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Luminária: Em Busca de WondLa é uma aventura por uma família

Talvez você até já tenha ouvido falar de “Em Busca de WondLa”, mas poucos são aqueles que conhecem esta história, pelo menos é esta a impressão que tenho e, infelizmente, é uma trilogia sensacional que não teve um bom hype no Brasil. O autor e ilustrador Tony DiTerlizzi criou um mundo fantástico e interativo, seus livros também ganharam uma série animada e mesmo assim poucos conhecem a saga.

Posso também estar falando besteira, pois sou uma adulta que não faz parte do público-alvo do livro, mas é uma aventura que me dá um quentinho no coração e sei que outros que estão fora da faixa infantojuvenil também aproveitarão. Como gosto bastante desta história e acredito no potencial desta narrativa, venho, por meio da coluna literária, te convencer a ler “Em Busca de WondLa”. Com isso, incorpore seu espírito aventureiro e explorador, acenda a Luminária e vamos explorar Orbona.

Identidade, pertencimento e família

“Em Busca de WondLa” é o primeiro volume de uma trilogia de ficção científica e fantasia infantil de Tony DiTerlizzi, publicado em 2010 nos Estados Unidos, chegando em 2012 no Brasil através da editora Intrínseca. Os outros títulos que compõem esta saga são “Um Herói para WondLa” e “A Batalha de WondLa”, também publicados no país.

Eva Nove nunca tinha visto o sol de verdade, nem sequer saído de casa. Na verdade, em seus doze anos de vida, ela nunca tinha visto outra pessoa viva. Isso muda quando um caçador saqueador destrói seu lar subterrâneo e a obriga a fugir para salvar a própria vida. Desesperada para encontrar alguém como ela, uma única pista lhe dá esperança: uma foto deteriorada de uma garota, um robô, um adulto e a palavra “WondLa”.

Eu complemento esta sinopse explicando que a jovem, ao sair do seu santuário onde era treinada para sobreviver no mundo chamado “Terra”, depara-se em uma realidade totalmente diferente, com criaturas estranhas e em um lugar onde todos chamam de Orbona.

Acredito que um dos primeiros debates deste livro é o início da maturidade, a formação de personalidade, primeiras experiências e desejo de liberdade que os jovens na pré-adolescência começam a buscar. Apesar de Eva ser forçada a encarar a realidade do novo mundo quando seu lar é invadido, a menina já demonstrava interesse em saber quem ela é e onde estão seus iguais, com o desejo de explorar o lado de fora, por vezes perigoso e sem a superproteção de sua responsável, no caso de Eva, uma robô chamada Mater.

Outro tema que pode ser debatido neste livro é sobre família. A garota criada por uma robô a tem como uma figura materna, que assumiu a responsabilidade de cuidar, educar e proteger a garota, mesmo sabendo que não é sua parente ou até de sua espécie. Apesar de não ser sua mãe biológica, Mater configura como uma mãe adotiva. O assunto família também é explorado através de uns amigos alienígenas que a abriga em sua casa, a dinâmica de acompanhar a anfitriã com seus filhos é o primeiro contato de Eva em um lar formado por parentes.

Dando um pouco de spoiler, na segunda metade deste primeiro volume, a jovem descobre pertencer a uma espécie em extinção. Pertences da civilização humana são expostos em um museu e estudado por cientistas e taxidermistas, Eva é caçada justamente por ser considerada a única sobrevivente da sua espécie. É perturbador quando se imagina esta realidade inversa, quando o ser humano é a criatura a ser exposta e estudada, nos mesmos moldes que Darwin e outros cientistas fazem (ou faziam) com espécies animais ou, até mesmo, em populações de tradições tribais que destoam do “padrão”.

Mais que um livro, uma imersão

A narrativa fluida e o universo distópico e alienígena criado já são o suficiente para atrair os jovens para o livro, mas o autor de “Em Busca de WondLa” não parou por aí, seu projeto envolveu construir um universo interativo para o leitor.

Por ser ilustrador também, Tony DiTerlizzi já trabalhou na indústria gamer, como no jogo de cartas colecionáveis ​​“Magic: The Gathering” e em produtos de RPG Dungeons & Dragons. Talvez o trabalho mais conhecido do ilustrador é a série “As Crônicas de Spiderwick”, juntamente com a escritora Holly Black.

Com sua bagagem na ilustração de universos ficcionais, Tony DiTerlizzi complementou sua história original com diversas imagens próprias. Cada entrada de capítulo de “Em Busca de WondLa” contém uma ilustração daquela parte da narrativa, além da criação de todo conceito de Eva Nove, Matter, Andrílio, Orbona, Omnipod, Lacus e outros personagens, equipamentos e lugares.

Para dar apoio ao leitor durante a exploração deste mundo novo, no final desta edição contém um mapa da região de Orbona por onde Eva Nove e seus amigos se deslocarão ao longo do livro. Além disso, há também o sistema de escrita orboniano, com o desenho alienígena e a tradução para o alfabeto.

Atualmente e infelizmente, está desativado, mas a trilogia ainda trazia uma interação entre leitor e o universo de WondLa através de uma simulação 3D no site oficial do livro. Com a edição na mão e a webcam do computador, chaves espalhadas no livro eram lidas pela câmera que desbloqueavam cenas animadas em 3D. No YouTube ainda consegue-se encontrar vídeos que demonstram como era realizada esta interação.

Minha primeira impressão da animação

Em 2024, foi produzida uma adaptação desta história e lançada pela Apple TV+, em formato de animação. Não assisti ainda, na verdade descobri há pouco que havia sido produzida uma série animada de “Em Busca de WondLa”. De novo, não sou o público-alvo, mas também não vi muita gente comentando sobre.

O que fiquei com um pé atrás é a escolha do visual da protagonista. Antes que me acusem de preconceituosa ou racista, a minha questão é apenas a dificuldade primária de vincular a imagem oficial de Eva Nove (mostrada na capa, nos capítulos do livro e até no site da trilogia, além de ser uma pré-adolescente branca e loira) com a Eva da série, que mudou para uma mulher (minha impressão é de uma personagem adulta ou, pelo menos, uma jovem quase adulta), morena e de cabelo castanho.

A minha estranheza é o contraste de quem já conhecia a personagem dos livros e se depara com outra configuração na série que deve ter sido escolhida para cumprir pauta de Hollywood. Como não assisti a série, não posso dizer também se essa Eva mais velha, irá trazer o debate que expus mais acima nesta coluna: a maturidade e início da formação de personalidade conforme as primeiras experiências.

Porém, pelo trailer oficial da animação, parece que os episódios seguirão com fidelidade os acontecimentos do livro, com os personagens secundários e vilões próximos do caracterizado por DiTerlizzi em suas ilustrações oficiais. A discrepância fisionômica acontece apenas com a protagonista.

Enfim, não prometo assistir a série, mas arte é tão bonita quanto o livro. O objetivo da coluna de hoje é trazer uma boa dica de leitura infanto-juvenil que adultos também curtirão experimentar. É um belo livro, com a trilogia lançada completa no Brasil, fácil de encontrar em livrarias online e sebos. “Em Busca de WondLa” é uma aventura sobre a busca identitária e por pertencimento, além de noção de que família vai além de laços sanguíneos.

Luminária é a coluna literária na qual conversaremos sobre livros a cada quinze dias. Para mais conteúdos literários, acesse o portal.

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