Produção estrelada por Yahya Abdul-Mateen II e Alice Braga aposta em tensão política e profundidade psicológica.
A plataforma da Netflix estreou, em 30 de abril, a série Homem em Chamas (Man on Fire), atualizando a narrativa da obra original de A. J. Quinnell e alcançando mais de 11 milhões de visualizações, em quase 50 países, já na sua primeira semana de lançamento. Diferente do clássico filme de 2004 protagonizado por Denzel Washington, a produção atual transporta a guerra solitária de John Creasy para um Rio de Janeiro em combustão, abandonando o glamour turístico para focar em uma estética mais realista marcada por conflitos de poder entre o Estado e organizações criminosas.
A Trama
A trama acompanha John Creasy (Yahya Abdul-Mateen II), um ex-combatente das Forças Especiais que carrega cicatrizes psicológicas de uma emboscada fatal no México. John vive o sofrimento do estresse pós-traumático e o abuso de álcool até ser recrutado por seu antigo colega, Rayburn (Bobby Cannavale), para um trabalho de segurança privada no Brasil.
O que deveria ser um recomeço torna-se um novo pesadelo.
Ele encontra um país em ano de eleição, no qual o Presidente brasileiro João Carmo (Billy Blanco Jr.) busca se reeleger em meio a fortes críticas e crescente desaprovação. Essa instabilidade é agravada por uma organização criminosa que realiza atentados coordenados contra o governo. É justamente em um desses ataques que Rayburn acaba sendo vitimado, colocando também a jovem Poe (Billie Boullet), filha do falecido amigo, na mira dos bandidos. A partir daí, o protagonista inicia uma caçada implacável, movido não apenas pela vingança, mas pela necessidade de proteger a única conexão humana que lhe resta.

Estrelas brasileiras em destaque
O elenco diversificado é um dos pontos altos da produção, com destaque para o protagonismo brasileiro que extrapola a ambientação da série. Thomas Aquino (Bacurau) interpreta Prado Soares, ministro da Defesa e braço direito do presidente do Brasil. É ele quem contrata Creasy e Rayburn para integrar a segurança presidencial no início da trama, protagonizando os primeiros embates com Creasy logo após conhecê-lo.
Ao lado dele, Alice Braga (Cidade de Deus) dá vida a Valéria, uma motorista particular com trânsito pelo submundo carioca que se torna a principal aliada de John Creasy em sua jornada. Em entrevista à Rolling Stone, a atriz ressaltou que o grande diferencial do personagem de Yahya Abdul-Mateen II é como escapa do arquétipo de “herói perfeito”.
“Eu nem sei se isso existe, o homem perfeito. Mas você o vê lutando com a história da própria vida, e com a conexão com os outros, e [tratando de temas como] proteção e esperança. Eu achei muito interessante revisitar essa narrativa em um mundo como o de hoje, e trazer entretenimento, mas com essas qualidades mais profundas”, afirmou Alice.
Uma abordagem psicológica
O ator Yahya Abdul-Mateen II, vencedor de um Emmy por Watchmen, revelou à Rolling Stone que a violência de seu personagem não é gratuita, é um reflexo de sua dor latente. Segundo o ator, as ações destrutivas de John Creasy são por sobrevivência, o que gera um senso de justiça que as pessoas podem se identificar.
“Ele sente amor, cuida de alguém, todas essas coisas humanas que são naturais e que, de repente, foram prejudicadas por uma grande perda”, explicou Yahya Abdul-Mateen II
Essa complexidade emocional é o que sustenta o arco de reconstrução do personagem ao longo da série. Enquanto tenta se recompor para enfrentar as ameaças à sua volta, Creasy estabelece um vínculo afetivo com Poe. Após perder a família no atentado, a jovem encontra no ex-combatente uma figura de proteção. Marcado por experiências traumáticas semelhantes, John Creasy passa a oferecer à garota um ponto de segurança em meio ao cenário de perseguição que atravessa a trama.
A condução dessa narrativa está sob o comando de um time criativo de elite. O roteiro é assinado por Kyle Killen (Halo), que lidera uma equipe de diretores multifacetada; enquanto Steven Caple Jr. (Transformers: O Despertar das Feras) dirige os dois primeiros episódios, o brasileiro Vicente Amorim (A Princesa Yakuza) fica responsável pelo terceiro e quarto capítulos, para então, Clare Kilner (A Casa do Dragão) assumir as rédeas dos episódios quinto e sexto. O desfecho da temporada fica a cargo de Michael Cuesta (Homeland), veterano do gênero de espionagem, que dirige o episódio final.
Com sete episódios de ritmo intenso, a primeira temporada investe em tensões políticas contemporanêas encontrando identidade própria sem depender da comparação com o filme de 2004. O resultado é uma adaptação que amplia o alcance dramático da obra original e reforça o potencial da Netflix em revisitar clássicos sob novas perspectivas.

Vai ter segunda temporada?
Com o desempenho expressivo logo na primeira semana de estreia, a possibilidade de uma renovação para uma segunda temporada já passou a ser especulada pelo público. Embora a Netflix ainda não tenha confirmado oficialmente novos episódios, o universo criado por A. J. Quinnell oferece material narrativo suficiente para expandir a trajetória de John Creasy por várias temporadas.
O autor britânico escreveu quatro continuações para o romance original que inspirou a produção: The Perfect Kill (A Morte Perfeita), The Blue Ring (O Círculo Azul), Black Horn (Chifre Negro) e Message From Hell (Mensagem do Inferno). As obras ampliam significativamente o escopo da história, levando o personagem a diferentes conflitos internacionais e aprofundando sua construção psicológica para além da figura do justiceiro marcado pela tragédia.
As sequências situam Creasy em cenários diversos como o Mediterrâneo, o Zimbábue, o Vietnã e o Camboja, o que abre para a plataforma muitas possibilidades de direcionamento. Caso o streaming opte por seguir a linha literária, a série poderia transformar sua ambientação brasileira inicial em apenas o ponto de partida para uma franquia internacional, explorando novos contextos políticos e conflitos globais.
Diante da recepção positiva e da riqueza do material original, Homem em Chamas parece ter combustível suficiente para continuar aceso por mais tempo no catálogo da plataforma.
Fontes: Rolling Stone, Variety, Estadão
