“Você está olhando atentamente?”, perguntou Alfred Borden. Uma frase de The Prestige (2006) que representou muito bem a filmografia de Christopher Nolan ao longo dos anos. Por que, de repente, fazer um filme sobre uma tragédia grega? Alguns questionaram. Para os que acompanharam a trajetória de Nolan, A Odisseia (2026) se tornou não só sua perspectiva nessa história antiga, mas um caminho coerente e inevitável.
A própria decisão de produzir um filme sobre o Prometheu Americano, Oppenheimer (2023), foi o prelúdio. As metáforas religiosas revelaram um flerte extenso do diretor com a mitologia grega. No mito, Prometheus foi punido por Zeus por ter entregado o fogo aos homens. Uma comparação direta ao poder de destruir a si mesmos que eles conseguiram com as bombas atômicas. Nos dois últimos filmes, Nolan construiu uma narrativa sobre um herói de guerra que sentiu todo o peso de sua liderança e as consequências devastadoras de suas decisões.
Mas Oppenheimer era uma tragédia mais voltada ao poder em mãos, enquanto, através de Odisseu, Nolan trouxe reflexões sobre o depois. O que aconteceu e em quem se transformou aquele que tinha todo o poder e viu tudo escorregar de seus braços? Sob a ótica do drama construído, A Odisseia foi um argumento de por que a imersão no poder nunca fez bem ao ser humano e muitos dos que se envolveram nele, após tanto tempo, desejavam somente a distância e o esquecimento.
A proposta do herói mítico
Isso leva a discussão em torno da proposta do filme. Em entrevistas antigas, o autor George R. R. Martin fez críticas construtivas à John R. R. Tolkien, o falecido escritor da trilogia O Senhor dos Anéis e O Hobbit. Segundo Martin, nunca era feita a pergunta “Qual era a política tributária de Aragorn?” para saber se, realmente, ele foi um bom rei. A história termina com a suposição de que seu reinado foi perfeito, porque Aragorn era uma boa pessoa para os que o conheciam.
As histórias de Tolkien queriam preservar os heróis clássicos, com uma distinção visível entre personagens bons e maus. Por outro lado, Martin provocou essas questões porque sua proposta sempre foi diferente. O mundo de As Crônicas de Gelo e Fogo foi, minuciosamente, preenchido com pessoas que podiam ser boas, mas que também eram capazes de cometer atos terríveis. A Odisseia (2026) de Nolan foi algo entre esses dois pontos de vista.
Por mais ambíguos que os personagens tenham sido, o poema de Homero era heróico e, portanto, o protagonista deveria vencer. Não à toa, convenções de roteiro bastante usadas pelo diretor em filmes anteriores apareceram nos momentos mais convenientes. Nolan se acostumou a misturar conveniência com virada, num movimento bem sucedido que mascarou a suspensão de descrença necessária em prol de uma reviravolta surpresa e acontecimentos chocantes. É exatamente por isso que, nesse caso, sua abordagem fez tanto sentido à tragédia. Odisseu precisou sobreviver às situações mais impossíveis, porque, em essência, ele foi feito para ser inspiração e esperança.
O cuidado com o elenco
A performance de Matt Damon, assim como as dos demais atores, foi sublime e certeira. Robert Pattinson continuou sua trajetória ascendente na carreira e interpretou um Antinous complexo. Vilão, mas nem por isso burro ou cego pela ambição. Foi bom ver Tom Holland (Telemachus) num papel importante e fora do engessamento do Universo Cinematográfico Marvel, que tende a limitar as opções dos atores. O primeiro teste dramático e bem sucedido de Holland desde O Diabo de Cada Dia (2020) foi um jovem imaturo e um pouco ingênuo, não tão diferente do Peter Parker. Nas cenas com a Anne Hathaway (Penélope), ele não tem chance contra a angústia e agonia expressadas pela atriz. Ainda assim, Holland tem muitas décadas pela frente para se consolidar fora do gênero super-herói.
As aparições de Zendaya como Athena foram efêmeras e precisas. Um perguntaria a necessidade de escalar a atriz para tão pouco, já que a deusa poderia ser uma abstração ou simplesmente uma mulher não conhecida. Com certeza diminuiria os custos de elenco. No entanto, isso demonstrou o cuidado de Nolan com os detalhes, pois a maioria dos contratados carregavam muito prestígio em Hollywood.
A beleza em Christopher Nolan
Nesse sentido, a montagem do filme não procurou inovar a fórmula do cineasta. Pelo contrário, pode-se dizer que o mito de Homero foi vítima das repartições de cenas de Nolan. Os que o observarem bastante verão o quanto ele adora distribuir as cenas como cartas de baralho e as dividir entre passado e presente com recorrência. É um artifício que aumentou a profundidade em suas obras, com roteiros que não se propuseram difíceis.
Outro aspecto que agregou muito ao filme foi a trilha sonora original de Ludwig Goransson, que retornou de Oppenheimer (2023). Os sons foram tão apropriados e, ao mesmo tempo, diferentes do que a indústria se habituou. A exigência de Nolan para que a composição fosse feita com instrumentos de época auxiliou numa imersão sem precedentes. Ele construiu um longa-metragem que, por vezes, fez-se sentir como uma canção de trovadores. Uma bela poesia sobre dor e agonia, tão poderosa a ponto de te guiar às lágrimas. Para A Odisseia (2026), um veredito de 5/5.
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Uma resposta
Como entusiasta das obras de Homero e dos filmes de Nolan, fui bastante animado para a sessão, entretanto eu preciso pontuar algumas coisas que senti que tornaram a experiência muito aquém do que eu esperava.
A primeira delas é a escolha do elenco, na qual infelizmente tenho que, respeitosamente, discordar com alguns pontos de sua crítica:
-Matt Damon e Tom Holland são atores que para esse papel não entregam a energia e atuação nem para as aventuras/viagens de Odisseu, quanto a persistência e drama de Telêmaco durante sua situação em Ítaca. Sinto que ambos passaram o filme com uma expressão “neutra” e incapaz de gerar simpatia ou sentimentos. Algo completamente diferente das atuações de Anne Hathaway e Robert Pattinson, que foram sublimes em seus papéis e entregaram algo que realmente te conecta aos personagens, seja em termos de empatia ou raiva. É isso que esperamos em obras dessa magnitude.
-Concordo que Zendaya foi sub-utilizada no papel, assim como a própria Lupita. A impressão que passa é que apenas as colocaram ali pelo nome.
Fora da escolha de elenco, eu tive uma percepção de que talvez essa trama poderia ter sido dividida em uma trilogia, mais completa. E por quê? se pensarmos no próprio termo “odisseia”, ao qual nosso protagonista origina, já seria de se esperar longas viagens, desventuras e situações terríveis de idas e vindas. Não apenas dizer que “levou 20 anos para voltarem para casa”. Não quero números, quero SENTIR essa demora.
Vou dar um exemplo, a cena na ilha da Circe, que no livro eles passam 1 ano banqueteando ao redor de ninfas e em uma constante luta para tentar escapar dos encantamentos da bruxa e retornar. No filme a impressão que dá é que não passaram uma tarde lá. Simplesmente chegaram, começaram a comer, foram transformados em porcos e antes ainda do entardecer estavam de volta correndo para seus barcos (o que se tornou um efeito repetitivo a cada ilha que chegavam, acentuado justamente por conta dos eventos acontecerem muito rápido). Outro exemplo foi na ilha dos gigantes. Cena sem pé nem cabeça, resumida apenas em carnificina e nova correria para os barcos.
Além disso tivemos uma passagem apagada pelas sereias e situações claramente resumidas para caberem tudo nas pouquíssimas 3hrs de trama. Cabia mais, PRECISAVA de mais.
Ao meu ver, ao condensar todas as aventuras em uma única película, Nolan acabou por sacrificar muito do contexto para aqueles que não conhecem as obras de Homero, tornando basicamente o que seria um verdadeiro épico, em um filme mitológico apenas “divertido”. Infelizmente saí da sessão com um sentimento muito longe do que senti ao assistir um ‘Gladiador’, por exemplo. Isso que nem entrei em detalhes pouco explorados, como fotografia ou mesmo a trilha sonora, que acertou sim em vários momentos (“Sirens” ficou excelente) e a sonoplastia das cenas com o Cyclope ficaram espetaculares. Mas que, de maneira geral, achei abaixo do que o filme prometia por todo o hype.
Em resumo, é sim um bom filme, mas que poderia ter sido muito melhor se dividido em 3 partes, aprofundado melhor os personagens (com tempo de tela e trama mais profunda), explorado melhor a fotografia e o Imax para entregar uma experiência visual mais estimulante a cada nova ilha, e, se me permitir deixar meu lado fã entrar em ação, trazido Hans Zimmer para conduzir cada um desses desafios de uma forma a estimular arrepios não apenas visualmente, mas de maneira sonora também.
Mas de qualquer forma muito legal sua avaliação! Abraços!