Ao comemorar seis décadas de atividade, um dos principais nomes da edição brasileira continua sendo uma referência no mundo literário
O setor editorial está em festa, enaltecendo a marca histórica de sessenta anos de trajetória profissional de Jiro Takahashi. Ele é um dos editores mais influentes do país, tendo sido peça-chave para fazer milhões de jovens pegarem o gosto pela leitura entre as décadas de 1970 e 2000. Aos 76 anos, Jiro é reconhecido como uma lenda viva que acompanhou de perto e ajudou a mudar a história do mercado de livros nacional. Para rememorar essa longa caminhada, sua biografia foi registrada em um dos volumes da coleção Editando o Editor, organizado por Thiago Mio Salla e Ana Claudia Almeida e publicado pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp, 2025). Este é o décimo primeiro título da série que reúne depoimentos, memórias e reflexões de grandes editores que ajudaram a construir a cultura do nosso país.
A trajetória de Takahashi começou em 1966, quando ele conseguiu um emprego de datilógrafo na Editora Ática e acabou participando ativamente do crescimento que transformou a empresa em uma gigante do setor. Jiro nasceu em Duartina, no interior de São Paulo, em uma família de origem japonesa. Quando jovem, queria ser médico, mas acabou estudando contabilidade. Pouco tempo depois, foi aprovado no vestibular de Direito da USP, alcançando a nota máxima na prova de língua portuguesa. Esse fato chamou a atenção dos jornais da época e fez com que ele começasse a dar aulas em cursinhos na capital paulista. Trabalhar ao mesmo tempo na escola e na mesa de edição deu a Jiro um olhar aguçado sobre o comportamento e as demandas do público jovem, o que se tornaria o grande diferencial de sua carreira.
Como uma reforma educacional mudou tudo
A grande virada na jornada de Jiro Takahashi e na própria história dos livros no Brasil aconteceu em 1973, com a concepção da Coleção Vaga-Lume. O projeto surgiu como uma resposta direta às transformações estruturais provocadas pela reforma de ensino da Lei n.º 5.692 de 1971, implementada durante o regime militar. A legislação expandiu o ensino obrigatório de quatro para oito anos, enchendo os antigos ginásios de adolescentes que não encontravam conexão com os clássicos do século XIX que as escolas costumavam indicar. Como as novas regras também exigiam livros de autores brasileiros, a Editora Ática percebeu haver ali uma grande oportunidade.
A inspiração veio quando Jiro viu o sucesso do livro O Gênio do Crime, de João Carlos Marinho, publicado pela Brasiliense. Ele percebeu que as crianças adoravam a história justamente porque ela era divertida e fugia do formato politicamente correto que os professores da época defendiam.
Sob a orientação do fundador da Ática, Anderson Fernandes Dias, Takahashi manteve sua rotina como professor enquanto editava as obras. Essa imersão prática permitiu o desenvolvimento de métodos inovadores de prospecção e validação de textos. O grande segredo, porém, estava nos cerca de 80 divulgadores que viajavam pelas escolas de todo o território nacional. A Ática premiava quem encontrasse bons autores regionais, o que ajudou a descobrir autores como o potiguar Homero Homem e seu aclamado Cabra das Rocas.
Antes de irem para a impressão, os originais passavam por testes com cerca de 3 mil estudantes para medir o tempo de leitura. Se os jovens devorassem o texto rapidamente, era sinal de que o livro seria um sucesso. Outra grande ideia foi a criação do Suplemento de Trabalho, um encarte com charadas, palavras-cruzadas e propostas de resumos para ajudar os alunos a entenderem a história de um jeito leve.
Os números desse projeto impressionam até hoje. O primeiro título da coleção, A Ilha Perdida, de Maria José Dupré, vendeu entre 5 e 7 milhões de cópias ao longo de suas edições. O sucesso foi tanto que as primeiras tiragens dos livros saltaram de 60 mil exemplares nos anos 1970 para 120 mil nos anos 1980, impulsionadas principalmente pelos livros de mistérios urbanos do paulistano Marcos Rey, como O Mistério do Cinco Estrelas. Estima-se que, ao todo, os livros de Marcos Rey incluídos na coleção venderam mais de 6 milhões de cópias.

O gênese da coleção “Para gostar de ler”
Segundo conta o editor em entrevista para o Portal da Crônica Brasileira, no meio da década de 70, a Ática já era uma grande editora didática e buscava caminhos para começar a publicar também livros de literatura. A empresa já contava com uma rede de divulgação muito forte e estruturada nas escolas. Por isso, a ideia era lançar livros de literatura que pudessem circular facilmente nas salas de aula. A equipe da editora sempre teve o desejo de trabalhar com crônicas, já que os cronistas mais famosos do país estavam muito presentes nos livros didáticos de português, que vendiam centenas de milhares de exemplares. No entanto, como a editora ainda não publicava livros de crônicas voltados para as livrarias comuns, eles não faziam ideia de como era a vendagem desse tipo de texto por conta própria.
A grande oportunidade para mudar esse cenário surgiu em 1977, a partir de um telefonema do poeta Affonso Romano de Sant’Anna, contando que Rubem Braga andava frustrado porque seus livros estavam vendendo pouco. Jiro imaginava justamente o contrário e, por achar Rubem Braga importante demais, não tinha sequer pensado em procurá-lo para a Ática. Mas, incentivado por Affonso, o editor foi conversar com Rubem Braga e com Fernando Sabino. A partir do diálogo com os dois, eles decidiram somar mais dois nomes de peso ao projeto: Carlos Drummond de Andrade e Paulo Mendes Campos. Juntos, esses quatro cronistas estavam presentes em praticamente todos os livros de português do Ensino Fundamental II da época. Foi assim que nasceu a coleção Para Gostar de Ler.
Nos primeiros volumes, que reuniam os textos desses quatro mestres, um aviso categórico na abertura desarmava os estudantes logo de cara: “Este livro não tem intenção de ensinar coisa alguma a você”, dizia. “Nem gramática, nem redação, nem qualquer matéria incluída no programa da sua série. Nós só queremos convidar você a descobrir um mundo maravilhoso dentro do mundo em que você vive. Este mundo é a leitura.”
O formato deu tão certo que a coleção cresceu e passou a incluir contos e poesias de autores como Clarice Lispector.
Em paralelo, Jiro criou a coleção Nosso Tempo, voltada para estudantes mais velhos e universitários. O primeiro lançamento foi O Pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião, precursor do realismo fantástico no Brasil. O livro passou das 100 mil cópias e até hoje é muito usado em vestibulares.
Após encerrar seu ciclo na liderança editorial da Ática, Jiro Takahashi expandiu sua atuação empresarial ao fundar, em 1990, a Editora Estação Liberdade, ao lado de Maria Antônia Lobo, desligando-se da sociedade seis anos depois. Durante sua carreira, ele também passou por outras grandes casas editoriais, como a Nova Fronteira, Rocco, Ediouro e Prumo, construindo parcerias com nomes importantes do mercado. Atualmente, Jiro Takahashi trabalha como diretor-executivo na editora Nova Aguilar, selo integrante do Grupo Editorial Global, além de atuar no ambiente acadêmico como professor do Centro Universitário FAM e consultor na Universidade do Livro, vinculada à Fundação Editora Unesp, onde continua a transmitir a experiência de quem ajudou a desenhar a identidade leitora do Brasil moderno.
Fontes: BBC, UOL, Folha, Cronica Brasileira e PublishNews
