2026 começou e, pra ajudar, ainda tem o pós-festas, que é basicamente o período em que você tenta lembrar como se conversa com colegas de trabalho sem falar “desculpa a demora, eu estava em modo panetone”. Aí você senta no sofá, tenta retomar a rotina, e percebe que o mundo segue exatamente igual, só que agora todo mundo está fingindo organização.
Foi nesse clima de leve humilhação existencial que eu terminei o final de Stranger Things (sim, eu fui uma das pessoas que acreditou no Conformity Gate; sim, eu estou em negação; sim, eu mereço). E depois de levar esse “toma” emocional, eu só pensei: ok, preciso de uma história confiável. Uma história que, quando promete me deixar desconfortável, entrega. Uma história que não faz charme com a expectativa do público como se fosse um joguinho. Então voltei para um lugar seguro, o que é uma frase absurdamente irônica quando o “lugar seguro” é um hotel assombrado que quer te mastigar por dentro.
Dessa vez, a resenha é de O Iluminado, de Stephen King, publicado no Brasil pela Editora Suma.
Antes que alguém pergunte “de novo?”: sim, de novo. Eu leio O Iluminado pelo menos uma vez por ano porque ele é meu livro favorito por um motivo muito simples: ele funciona sempre. Não importa o quanto você já saiba da história, não importa se você já viu adaptação, não importa se você conhece as cenas de cor, o Overlook ainda encontra um jeito de te encurralar. E, honestamente, começar o ano com uma leitura que me lembra que sempre dá para piorar é quase uma preparação psicológica.
Do que se trata (e por que a trama é mais cruel do que parece)
Jack Torrance perdeu o emprego de professor e está naquele ponto perigoso em que a vida te dá uma última chance com cara de “agora vai”. Quando surge o trabalho de zelador de inverno no Overlook Hotel, um resort isolado nas montanhas, ele vê ali uma solução perfeita: salário, isolamento para escrever, e a promessa de recomeço para a família. Wendy e o pequeno Danny vão junto. A neve começa a cair, o hotel fecha para o mundo, e a sensação de “a gente está sozinho aqui” deixa de ser romântica em três páginas.
Só que O Iluminado não é apenas uma história de hotel mal-assombrado. É uma história sobre um homem tentando se manter inteiro enquanto tudo nele pede para rachar, sobre uma família que já chega fragilizada e vai sendo “testada” no pior laboratório possível e sobre um menino de cinco anos com um dom que ele não sabe administrar, mas que o Overlook reconhece como um farol no escuro. O “iluminado” do título não é só um truque sobrenatural: é uma vulnerabilidade. É a porta aberta.
O que faz O Iluminado continuar tão bom é que King não depende só do sobrenatural para te assustar. O terror aqui é muito pé no chão: alcoolismo, culpa, raiva, vergonha, a tentativa desesperada de “ser melhor” sem ter ferramentas para isso. Jack é um personagem desconfortável justamente porque ele não é um monstro pronto desde o início, ele é uma pessoa tentando. O problema é que a raiva dele já existe, o histórico já existe, e o Overlook não cria nada do zero. Ele só pega o que está ali, empurra, alimenta, amplia, até virar inevitável.
Danny é o coração (e alvo) do livro
É impossível acompanhar a perspectiva dele sem sentir um aperto constante. Ele é uma criança que percebe coisas demais, cedo demais: tensões do casamento, o medo da mãe, o passado do pai, imagens e vozes que ninguém mais vê. E aí você lembra que ele tem cinco anos. Cinco. Mesmo quando King descreve o dom do Danny de um jeito quase poético (e às vezes até “adulto” demais para a cabeça de uma criança), o efeito é sempre o mesmo: a sensação de que ele está carregando algo muito grande dentro de um corpo muito pequeno.
Wendy costuma dividir leitores, e eu entendo por quê. King, principalmente nessa fase, não é o autor mais consistente escrevendo mulheres, e existe uma camada de “década de 70” que pesa nas escolhas e nos limites dela. Ainda assim, relendo hoje, eu gosto mais da Wendy do que muita gente dá crédito. Ela não é uma heroína “de frase pronta”, mas é a personagem que toma decisões práticas dentro de uma realidade sem saída fácil: proteger o filho, sobreviver ao isolamento, lidar com um marido instável, e ainda enfrentar o fato de que voltar para a vida anterior pode significar cair de novo num ciclo diferente de abuso.
E aí tem o Overlook.
Esse hotel deveria entrar na ficha técnica como personagem. O Overlook tem humor, tem memória, tem vontade. Ele seduz, provoca, constrange, oferece recompensa e castigo, como se conhecesse exatamente o ponto fraco de cada um. O horror do lugar não está só nos fantasmas ou nas aparições, mas na forma como ele transforma o isolamento em argumento, o tipo de argumento que parece lógico quando você está preso na neve, dormindo mal, andando em círculos com a própria cabeça.
O livro e o filme: O Iluminado acerta nos dois?

Existe um detalhe que sempre reaparece quando alguém pega O Iluminado pela primeira vez: se a sua memória vem majoritariamente da adaptação do Kubrick, prepare-se para um choque cultural. Tem coisa icônica no filme que simplesmente não tem o mesmo peso (ou nem existe) no livro, e o contrário também é verdade. O King está preocupado com outras camadas: com a família antes do horror explícito, com o jeito que a dependência e a violência doméstica se infiltram, com a degradação gradual. O resultado é que o livro, pra mim, é mais perturbador. Não é só “um lugar malvado”.
Eu gosto de reler esse livro no começo do ano porque ele é uma lembrança brutalmente honesta sobre rotina e pressão. O Overlook é o exagero perfeito do que muita gente sente em menor escala: a casa que vira prisão, o trabalho que vira obsessão, a família que vira gatilho, a cabeça que vira inimiga. E King escreve isso com um tipo de tensão que não depende de sustos fáceis. A construção é paciente, a atmosfera vai fechando, e quando a neve realmente “corta o caminho”, você sente o peso do isolamento como se estivesse com eles. É um livro grande, mas nunca me parece um livro que enrola. Mesmo quando ele para para contar história do Overlook, é sempre com aquela sensação de “isso aqui vai custar caro depois”.
Se você quer uma leitura de terror que também funciona como um estudo sobre vício, culpa e destruição familiar, O Iluminado segue sendo um dos melhores exemplos do gênero e se você só quer um livro que te lembre que “sempre dá para piorar”, parabéns: você encontrou o hotel certo.
Eu preciso registrar um detalhe que me deixou genuinamente feliz recentemente: para quem assistiu IT: Bem-vindos a Derry, a inclusão do personagem Dick Hallorann ali e, no final, a conexão dele indo para o Overlook foi uma sacada genial. É aquele tipo de fan service que não parece fan service, parece respeito por uma trajetória e ainda deixa um gostinho de “ok, isso aqui foi pensado”.
E o veredito?
O Iluminado continua sendo o meu terror conforto por excelência: assustador, triste, claustrofóbico, humano demais para dar distância. É o tipo de livro que você termina e fica um tempo olhando para a parede, pensando “ok, vou ser uma pessoa melhor”, até lembrar que a vida real não tem botão de reset e que, infelizmente, ninguém te dá uma marreta para resolver problemas. Mas, pelo menos, dá para fechar o livro e sair do Overlook. Na maior parte das vezes.
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