Publicado originalmente em 1946 nos Estados Unidos, O Beco das Ilusões Perdidas (no original, Nightmare Alley) passou décadas como um clássico obscuro do noir americano, lembrado apenas por cinéfilos que conheciam a adaptação de 1947 com Tyrone Power. Foi só depois que Guillermo del Toro decidiu refilmar a história, em 2021, que o romance de William Lindsay Gresham voltou a circular e, para quem gosta de suspense psicológico com uma pitada de horror existencial, é uma descoberta e tanto.
Do que se trata
A história acompanha Stan Carlisle, um jovem ambicioso que trabalha num circo itinerante de variedades. Ao presenciar a decadência de um artista reduzido a atração de horror da feira, Stan jura que nunca vai se rebaixar daquela forma e passa a subir na hierarquia do espetáculo, aprendendo os truques da leitura de mentes e da adivinhação. Aos poucos, ele se torna um “espiritualista” de sucesso, explorando a fé e a credulidade de gente rica e desesperada. Mas sua ambição o coloca no caminho de uma psiquiatra tão manipuladora quanto ele, e o que parecia ser o topo vira o início de uma queda.
Por que ele foi esquecido
Gresham teve uma vida tão atribulada quanto seus personagens, problemas com álcool, uma busca inquieta por sentido que passou pelo marxismo, pela psicanálise e por diferentes religiões. Isso, somado ao fato de o livro nunca ter recebido o mesmo destaque de outros clássicos da era da Depressão, fez com que O Beco das Ilusões Perdidas ficasse à sombra de obras contemporâneas como As Vinhas da Ira, de Steinbeck, comparação que, aliás, é praticamente unânime entre quem lê os dois.
Pontos fortes
O que mais impressiona é a atmosfera. Gresham conhecia o submundo dos circos e das feiras itinerantes por dentro, e isso transparece em cada detalhe, dos golpes de vidência aos bastidores sórdidos das atrações. A construção de Stan Carlisle também é um estudo de caso sobre ambição e autodestruição: ele não é uma vítima das circunstâncias, mas alguém que ativamente escolhe manipular os outros, e o livro nunca amacia essa crueldade para torná-lo mais simpático. É esse realismo cru sem monstros, mas cheio de horror humano que aproxima a obra do melhor suspense psicológico contemporâneo.
Pontos fracos
A linguagem de 1946 pode soar datada para quem está acostumado a ritmos mais ágeis, e alguns trechos sobre o funcionamento técnico das falsas leituras de mente se alongam mais do que o necessário para o leitor atual. Ainda assim, isso não compromete a força da narrativa principal.
Vale a pena ler?
Sim, principalmente para quem gosta de histórias sombrias sobre ambição, culpa e queda, sem depender de nenhum elemento sobrenatural para gerar desconforto. É um livro sobre como a exploração da fé alheia pode ser sua própria armadilha, e a sensação que fica ao terminar é de inevitabilidade: você sabe que aquilo ia terminar mal desde a primeira página, e mesmo assim não consegue parar de virar.