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Resistência Digital: Ativista cria plataforma gratuita contra censura

Em resposta ao banimento de mais de 145 títulos no condado de Rutherford, Brendon Donoho lança plataforma para garantir acesso de jovens a obras LGBTQIA+

O ativista Brendon Donoho lançou o website borobannedbooks.com, uma biblioteca digital que visa enfrentar a onda de remoção de livros nas escolas e bibliotecas públicas do Condado de Rutherford, no Tennessee. A iniciativa surge como uma contraofensiva direta à decisão do Conselho de Educação local de restringir cerca de 145 títulos, focando especialmente em obras que abordam temas LGBTQIA+, igualdade de gênero e questões raciais.

Brendon, que têm atuado na linha de frente contra as políticas de censura, argumenta que o banimento físico não pode impedir o acesso à literatura na era digital. Ele explica que as autoridades podem perder muito tempo tentando banir as obras, mas a rapidez da tecnologia permite que um livro novo seja colocado no site em apenas 90 segundos.

A biblioteca dos livros proibidos oferece acesso gratuito a obras digitalizadas para leitura em tablets e smartphones, incluindo clássicos como Amada (Beloved), de Toni Morrison, e títulos voltados ao público jovem, como Melissa, por Alex Gino, e Queer: The Ultimate LGBT Guide for Teens, de Kathy Belge. Para o ativista, o projeto assegura que pessoas queer se vejam representadas nas histórias de sua comunidade. “Pessoas Queer também vivem aqui (…) e devem se sentir acolhidas”.

Luanne James em sua audiência disciplinar

Crise institucional e denúncias de vigilância

O conflito em Rutherford atingiu um ponto crítico com a exoneração da diretora de bibliotecas Luanne James. Com 25 anos de experiência no serviço público e vinda da Carolina do Sul para assumir o posto em julho de 2025, sua saída expôs graves denúncias de abuso de autoridade e ética. Luanne acionou proteções legais para denunciantes ao revelar que o presidente do conselho, Cody York, teria feito exigências ilegais, incluindo o monitoramento de usuários. Segundo a ex-diretora, Cody ordenou a coleta de dados privados, como nomes, endereços e composição familiar, de quem retirasse livros “sinalizados”, em uma clara tentativa de vigilância e violação da privacidade dos leitores.

O estopim para a demissão ocorreu em março de 2026, quando o conselho ordenou a transferência de 132 títulos das seções infantis para as adultas sob a justificativa de “inadequação”. Luanne recusou-se a cumprir a medida após uma revisão técnica concluir que as obras não violavam leis estaduais ou federais. Ao classificar a ordem como uma afronta direta à Primeira Emenda, ela recebeu apoio massivo da Rutherford County Library Alliance (RCLA). A organização mobilizou a comunidade para lotar a audiência disciplinar de Luanne em protesto contra a decisão do conselho.

“Estamos em meio a uma onda de censura que mina um dos nossos valores mais preciosos: o direito à liberdade de leitura”, declarou Tatiana Silvas, diretora de comunicação da RCLA e professora de inglês do ensino médio.

Manifestantes ligados à ACLU utilizam camisetas e cartazes com a frase “Protect the Freedom to Read” (Proteja a Liberdade de Ler), destacando a oposição a políticas que restringem o acesso a certas obras em bibliotecas escolares e públicas no Tennessee.

O “Modelo Flórida” e a Pressão Conservadora

O cenário em Rutherford reflete uma tendência nacional nos Estados Unidos, utilizando estratégias de governança testadas inicialmente na Flórida sob a gestão de Ron DeSantis. A base legal para essas remoções no Tennessee repousa em leis recentes, como a SB 2292 (Lei de Idade Apropriada), que exige a revisão de materiais para remover conteúdos considerados “sexualmente explícitos”. Críticos, no entanto, alertam que a vagueza do termo é utilizada propositalmente para atingir obras sobre identidade de gênero e orientação sexual.

Essa ofensiva não é inédita na região. Em 2023, a cidade de Murfreesboro promulgou a chamada “Lei da Decência”, originalmente criada para impedir a realização de uma Parada do Orgulho LGBTQIA+. O dispositivo rapidamente evoluiu para restringir qualquer forma de expressão da comunidade em espaços financiados pelo município, incluindo as bibliotecas públicas. Embora a lei tenha sido revogada após um processo movido pela ACLU do Tennessee, o espírito da medida sobreviveu, transmutando-se na atual onda de banimento de livros.

Atualmente, o Conselho Escolar admite basear suas decisões de censura em avaliações do site Book Looks. A plataforma desenvolvida por pessoas ligadas ao grupo conservador Moms for Liberty, organização que lidera campanhas de remoção de títulos em todo o país e que tem ditado o ritmo das políticas educacionais no condado, muitas vezes ignorando pareceres técnicos de bibliotecários e educadores.

Reconhecimento Internacional

Apesar do clima de tensão no Tennessee, a mobilização em Rutherford alcançou visibilidade internacional. A organização PEN America anunciou que a coalizão RCLA será homenageada com o Prêmio PEN/Benenson de Coragem no próximo dia 14 de maio, durante o Jantar de Gala Literária de 2026, em Nova York. A honraria celebra o esforço persistente do grupo em proteger o direito à leitura em um cenário nacional onde a PEN America já contabilizou mais de 23 mil casos de banimento de livros em 45 estados nos últimos cinco anos.

Para Brendon Donoho, projetos assim, como a sua biblioteca dos livros proibidos, carrega uma missão humanitária: “O governo pode controlar o que se compra para as estantes físicas com dinheiro público, mas não pode ditar o que os filhos de outras pessoas podem ler em redes privadas.” defende o ativista. Ele reforça que sua expectativa é que a iniciativa digital se expanda e encoraje outras comunidades a unirem forças para garantir que o acesso à informação e a representatividade de histórias diversas permaneçam protegidos contra a censura.

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