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Nem todo terror dá medo: jogos para entrar no clima do Halloween

Outubro costuma transformar o terror em protagonista. Filmes, séries, eventos e, principalmente, jogos aproveitam o Halloween para colocar o público diante de monstros, fantasmas, criaturas sobrenaturais e situações capazes de provocar alguns bons sustos. Mas existe um outro lado dessa relação com o gênero: nem todo mundo quer sentir medo para entrar no clima da temporada.

O universo dos videogames é amplo o suficiente para mostrar que o terror não precisa necessariamente significar tensão constante, violência ou jump scares. Há experiências que utilizam elementos tradicionalmente associados ao gênero de maneira mais leve, engraçada ou até aconchegante. Em vez de tentar assustar o jogador, elas usam o sobrenatural como parte da identidade do mundo.

Um dos exemplos mais evidentes é Luigi’s Mansion. A série coloca Luigi diante de mansões, hotéis e outros ambientes infestados por fantasmas, mas transforma a situação em uma aventura de exploração e resolução de quebra-cabeças. Em Luigi’s Mansion 3, por exemplo, o jogador precisa enfrentar espectros e explorar um hotel assombrado usando o Poltergust G-00, mas a direção visual cartunesca e o próprio comportamento atrapalhado de Luigi ajudam a transformar o que poderia ser uma experiência assustadora em algo muito mais divertido. A própria Nintendo apresenta a série como uma aventura de caça aos fantasmas que mistura combates, quebra-cabeças e exploração.

Essa mesma lógica aparece de maneiras diferentes em Graveyard Keeper. Administrar um cemitério medieval definitivamente não parece a atividade mais apropriada para um jogo aconchegante, mas é justamente o humor sombrio que transforma a premissa em algo curioso. O jogador precisa cuidar do cemitério, administrar recursos e lidar com situações absurdas envolvendo mortos e habitantes da região. O jogo utiliza a morte como parte de sua ambientação, mas está muito mais próximo de uma experiência de gerenciamento com humor ácido do que de um jogo de horror tradicional.

O mesmo pode ser dito de jogos como Cult of the Lamb, que mistura uma estética aparentemente fofa com cultos, sacrifícios e uma boa dose de humor macabro. O contraste é justamente parte da graça: criaturas simpáticas podem protagonizar situações que, em outro contexto, seriam genuinamente perturbadoras. Aqui, o elemento sombrio serve mais para criar personalidade do que para provocar medo.

Há ainda experiências que trabalham com o sobrenatural de maneira mais contemplativa. Spiritfarer, por exemplo, transforma a passagem para a vida após a morte em uma aventura sobre despedidas, relações e aceitação. Fantasmas e espíritos fazem parte de sua premissa, mas o resultado está muito mais próximo de uma experiência emocional e acolhedora do que de uma história de terror.

Para quem prefere mistério, Ghost Trick: Phantom Detective também mostra como a presença de um fantasma pode servir a outro propósito. A morte está literalmente no centro da história, mas a experiência utiliza a situação para construir uma investigação cheia de enigmas, personagens excêntricos e reviravoltas. O sobrenatural, nesse caso, é uma ferramenta narrativa e não uma ameaça permanente.

Outros jogos caminham ainda mais perto da estética do terror sem necessariamente mergulhar no gênero. Beacon Pines, por exemplo, combina uma apresentação de livro ilustrado com uma história de mistério envolvendo segredos de uma pequena cidade. Wytchwood aposta em bruxaria, criaturas fantásticas e um universo de contos de fadas sombrios. Já Strange Horticulture coloca o jogador para administrar uma loja de plantas enquanto investiga acontecimentos misteriosos e ocultistas.

São experiências que entendem que uma atmosfera estranha pode ser tão importante quanto um susto. Essa combinação entre elementos desconfortáveis e estruturas tranquilas é justamente uma das características associadas ao chamado cozy horror.

Até mesmo DREDGE ocupa um espaço interessante nesse espectro. A pesca, a exploração e o gerenciamento de recursos dão ao jogo uma estrutura relativamente tranquila, mas existe algo errado nas águas que o jogador percorre. Conforme a noite chega, a atmosfera muda e o desconhecido ganha espaço. É uma opção para quem quer aumentar um pouco a dose de tensão sem necessariamente partir diretamente para o horror tradicional.

E talvez seja justamente essa variedade que torne outubro uma época tão interessante para jogar. Não é preciso escolher entre uma experiência completamente assustadora e outra que ignore completamente o Halloween. Existe um espaço intermediário repleto de possibilidades.

Para alguns jogadores, o Halloween pode significar enfrentar criaturas grotescas em uma experiência de horror psicológico. Para outros, pode ser passar algumas horas caçando fantasmas com Luigi, administrando um cemitério ou investigando os mistérios de uma cidade aparentemente tranquila.

No fim das contas, o terror nos videogames também pode ser uma questão de atmosfera. Fantasmas, bruxas, cemitérios, criaturas estranhas e histórias sobre a morte não precisam necessariamente provocar medo. Às vezes, eles simplesmente criam o cenário perfeito para uma aventura diferente. E talvez essa seja uma das melhores maneiras de aproveitar o Halloween nos games: entrar no clima sem necessariamente precisar apagar as luzes e esperar pelo próximo susto.

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