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Black Company entrevista Nicke, mangaká de Beyond the Clouds

Black Company entrevista Nicke, mangaká de Beyond the Clouds

A Editora Estação Liberdade com mais de 30 anos de atividades e cerca de 480 títulos publicados embarca em novas aventuras e descobertas contando agora com Beyond the Clouds: a garotinha que caiu do céu, o primeiro mangá a fazer parte do catálogo da editora. A série com cinco volumes da mangaká japonesa Nicke já conta com mais de 73 mil cópias vendidas e tem feito considerável sucesso, sendo traduzido para Japão, Estados Unidos, Espanha, países da América Latina, Alemanha, Itália, Turquia e Ucrânia, reforçando ainda mais sua importância.
Com a chegada do mangá ao Brasil, nos foi oferecida a oportunidade única de entrevistar a mangaká e perguntamos sobre sua obra, novos projetos e expectativas.

Seu mangá foi primeiro publicado na França e depois no seu país natal. Como foi seu primeiro contato com a editora Ki-oon?

No Japão, existe um evento chamado COMITIA, em que podemos encontrar pessoas vendendo mangás originais autorais, ilustrações e produtos diversos. Foi nele que conheci Kim-san, da Ki-oon, numa ocasião em que eu estava vendendo mangás. Como tinha ouvido falar de golpes nos quais pessoas nesses eventos oferecem serviços de publicação mediante o pagamento de uma taxa, fiquei um pouco receosa. No entanto, continuei recebendo os gentis e-mails enviados por Kim-san, com quem, depois, tive a oportunidade de conversar pessoalmente. Então, achei que deveria aproveitar a chance.

Quando você imaginou pela primeira vez a Cidade Amarela e o mundo de Beyond the Clouds, qual foi a primeira coisa que existiu: o mundo, Théo ou Mia?

Tenho a impressão de que tudo nasceu ao mesmo tempo. Originalmente, a história se chamava “A Cidade Amarela” e surgiu quando eu estava procurando emprego antes de me formar na universidade.
A busca por trabalho não estava indo tão bem, e eu estava preocupada com o futuro. Foi quando ouvi a música “A Fleeting Dream”, do jogo FINAL FANTASY X. Eu só tinha assistido ao meu irmão jogar, ou seja, eu mesma nunca tinha jogado, então a música trazia à minha mente imagens diferentes das que se viam na tela. De uma melodia simples, com batidas metálicas distantes que ressoavam como um sino, seguidas por um ritmo grave e pulsante…
Imaginei uma cidade com muitas chaminés, de onde a fumaça subia silenciosamente. Ali trabalhavam artesãos, e do alto de uma grande torre do relógio era possível vigiar a cidade. Eu via a imagem de alguém que se aproximava da borda da torre com passos apressados, prestes a alçar voo.
A melancolia da música me fez imaginar uma criança alçando voo e depois caindo, e foi assim que Theo e Mia nasceram.

O que a imagem de Mia caindo do céu representa para você, além do acontecimento narrativo?

Hmm, vejamos…
A música que inspirou a ideia tem originalmente um tom triste, então eu imaginava uma queda. Mas, ao mesmo tempo, acho que também havia uma vaga sensação de que era possível voltar a voar. Eu mesma passei por muitas reviravoltas até chegar ao ponto de, hoje em dia, conseguir desenhar mangás; nesse sentido, talvez a ideia seja a de que as coisas acabam se ajeitando de alguma forma, não importa o que aconteça. Mas é difícil colocar isso em palavras.

Existe uma relação intencional entre Théo consertar a asa de Mia e a ideia de reconstruir uma vida?

Eu desenhei sem me preocupar muito com esses detalhes. Para Theo, pessoas aladas existiam apenas em histórias; ao conhecê-la de fato, ele descobriu que ela era apenas uma garotinha comum. Pareceu natural, então, que ele quisesse ajudar Mia a conseguir voar novamente.
No fim, isso se tornou o catalisador para Theo, que havia desistido de seus próprios sonhos, partir em uma jornada; acredito que desenhei essa progressão porque me pareceu o resultado natural.
Refletir sobre questões como essa me faz perceber o quanto dependo da intuição quando desenho.

Você já sabia desde o início como a relação entre Théo e Mia iria evoluir?

Sim. Beyond the Clouds é um mundo expandido a partir de “A Cidade Amarela”, que originalmente criei apenas como passatempo. Sinto que a dinâmica entre os dois personagens já estava estabelecida quando eu estava desenhando “A Cidade Amarela”. São personagens que possuem uma profunda confiança mútua, compartilhando laços como os de irmão mais velho e irmã mais nova, ou talvez como melhores amigos.

Há algum cenário, criatura ou máquina da obra de que você particularmente gostou de desenhar?

Poderia mencionar várias coisas, mas gostei muito de desenhar a baleia voadora que aparece na capa do quinto volume. Adoro criaturas grandes, assim como designs que incluem maquinário e engrenagens em estilo steampunk. Por isso, a capa acabou sendo uma combinação perfeita de tudo o que eu gosto.

Se pudesse voltar ao momento em que desenhou a primeira página de Beyond the Clouds, o que diria para aquela versão de você mesma?

Diria: “Durma direito!”
Eu também tinha outro trabalho não relacionado a mangás, então, quando comecei a desenhar, às vezes virava noites trabalhando em manuscritos e depois ia direto para o meu outro emprego.
Não consigo me imaginar fazendo isso agora. Acabei prejudicando minha saúde e passando cerca de um mês no hospital, então eu gostaria mesmo de salientar que a saúde é o bem mais precioso e que é necessário dormir bem.

Como o último volume de Beyond the Clouds foi publicado em 2023, o que poderia dizer que esse trabalho lhe ensinou?

Acho que aprendi muita coisa. Será que meus desenhos melhoraram um pouco em comparação com quando comecei?
Eu nunca tinha desenhado algo longo antes, então tive muitas experiências novas. Percebi que, em uma história longa, há coisas que você precisa considerar com cuidado que não seriam um problema em uma história curta. Também aprendi que desenhar mangá exige resistência física.
Tive dificuldade em desenhar bem diversas composições e senti que ainda havia um longo caminho a percorrer. Muitas vezes me angustiava pensando em como desenhar as coisas exatamente da maneira como as imaginava.
No fim das contas, acho que aprendi que o único caminho era continuar desenhando e avançando por meio de tentativas e erros, passo a passo. O que mais me surpreendeu foi que, mesmo desenhando tanto a trabalho, o que eu queria fazer no meu tempo livre era… desenhar. Percebi que, mais do que imaginava, amo desenhar. Foi uma descoberta nova para alguém como eu, que sempre desenhou sem pensar muito sobre o assunto.

O mundo de Beyond the Clouds carrega influências dos filmes do Studio Ghibli e dos games de Final Fantasy. Nesses dois mundos, quais seriam seu filme favorito e seu game favorito e por qual motivo?

Quanto aos videogames, Kingdom Hearts é o meu favorito absoluto. Adoro seu mundo único, uma mistura de Disney e Final Fantasy, bem como a empolgação do início, o design dos personagens (até os inimigos são fofos) e a trilha sonora incrível. Foi o único que consegui zerar, simplesmente porque o amava demais, apesar de não ser boa jogando.
Como tenho muita dificuldade com jogos, houve momentos em que não conseguia derrotar um chefe, por mais que tentasse. Eu chegava até a ir à casa de amigos para que o derrotassem para mim.
Não consegui escolher apenas um filme favorito. Amo filmes do Studio Ghibli, como O Castelo no Céu e Nausicaä do Vale do Vento, desde muito jovem. Agora adulta, passei a apreciar o quão legal é o protagonista de Porco Rosso, e assistir a Meu Amigo Totoro me faz chorar, pois a Satsuki é tão corajosa e dedicada. Adoro a franquia Star Wars pelos seus veículos e robôs empolgantes e de visual incrível. Também amo musicais como A Noviça Rebelde, cujas músicas costumo cantar enquanto trabalho nos meus manuscritos.
Depois que comecei a pensar nisso, achei impossível escolher apenas um.

Em Beyond the Clouds, você tem algum público-alvo que deseja alcançar?

Para ser honesta, isso não passou muito pela minha cabeça. Beyond the Clouds surgiu de outra história que eu tinha em mente. Comecei a desenhá-lo apenas como passatempo, para dar forma a um mundo que eu havia imaginado, então não foi criado pensando em algum público específico.
No entanto, desenhei a obra pensando que ficaria feliz se os leitores, ao terminarem de lê-la, se sentissem bem. Então, pode ser uma boa leitura para quem quer se acalmar após um dia ruim.

Quais mangás e autores dos gêneros shōjo e shōnen foram suas referências?

Quando eu estava na primeira série, fui hospitalizada com febre alta e ganhei um exemplar da revista Ribon, de mangá shōjo, como presente de melhoras. Foi a primeira vez que li algo do gênero e fiquei encantada com os traços maravilhosos e adoráveis. Durante os seis primeiros anos da escola, passei meu tempo só tentando copiar aqueles desenhos.
Sinto que a artista que mais me influenciou foi a mestra Chika Umino, cujo trabalho li no ensino médio. Admiro sua habilidade de combinar, com suavidade e sem dissonâncias, um estilo artístico delicado a imagens pungentes que sacodem as emoções humanas. Suas histórias apresentam diversos personagens marcantes que incitam coragem ao seguirem em frente, enfrentando desafios com todas as forças, mesmo quando estão prestes a desistir.
Pretendo me dedicar muito para que, um dia, eu também possa fazer arte e histórias como as dela.

Agora, sobre você mesma: o que gosta de fazer em seu tempo livre? Quais são seus hobbies atuais?

Desenhar é o que eu mais gosto de fazer. Acho muito prazeroso desenhar fora do trabalho. Quando tenho um tempo livre, às vezes levo um caderno e um lápis a um museu ou zoológico para fazer alguns esboços. Também gosto de trabalhos manuais. Por exemplo, faço bonecos de pelúcia.

Está trabalhando em algum novo projeto atualmente? O que pode adiantar aos seus leitores?

Sim, atualmente estou trabalhando em uma nova história. Ela tem uma atmosfera um pouco diferente de Beyond the Clouds, e sinto que os personagens são um pouco mais caóticos. É uma história na qual o cotidiano e o extraordinário se misturam. Eu ficaria feliz se os leitores brasileiros pudessem lê-la algum dia.

Uma última pergunta: como Beyond the Clouds está finalmente chegando ao Brasil, gostaria de deixar algum recado aos seus novos leitores?

Acho que, por ser este o meu primeiro mangá longo, há muitas imperfeições, mas eu ficaria muito contente se pudessem apreciá-lo, ainda que pouco. Eu ficaria ainda mais feliz se o escolhessem para ler em momentos de cansaço ou quando precisassem de uma pausa e sentissem algum conforto após a leitura. Peço, por favor, que acompanhem com carinho o desenvolvimento de Theo e Mia!

Mais uma vez, agradecemos a Estação Liberdade e a Nicke pela oportunidade,
e em especial a tradução feita pelo Gustavo Katague, editor-adjunto da Editora Estação Liberdade e tradutor do livro “A noite de Baba Yaga“, de Akira Otani, publicado pela Estação Liberdade e a Andreia Felisbino pelo contato e atenção com a Black Company.
O primeiro volume de Beyond the Clouds já está a venda no site da editora por R$ 64,90, impresso em papel off-set possuindo o formato 13 cm ×18 cm (o mesmo usado no Japão em tankōbon), possui 212 páginas e ilustrações coloridas, contando ainda com capa com orelha, cartão-postal ilustrado e colorido e marca-páginas de brindes.

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