Por mais de duas décadas, Resident Evil encontrou dificuldades para estabelecer no cinema aquilo que tornou a franquia tão marcante nos videogames. As adaptações anteriores oscilaram entre criar histórias praticamente independentes da Capcom e tentar condensar personagens e acontecimentos conhecidos em narrativas pouco orgânicas. O novo filme, dirigido por Zach Cregger (Noites Brutais e A Hora do Mal), parte de uma ideia consideravelmente mais inteligente: em vez de transformar um jogo específico em filme, ele tenta transportar para a tela a sensação de estar jogando Resident Evil.
A escolha de Bryan, interpretado por Austin Abrams, é fundamental para isso. Ele não é um agente treinado, um especialista em armas ou um herói preparado para enfrentar uma epidemia biológica. É um entregador de órgãos que se vê envolvido em uma situação completamente absurda e precisa aprender a sobreviver enquanto o espectador aprende junto com ele. Essa vulnerabilidade dá ao protagonista uma função que vai além da identificação: Bryan funciona praticamente como um jogador descobrindo as regras daquele mundo.

O diretor transforma essa progressão em linguagem cinematográfica. A câmera frequentemente acompanha Bryan como se estivesse reproduzindo a perspectiva de uma partida, alternando entre enquadramentos em terceira pessoa, primeira pessoa e planos mais tradicionais. Não se trata simplesmente de colocar uma câmera subjetiva durante uma cena de ação. A movimentação, a exploração dos ambientes, a procura por recursos e até determinados momentos de confronto são organizados para transmitir a lógica de progressão de um videogame. O próprio diretor explica que a linguagem visual não segue uma regra rígida, mas é construída de acordo com o que cada momento exige. É aí que o filme encontra sua identidade.
Em vez de depender de Jill Valentine, Leon Kennedy ou Chris Redfield para estabelecer imediatamente uma conexão com os fãs, Zach Cregger cria uma história nova dentro daquele universo. Isso permite que Resident Evil recupere uma característica essencial da franquia: o desconhecido. Bryan não sabe o que está acontecendo, não conhece as criaturas e tampouco entende inicialmente as dimensões do desastre. A descoberta das ameaças, portanto, acontece simultaneamente para personagem e público.

Essa decisão também ajuda o horror. O filme parece menos interessado em transformar zumbis em simples obstáculos e mais disposto a explorar o grotesco das mutações e experimentos biológicos. Os efeitos práticos, desenvolvidos com a participação do especialista Shane Mahan e da Legacy Effects, reforçam essa escolha.
Mas Cregger não trata Resident Evil como um terror sisudo. O humor surge justamente da reação de Bryan diante do absurdo. É uma escolha coerente com a própria franquia, que historicamente sempre misturou tensão, violência, estranheza e momentos deliberadamente exagerados. O problema é que esse equilíbrio parece ficar menos preciso no último ato. A narrativa perde um pouco do controle do ritmo justamente quando o filme decide aumentar sua escala e abraçar completamente o espetáculo.

Essa é provavelmente a principal limitação da produção, sua força está na construção gradual do medo e na sensação de descoberta, enquanto sua conclusão parece interessada demais em entregar uma grande recompensa visual. O resultado não destrói o que veio antes, mas evidencia uma diferença entre a tensão do survival horror e a catarse do blockbuster, e acaba perdendo a construção memorável de horror que vinha sendo feita nos dois primeiros atos.
Ainda assim, existe algo particularmente interessante nessa versão de Resident Evil. Zach Cregger não tenta provar que videogames podem ser transformados em cinema simplesmente retirando deles aquilo que os torna videogames. Pelo contrário, ele entende que câmera, ritmo, exploração, progressão, recursos limitados e aprendizado do jogador também podem ser elementos narrativos.
Por isso, o filme funciona menos como uma adaptação de uma aventura específica e mais como uma tradução de uma experiência. E talvez seja justamente essa diferença que permita a Resident Evil finalmente encontrar no cinema uma identidade própria sem precisar abandonar a essência que tornou a franquia tão duradoura nos videogames. O filme estreia amanhã no Brasil, dia 17 de setembro, exclusivamente nos cinemas.