Existe algo profundamente inquietante no folk horror. Talvez seja a ideia de que o verdadeiro medo não mora em castelos assombrados ou criaturas sobrenaturais, mas em tradições antigas, vilarejos isolados e em pessoas comuns seguindo rituais absurdos.
É exatamente isso que Medo Antigo entrega.
Vocês sabem que sou completamente obcecada por terror, suspense, horror sobrenatural, histórias macabras, florestas amaldiçoadas, seitas pagãs e personagens tomando decisões horríveis em lugares isolados. Então imaginem minha empolgação ao receber essa edição da O Grifo Editora! O livro já me impressionou antes de abrir: capa dura, detalhes dourados, ilustrações lindas e todo aquele aspecto de objeto encontrado em uma biblioteca esquecida.
Medo Antigo está disponível tanto em edição individual (AQUI) quanto em um kit com revista, marcador, pôster, ecobag e um deck card game colecionável (AQUI). Organizada por Ismael Chaves, a coletânea reúne treze autores clássicos da literatura fantástica e macabra em língua inglesa, muitos deles inéditos em português. O resultado é uma verdadeira viagem pelas raízes do folk horror, muito antes de filmes como A Bruxa (2015) popularizarem novamente o subgênero.

O mais curioso é perceber como contos escritos entre o século XIX e o início do XX continuam tão perturbadores até hoje! “O Jovem Goodman Brown”, do Hawthorne, é considerado por muitos o primeiro conto folk horror da literatura, onde a jornada pela floresta mistura fé, paranoia e culpa. O horror maior talvez nem seja o culto escondido entre as árvores, mas a descoberta de que ninguém é realmente puro.
“A Pirâmide de Fogo”, do Arthur Machen, trabalha com forças antigas escondidas sob a paisagem rural inglesa. O Machen escrevia horror cósmico antes de Lovecraft tornar isso moda, ta?
Mas meu conto favorito da antologia foi, sem dúvida, “Janet, a Entortada”, de Robert Louis Stevenson.

Horror atmosférico construído sobre superstição religiosa e medo coletivo? Não tem como não gostar. Stevenson transforma a figura de Janet em algo perturbador sem precisar recorrer a violência explícita: o terror está nos detalhes e na dúvida crescente do reverendo que tenta racionalizar o inexplicável até perceber que talvez o vilarejo estivesse certo o tempo todo. O conto tem uma sensação quase bíblica de condenação que deixa desconfortável de um jeito difícil de sacudir depois.
Vale mencionar também o trabalho editorial: a tradução do Carlos Primati preserva a atmosfera dos textos sem travar a leitura, e o projeto gráfico do Daniel Gruber faz o livro parecer mesmo de outra época. O folk horror costuma trabalhar menos com sustos imediatos e mais com desconforto crescente. São histórias sobre lugares isolados demais, crenças antigas demais e pessoas desesperadas demais que acreditam em qualquer promessa de salvação.
E Medo Antigo entende isso muito bem.
