Como foi o Carnaval por aí? Por aqui foi basicamente uma mistura de muito sono, muitas horas dormidas e um calor absolutamente desumano. Não existe justificativa plausível para fazer 38ºC quando tudo o que eu tenho é um ventilador de teto que parece já estar desistindo da vida. Se um dia a riqueza bater à porta, a minha primeira compra vai ser um ar-condicionado para cada cômodo da casa, sem negociação.
Entre um cochilo e outro, também rolou maratona completa da franquia Pânico, porque preparação para estreia importante exige comprometimento. Gastar mais de cem reais em um balde de pipoca temático? Sim. Absolutamente. É para isso que serve a vida adulta. Mas hoje o assunto não é Ghostface.
Hoje é Mister Magic, de Kiersten White, publicado no Brasil pela VR Editora através do selo Plataforma 21, livro que já estava na minha lista de desejos muito antes de chegar até aqui.
Kiersten White sempre foi aquele tipo de autora que entrega premissas excelentes, a ideia quase sempre parece irresistível mas a execução nem sempre acompanha na mesma medida. Isso mudou quando o horror entrou em cena, especialmente depois de Hide e Mister Magic confirma que o território sombrio talvez seja exatamente onde a autora mais brilha.
Mister Magic é…
A premissa é forte: Mister Magic foi um programa infantil que marcou uma geração, mas que terminou de forma trágica há trinta anos. Não existem gravações preservadas, não há registros claros de produção, não se sabe ao certo quem era o apresentador misterioso de capa negra. Tudo o que resta são memórias fragmentadas e fãs que ainda se agarram ao que o programa representava. Os cinco membros sobreviventes do elenco infantil são reunidos em um complexo isolado no deserto para gravar um podcast de reencontro. A nostalgia é o pretexto mas o que realmente está acontecendo ali é outra história.
Apesar da sinopse sugerir um foco coletivo, a narrativa acompanha principalmente Val, que carrega uma ausência: ela não se lembra de nada do período em que participou do programa. Ainda assim, algo está errado, e essa sensação cresce a cada capítulo. A desconfiança não é apenas dela, mas do leitor também. O livro intercala pontos de vista, trechos de e-mails, discussões em redes sociais e cenas que revelam o que acontece nos bastidores. Essa estrutura contribui para um clima de crescente estranhamento, criando uma atmosfera de paranoia que funciona muito bem.
O terror aqui não é baseado apenas em sustos diretos, há momentos genuinamente assustadores, mas o que domina é a inquietação psicológica. A sensação de que as memórias podem ter sido moldadas, de que as escolhas talvez não sejam tão livres quanto parecem, de que o reencontro pode não ter sido exatamente voluntário. A experiência é mais próxima de um desconforto persistente do que de um choque imediato.
Existe também uma camada temática relevante envolvendo religião e estruturas opressivas. A crítica a elementos problemáticos da fé mórmon aparece de maneira significativa na narrativa, especialmente na forma como mulheres são tratadas e enquadradas dentro de papéis restritivos. Kiersten White cresceu dentro dessa religião e se afastou dela, e é possível perceber que a história carrega um processo pessoal de questionamento e reconstrução. Essa dimensão adiciona peso ao mistério, porque o horror não está apenas no sobrenatural ou no culto insinuado, mas nas dinâmicas sociais que moldam identidades desde a infância.
Funciona sempre?
Mister Magic consegue ser uma combinação curiosa entre nostalgia millennial e paranoia coletiva. Há ecos de histórias como It, de Stephen King, no sentido de adultos confrontando traumas da infância, e também uma crítica à obsessão cultural por reboots, revival e memórias idealizadas. O livro questiona o que realmente foi vivido e o que foi imposto como verdade confortável.
Ainda assim, nem tudo é perfeito e o enredo apresenta muitos elementos interessantes, talvez até demais. Sequestros, amnésia, culto, luto, possíveis manifestações sobrenaturais e uma mitologia que envolve rádio, televisão e uma figura quase mítica. O problema é que parte dessa mitologia fica apenas sugerida e a origem do Mister Magic e a construção mais profunda do lore poderiam ter sido mais exploradas. Há momentos em que a narrativa parece prometer uma revelação grandiosa, apenas para recuar e manter as coisas em um nível mais superficial.
O final também acelera mais do que deveria.
Algumas resoluções parecem rápidas demais diante do acúmulo de tensão, existe uma sensação de que algo monumental estava prestes a ser completamente revelado, mas a história opta por manter certas sombras no lugar. Essa escolha pode ser vista como coerente com a proposta de ambiguidade, mas também pode deixar um gosto de oportunidade parcialmente desperdiçada.
Mesmo com essas ressalvas, Mister Magic é uma leitura envolvente, rápida e instigante. Não é o horror mais profundo ou mais elaborado do ano, mas é eficaz em provocar desconforto e reflexão. No fim, é aquele tipo de livro que talvez não entregue absolutamente tudo o que promete, mas ainda assim oferece uma experiência sólida e perturbadora o suficiente para valer a jornada pelo deserto.