Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

O apagamento da literatura negra nas listas de mais vendidos

Se autorias negras vendem aos milhares e a demanda é crescente, por que não aparecem nas listas oficiais? Troy Johnson e Dayane Borges expõem as falhas do mercado editorial e propõem novas métricas de sucesso.

O mercado literário vive um paradoxo incômodo: autores negros estão vendendo grandes volumes de exemplares, mas continuam sendo ocultados das listas de best-sellers nos veículos de maior circulação. O problema, segundo especialistas, não é a falta de interesse do público, mas uma falha sistêmica na captura de dados e na curadoria algorítmica.

A vanguarda de Troy Johnson e o AALBC

Troy Johnson luta pela literatura negra desde antes da maioria das pessoas descobrir o que era um website. Em 1997, o empreendedor natural do Harlem aprendeu, autodidatamente, as complexidades da programação e do e-commerce. O resultado desse esforço foi a fundação do African American Literature Book Club (AALBC), que hoje se consolida como uma das plataformas independentes mais confiáveis da internet. Quase três décadas depois, Troy continua programando e recusa-se a entregar o destino das obras negras às mãos dos algoritmos das grandes big techs, mantendo uma curadoria humana e personalizada.

O grande projeto atual de Troy Johnson é a BLK Bestsellers List, um ranking mensal criado em parceria com a Black Book Accelerator (BBA). A iniciativa utiliza dados robustos da Circana Bookscan para rastrear o que realmente está sendo comprado. Segundo ele, o objetivo é dar um palco digno a autores que, embora populares, são ignorados pelas métricas tradicionais.

As barreiras da visibilidade no cenário americano

Em entrevista ao portal The Grio, Troy conta que a invisibilidade dos autores negros nas listas de mais vendidos é o resultado de uma engrenagem técnica que opera em duas frentes complementares. A primeira delas reside no filtro dos algoritmos de recomendação das grandes plataformas digitais. Atualmente, a descoberta de novas leituras é mediada por códigos que priorizam o engajamento imediato, favorecendo narrativas que orbitam excessivamente em celebridades negras de alto escalão, como Michelle Obama ou Beyoncé. O lucro garantido dessas figuras de escala global acaba sufocando o espaço de escritores dedicados que, embora entreguem obras de qualidade, não possuem a mesma máquina midiática. O algoritmo acaba criando uma barreira de entrada que marginaliza a diversidade de vozes em prol do que já é massificado.

Somado a esse filtro digital, o mercado enfrenta uma grave perda de dados. Existe um abismo informativo entre o que é vendido e o que é computado pelas listas oficiais. Uma parcela significativa do consumo de literatura negra flui por canais que o sistema tradicional de monitoramento simplesmente ignora: livrarias independentes e, principalmente, as vendas diretas feitas pelos próprios autores.

Uma das soluções proposta por Troy Johnson foca na soberania digital: em vez de depender de terceiros, os autores devem investir em plataformas próprias, como newsletters e comunidades dedicadas, onde o marketing direto ainda se mostra a ferramenta mais sustentável e marca uma maior independência de dispositivos terceirizados.

O cenário brasileiro

A realidade brasileira mimetiza os entraves observados no mercado editorial estadunidense e os aprofunda sob as camadas históricas do racismo estrutural local. Embora levantamentos recentes apontem para uma tendência de maior diversidade nos catálogos, a estrutura de poder que rege a cadeia produtiva permanece, em larga escala, inflexível. Essa rigidez fundamenta a provocação lançada pelo site Toma aí um poema na matéria “Quem tem o direito de ser lido no Brasil?”, que destaca o surgimento de selos como a Editora Malê, referência na curadoria de vozes negras. Contudo, analistas alertam que esses esforços, embora fundamentais, ainda são pontuais e não representam uma guinada sistêmica no setor.

Para que essa mudança deixe de ser simbólica e se torne estrutural, é urgente um investimento massivo na repercussão e divulgação de autorias negras. Isso envolve ocupar de forma estratégica os portais de notícias, mas também dominar a linguagem dinâmica de plataformas como TikTok e YouTube, onde as narrativas podem ganhar fôlego orgânico e atingir novos públicos.

É neste contexto de necessidade de mediação que surge o trabalho estratégico de Dayane Borges (@dayescreve). Dayane propõe uma reflexão sobre o papel das chamadas agências literárias, que atuam como os “gatekeepers” (porteiros) do mercado literário. Em um cenário ainda marcado por desigualdades estruturais, essas agências podem ser tanto portas de entrada para a valorização de narrativas plurais quanto reprodutoras de exclusões históricas. Elas são, acima de tudo, atores centrais na democratização do acesso às oportunidades de publicação, visibilidade e legitimação cultural.

Dayane realiza levantamentos periódicos sobre a presença de autorias negras e não-brancas nas agências literárias brasileiras. Seu trabalho mapeia estatísticas reais para expor o silêncio ou a resposta dessas instituições diante das demandas por diversidade.

Os dados divulgados por Dayane em seu site revelam a sub-representação no circuito literário e servem como ferramenta de pressão política e social. Ao quantificar quantos autores negros são representados e como as agências reagem a esses questionamentos, Dayane fornece o embasamento necessário para reconfigurar o ecossistema literário nacional.

Demanda existe; o que falta é uma medição justa

O que aproxima as iniciativas de Troy Johnson e Dayane Borges é a compreensão de que a literatura negra não possui um problema de demanda; os leitores existem e os livros estão sendo consumidos. O problema reside na infraestrutura de reconhecimento, que falha sistematicamente ao contabilizar essas vendas e validar essas autorias. Nesse sentido, os projetos de Troy e Dayane estão dialogando como ferramentas de diagnóstico e pressão.

As intervenções de ambos agem sobre as engrenagens do setor, levando à consciência pública de que o apagamento nas listas de sucesso é uma escolha, não um reflexo orgânico do gosto popular. Ao pautarem esse debate, eles forçam o mercado editorial a revisar seus próprios dispositivos de exclusão. A implementação de métricas baseadas na soberania de dados e o fomento a agências literárias inclusivas apresentam-se como mecanismos para que o reconhecimento comercial e o rótulo de “best-seller” acompanhem a pluralidade de autores e leitores que já compõem a realidade das estantes e bibliotecas de leitura.

Fonte: The Grio

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *