Chegamos a 2026. Janeiro começou, e aquela sensação de “tudo mudou, mas nada mudou de verdade” continua firme: o aquecimento global ainda é real, os preços ainda são absurdos, mas, ei, temos Copa do Mundo! E se tem algo melhor para começar o ano, é uma boa leitura, ou pelo menos uma leitura capaz de nos distrair das manchetes.
Então, começamos o ano com Ecos da Floresta, da escritora americana Liz Moore, publicado no Brasil pela HarperCollins Brasil. Um mistério de família, segredos enterrados e desaparecimentos que atravessam gerações.
O que acontece com Bear Van Laar?
O coração do mistério de Ecos da Floresta é simples de definir: o que aconteceu com Bear Van Laar? Quatorze anos antes dos eventos centrais, Bear, filho de Alice Van Laar, desapareceu durante uma caminhada com o avô. Nenhum corpo foi encontrado, nenhuma explicação satisfatória dada, e a família, rica e poderosa, escondeu o ocorrido enquanto o tempo passava.
Agora, no presente, sua irmã Barbara desaparece do mesmo local, quase como se a história quisesse repetir-se. Liz Moore constrói um quebra-cabeça intrincado com múltiplos POVs e linhas do tempo que se entrelaçam, revelando a dinâmica familiar tóxica dos Van Laars, a relação de poder com os trabalhadores locais e o impacto de mentiras e segredos transmitidos por gerações.
O livro funciona como um clássico whodunit: você é levado a suspeitar de várias pessoas como o zelador, familiares, até mesmo o jovem Peter Van Laar II e constantemente cai nos red herrings (pistas falsas) que Moore espalha. Ao mesmo tempo, a autora apresenta um comentário social sofisticado: os Van Laars são, em essência, vilões corporativos e familiares, cujas ações afetam todos ao redor.
O mistério, porém, se resolve de forma inesperada: Bear morreu em um acidente de barco provocado pela negligência de sua mãe alcoolizada, enquanto Barbara decide fugir para a floresta para escapar de uma vida restrita e opressiva. O contraste entre as respostas das crianças à opressão da família é notável: um acidente trágico escondido para preservar a reputação; uma fuga que permite a Barbara crescer com independência, mas também com dificuldades reais.
Personagens, perspectivas e temas
Moore alterna múltiplos pontos de vista com maestria, permitindo ao leitor acompanhar diferentes perspectivas sem se perder. Judyta, a jovem inspetora determinada, é um destaque: sua luta contra preconceitos e sua dedicação à investigação tornam a narrativa mais interessante e crível. Louise, por outro lado, com seu tom presunçoso e narcisista, foi a personagem menos simpática, mas ainda assim necessária para a trama. Essa variedade de perspectivas permite ao leitor compreender tanto os efeitos da riqueza e do poder quanto a resiliência das famílias locais, revelando uma visão ampla e matizada do enredo.
Além do mistério, o livro aborda questões relevantes, como a classe social e o poder, com os Van Laars explorando os trabalhadores locais e manipulando situações para preservar a reputação da família. O romance também discute gênero e opressão feminina, mostrando como Alice e Barbara enfrentam limitações impostas por uma sociedade e uma família patriarcal. Outro tema central é o impacto intergeracional: segredos, mentiras e falhas familiares reverberam por décadas, moldando destinos e decisões.
Liz Moore cria um labirinto familiar, com gerações interligadas por erros, segredos e silêncios, que só se revelam plenamente quando o leitor observa o quadro completo.
Pontos fortes e fracos
Entre os pontos fortes de Ecos da Floresta estão a estrutura narrativa bem construída, com múltiplos pontos de vista e linhas do tempo interligadas, o mistério convincente com reviravoltas e falsas pistas, personagens complexos que acrescentam profundidade social e emocional, e a exploração de temas de classe, gênero e herança familiar com sutileza.
Entre os pontos fracos, o desfecho da fuga de Barbara pode parecer pouco convincente, sobretudo em comparação com a tensão construída ao longo da narrativa. Alguns detalhes do final, como a separação entre os dois desaparecimentos, que o leitor naturalmente espera que estejam conectados, parecem forçados ou anticlimáticos.
Mesmo assim, o livro cumpre seu objetivo: prende, envolve e provoca reflexão sobre família, poder e responsabilidade.