Depois de transformar uma loja de móveis em palco de terror em Horrorstör, Grady Hendrix foi atrás de outro cenário improvável para assombrar: o mundo decadente do heavy metal underground dos anos 1990. We Sold Our Souls é, ao mesmo tempo, uma história de pacto demoníaco clássica e uma reflexão amarga sobre o que a ambição é capaz de custar, literalmente.
Do que se trata
Kris era guitarrista da banda de heavy metal Dürt Würk nos anos 90. Quando o vocalista Terry Hunt abandona o grupo para seguir carreira solo e estoura como estrela internacional, Kris segue em frente, ou tenta. Décadas depois, presa num emprego sem perspectivas na recepção de um hotel Best Western, ela descobre a verdade por trás da ascensão meteórica de Terry: ele vendeu a alma de todos os ex-colegas de banda para garantir seu próprio sucesso, sem que ninguém soubesse. Decidida a recuperar o que foi roubado dela, Kris embarca numa viagem sombria até Las Vegas para confrontar o homem que a traiu e o próprio destino que ele vendeu junto com a alma dela.
Pontos fortes
O grande acerto do livro é usar o pacto com o diabo como metáfora para algo bem mais reconhecível: o preço que a indústria cultural cobra de quem busca sucesso. Hendrix constrói uma crítica afiada ao capitalismo da fama, ao esvaziamento identitário que vem com a monetização da arte e à forma como pequenas rendições como um compromisso aqui, uma concessão ali, vão corroendo quem a pessoa é, dia após dia. Kris, como protagonista, é o oposto do clichê de heroína badass: ela é cansada, ressentida e genuinamente humana, o que torna sua jornada de redenção muito mais convincente.
A ambientação no universo do metal também rende um dos pontos altos do livro, Hendrix claramente domina a cultura das bandas underground, dos festivais decadentes e da estética symbólica do gênero, e usa isso para construir um horror visualmente rico, cheio de imagens perturbadoras que remetem a capas de álbum e shows amadores em porões.
Pontos fracos
O ritmo é mais lento do que outros títulos de Hendrix, especialmente no primeiro terço, enquanto o passado da banda é reconstruído em flashbacks. Para quem busca o tom mais ágil e irônico de Horrorstör ou O Guia da Confraria Feminina do Sul para Matar Vampiros, essa pegada mais melancólica pode surpreender e We Sold Our Souls é, no fundo, um livro mais triste do que engraçado.
Vale a pena ler?
Sim, principalmente para quem curte terror com peso emocional real e não se importa com um ritmo mais contemplativo em troca de uma crítica social afiada.