Dom de Iludir é a nova aposta brasileira da Netflix para conquistar o público com uma trama repleta de conflitos familiares, espiritualidade, ambição e manipulação. Estrelada por Marieta Severo, Alice Wegmann e Nanda Costta, a série acompanha Lúcia Rossetti (Marieta Severo), uma rica colecionadora de obras de arte que enfrenta o desespero diante da doença misteriosa da filha, Maíra (Alice Wegmann). Em busca de uma solução, ela procura Irina (Nanda Costta), uma terapeuta espiritual que promete ajudá-la, mas esconde interesses próprios. A partir desse encontro, uma tentativa de encontrar esperança desencadeia uma sequência de golpes, mentiras e revelações capazes de transformar a vida de duas famílias.
A narrativa aproxima os Rossetti e os Petrov, famílias que vivem realidades econômicas bastante distintas, mas compartilham relações marcadas por conflitos e figuras autoritárias. Enquanto Lúcia e Maíra desfrutam de uma vida luxuosa em uma mansão em Ipanema, Irina divide uma residência mais simples na Ilha do Governador com seus familiares, liderados pelo patriarca Bóris (José de Abreu).
Para o diretor Mauro Mendonça Filho, a produção utiliza os vínculos familiares para discutir diferentes formas de afeto, poder e opressão. “Fala-se muito em família como escudo, amor ou motivo de orgulho, mas é um tema que envolve muita coisa, tanto valores incríveis quanto valores bastante questionáveis, e até mesmo opressão. E isso é algo que molda profundamente qualquer pessoa”, opina.
Nesse contexto, Alice Wegmann observa que Maíra e Irina encontram pontos de identificação justamente por enfrentarem relações difíceis com suas respectivas figuras de autoridade. “Eu acho que, por exemplo, a Maíra e a Irina se encontram por terem duas figuras autoritárias em cima delas, a Lúcia e o Bóris. Isso causa uma ferida nas duas, e elas acabam se achando nesse lugar da vulnerabilidade, que, talvez, é quase um ímã para as duas”, avalia a atriz.
Além disso, as relações apresentam diferentes manifestações de violência. Lúcia interfere diretamente nas escolhas pessoais de Maíra e chega a provocar o rompimento do relacionamento amoroso da filha. Embora acredite agir para protegê-la, a matriarca ultrapassa constantemente os limites da autonomia da jovem. Já Bóris mantém uma relação igualmente opressora com Irina, marcada também por agressões físicas.
Ao comentar essas dinâmicas, Alice destaca a complexidade dos vínculos familiares retratados na produção. “Apesar das diferenças de classe social e criação, são relações simbióticas nos dois casos. Acho que muita gente vai se identificar, não só no lugar da toxicidade, mas também dos vínculos humanos, que são complexos, com lado bom e ruim. São histórias familiares que eu acredito serem próximas de muita gente”, afirma.

A inspiração em um golpe real
Logo no primeiro episódio, a série revela que Irina utiliza a espiritualidade como instrumento de fraude. A construção da personagem remete ao caso de Sabine Coll Boghici, acusada de aplicar um golpe milionário contra a própria mãe, Geneviève, viúva do colecionador de arte Jean Boghici.
Na ocasião, o esquema envolveu uma mulher que se apresentava como cartomante e mãe de santo. A fraude também resultou na negociação de obras de artistas como Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, provocando um prejuízo estimado em R$ 725 milhões.
Entretanto, a produção não se limita a reproduzir os elementos de um crime. Mauro Mendonça Filho explica que a equipe construiu situações capazes de conduzir o público por diferentes interpretações dos acontecimentos. “A gente cria elementos que façam as pessoas simpatizarem emocionalmente com aquela situação. Eu queria que a Maíra, por exemplo, parecesse estar péssima”, revela o diretor.
A própria Maíra exemplifica essa proposta. Embora pareça frágil e ingênua inicialmente, a jovem demonstra inteligência e capacidade de perceber o que acontece ao seu redor. Nanda Costta destaca a sagacidade da personagem e os desafios de construir as tentativas de enganá-la. “Eu ficava pensando como a gente ia enganar essa menina, que é esperta demais. A Alice traz uma sagacidade a ela que não dá para ser só uma piscadinha e pronto, enganamos a garota”, afirma.
Marieta Severo, por sua vez, ressalta o desempenho de Nanda Costta na construção da farsante. “Nanda foi brilhante em iludir. A Lúcia acredita completamente nesse golpe e faz tudo o que ela quer, até um certo momento”, adianta a atriz.
A espiritualidade também ocupa um lugar central na narrativa. Mauro considera importante abordar o tema e destaca a relação entre fé e manipulação. “Somos o país mais místico do mundo”, declara o diretor. Marieta também comenta a relevância da discussão: “E foi muito bom trazer esse assunto para a série. Muitas pessoas têm usado da fé para criar situações que não são verdadeiras, então foi muito oportuno”, complementa a veterana.
Marieta Severo destaca a tradição brasileira no melodrama
Além dos golpes e dos conflitos familiares, Dom de Iludir aposta em uma estrutura narrativa que aproxima a série do universo das novelas brasileiras. Para Marieta Severo, o país possui uma tradição consolidada nesse formato e demonstra capacidade de transportar o melodrama para diferentes modelos de produção.
“A gente sabe fazer isso, o drama, o melodrama ou qualquer coisa nesse sentido. Somos craques. Então, é natural que a gente também faça em um formato de dois, 10, 20, 30, 40 ou 50 episódios”, defende a atriz.
Mauro Mendonça Filho também destaca as reviravoltas como um dos principais atrativos da produção. Ao longo dos dez episódios, os personagens revelam diferentes facetas, modificam as expectativas do público e conduzem a narrativa por caminhos inesperados. “Na série, as coisas vão acontecendo de uma forma que uma pessoa que parece ser de um jeito se torna de outro. Você empatiza com um personagem, e ele acaba tomando outro rumo. Isso ao longo de 10 capítulos, ou seja, é uma montanha-russa”, promete o diretor.
Alice Wegmann define a experiência como “viciante” e acredita que os acontecimentos incentivam os espectadores a continuar assistindo. Afinal, cada capítulo termina com novos questionamentos e situações que despertam a curiosidade sobre os próximos acontecimentos. “É para maratonar. Você termina o primeiro episódio, e não tem como não começar o segundo”, antecipa a atriz.
Assim, Dom de Iludir combina suspense, melodrama e conflitos psicológicos para explorar os limites entre amor, controle, confiança e manipulação. Com um elenco de destaque e uma história que dialoga com acontecimentos reais, a produção aposta na tradição brasileira de contar histórias intensas em um formato pensado para maratonar.