da Mimi, vale compreender o conceito de kaidan. Embora muitas vezes traduzido de forma simplificada como “história de fantasma”, o termo é mais amplo. Kaidan se refere a relatos de mistério, estranheza e medo, frequentemente ligados ao sobrenatural, mas não exclusivamente. Esse tipo de narrativa existe no imaginário japonês há séculos, atravessando períodos históricos e se adaptando a diferentes formatos.
Junji Ito bebe diretamente dessa tradição, mas a atualiza para um contexto moderno, urbano e reconhecível. Mimi não vive em castelos antigos ou vilarejos isolados. Ela vive em apartamentos, escolas, ruas comuns. Isso torna tudo mais próximo e, por consequência, mais inquietante.
Não é o Junji Ito mais assustador mas tudo bem
Para leitores habituados às obras mais extremas de Junji Ito, Contos de Horror da Mimi provavelmente vai parecer uma de suas coletâneas menos assustadoras. Aqui não há o impacto grotesco imediato de outras obras, nem o horror corporal levado ao limite. Ainda assim, isso não é um defeito. O mangá aposta em um terror mais atmosférico, mais psicológico e, em muitos momentos, melancólico.
Existe algo profundamente triste em várias dessas histórias. Pequenos episódios que começam estranhos e terminam silenciosos, deixando uma sensação de perda, confusão ou vazio. Junji Ito consegue provocar emoção sem alarde, às vezes criando e resolvendo subtramas inteiras dentro de um único capítulo.
E o veredito?
Contos de Horror da Mimi não tenta competir com os horrores mais explícitos da obra de Junji Ito, nem precisa. Seu impacto vem da estranheza cotidiana, da sensação constante de que algo está errado, mesmo quando tudo parece normal demais.
Se você gosta de histórias curtas, lendas urbanas, relatos inquietantes e daquele tipo de terror que te acompanha mesmo depois de fechar o livro, Mimi vai te receber (provavelmente com algum espírito maligno logo atrás dela).
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