Série premiada do Disney+ divide a crítica ao tratar um romance incômodo como ponto de ruptura entre mãe, filha e melhor amigo.
Uma amizade de mais de duas décadas pode sobreviver a quase tudo: casamentos fracassados, crises de meia-idade, decisões ruins e comentários atravessados. Mas talvez não sobreviva quando um dos lados começa a namorar a filha adulta do outro. É a partir dessa situação desconfortável que Alice e Steve constrói sua comédia de vingança, constrangimento e colapso emocional.
A série britânica, lançada em 8 de junho no Disney+, tem seis episódios de aproximadamente 30 minutos. Criada e escrita por Sophie Goodhart, roteirista associada a produções como Sex Education e Rivais, a obra é dirigida por Tom Kingsley, conhecido por trabalhos em séries como Improvisação Perigosa e Fantasmas. A produção é da Clerkenwell Films, empresa por trás de títulos como Bebê Rena e The End of the F*ing World, duas séries que também fizeram do desconforto, da inadequação social e da instabilidade emocional parte importante de sua identidade narrativa.
O ponto de partida é simples, mas explosivo. Alice, vivida por Nicola Walker, descobre que Steve, seu melhor amigo há mais de 25 anos, começou um relacionamento com Izzy, sua filha de 26 anos. Walker é um nome muito conhecido da televisão britânica por séries como Unforgotten, em que interpretou a detetive Cassie Stuart, e The Split, drama jurídico centrado em relações familiares e divórcios. Aqui, porém, ela aparece em um registro mais cômico e furioso, interpretando uma mulher que se sente traída por duas pessoas que ocupavam lugares centrais em sua vida.
Steve é interpretado por Jemaine Clement, ator, músico e comediante neozelandês conhecido pela série Flight of the Conchords e pela comédia vampiresca O que Fazemos nas Sombras. Na trama, ele é o melhor amigo de Alice, um homem divorciado, confuso e disposto a defender sua relação com Izzy, mesmo quando isso transforma uma amizade íntima em uma guerra aberta.
Izzy, a filha de Alice, é vivida por Yali Topol Margalith, atriz que apareceu em produções como O Tatuador de Auschwitz e Manual de Assassinato para Boas Garotas. A personagem não é tratada apenas como objeto de disputa entre Alice e Steve, embora a premissa da série possa sugerir isso à primeira vista. Izzy é adulta, tem 26 anos e retorna à casa da mãe em um momento de reorganização pessoal. O conflito nasce daí: a série tenta trabalhar a tensão entre a autonomia de uma filha adulta e a dificuldade da mãe de aceitar uma escolha que parece atravessar limites íntimos demais.
Também faz parte desse núcleo Daniel, marido de Alice, interpretado por Joel Fry, que observa a escalada da esposa com uma mistura de paciência, desconforto e exaustão. À medida que Alice tenta destruir o romance entre Steve e Izzy, o casamento dela também começa a sentir o impacto da obsessão, revelando que a crise não envolve apenas a amizade rompida, mas a maneira como cada personagem lida com amor, posse, envelhecimento e orgulho.

Não é uma comédia romântica tradicional
A própria divulgação da Disney descreve Alice e Steve como uma wrong-com, uma espécie de trocadilho com rom-com, abreviação em inglês para comédia romântica. A expressão pode ser entendida como uma “comédia errada” ou uma “anti-comédia romântica”, porque parte de um romance que não é celebrado pela narrativa. Em vez de acompanhar duas pessoas superando obstáculos para ficarem juntas, a série observa o estrago causado por uma relação que parece deslocada, inconveniente e emocionalmente explosiva para todos ao redor.
Esse é o primeiro diferencial da produção. Alice e Steve não quer ser apenas uma história sobre diferença de idade, embora esse elemento esteja no centro do incômodo. O romance entre Steve e Izzy incomoda porque ele é um homem na casa dos 50 anos e ela tem 26. Mas a série parece interessada em algo ainda mais específico: Steve não é apenas um homem mais velho; ele é o melhor amigo da mãe dela. A traição sentida por Alice não nasce só do relacionamento em si, mas do fato de que Steve fazia parte de sua intimidade, de sua história e de sua estrutura afetiva.
Ao transformar esse conflito em comédia, a série entra em uma zona arriscada. Há uma linha tênue entre rir do absurdo da situação e minimizar seu peso emocional. É nessa fronteira que a produção dividiu parte da crítica. Para alguns veículos, Alice e Steve encontra força na coragem de encarar um tema desconfortável sem tentar suavizá-lo. Para outros, o tom oscila demais entre comédia, vingança, drama familiar e romance incômodo, deixando a sensação de que a série nem sempre sabe qual história quer contar.
Ainda assim, a proposta é observar o que acontece quando pessoas adultas se comportam de maneira infantil diante do medo de perder espaço na vida de quem amam. Alice reage como alguém que se sente substituída, traída e humilhada. Steve, por sua vez, tenta se convencer de que sua paixão por Izzy é legítima o bastante para justificar a destruição de uma amizade. Izzy precisa lidar com o peso de ser tratada como escolha, ameaça e prova de autonomia ao mesmo tempo.
Nicola Walker sustenta a fúria de Alice
Mesmo nas críticas menos entusiasmadas, há um ponto recorrente: Nicola Walker é uma das grandes forças de Alice e Steve. A atriz constrói Alice como uma personagem tomada por uma raiva que, ao mesmo tempo, parece absurda e compreensível. Ela não tenta tornar a protagonista simpática o tempo todo. Pelo contrário, parte do interesse está em vê-la atravessar momentos de crueldade, autoengano e exposição emocional sem que a série precise pedir desculpas por ela.
Alice é uma personagem difícil porque sua dor é legítima, mas suas atitudes nem sempre são. Esse tipo de figura exige uma atuação capaz de sustentar contradições. Alice não pode parecer apenas vilã e nem apenas vítima. Walker encontra um ponto intermediário: sua Alice pode ser engraçada, devastada, infantil, agressiva, inteligente e insuportável na mesma sequência.
A personagem também carrega um elemento pouco explorado em muitas comédias românticas tradicionais, que é a amizade como paixão. Não no sentido sexual, mas como vínculo intenso, possessivo e estruturante. A série sugere que, para Alice, perder Steve talvez seja tão desestabilizador quanto enfrentar uma crise conjugal. Isso torna sua reação menos simples do que uma mãe contrariada. Há ciúme, sim, mas há também luto por uma forma de intimidade que parecia garantida.
Nesse sentido, Alice e Steve funciona melhor quando observa o que não é dito. A raiva de Alice contra Izzy e Steve também revela inseguranças sobre envelhecimento, maternidade e relevância. A filha adulta fazendo uma escolha própria obriga Alice a perceber que não controla mais a vida dela. O melhor amigo se apaixonando por Izzy obriga Alice a encarar que sua posição na vida de Steve não era tão intocável quanto parecia.
Canneseries, recepção crítica e uma série que não nasceu discreta
Antes mesmo de chegar ao streaming, Alice e Steve já havia chamado atenção no circuito internacional de televisão. A série teve première mundial na nona edição do Canneseries, festival internacional dedicado a séries realizado em Cannes, na França. O evento funciona como uma vitrine para produções televisivas de diferentes países, reunindo estreias, competições, encontros de mercado e exibições para imprensa e público especializado.
Na edição de 2026, Alice e Steve saiu do festival com três prêmios: Melhor Série, Prêmio Especial de Interpretação para o elenco e Prêmio do Júri Estudantil. Esse reconhecimento ajudou a criar uma expectativa em torno da produção por se tratar de uma comédia britânica de seis episódios com uma premissa desconfortável e um elenco forte.
Depois da estreia no streaming, a recepção ficou mais dividida. No Rotten Tomatoes, a primeira temporada aparece com avaliação positiva da crítica, enquanto o Metacritic registra uma média considerada “geralmente favorável”. Esses agregadores não substituem uma análise crítica, mas ajudam a medir a temperatura geral da recepção. O que aparece ali é uma série mais bem recebida do que rejeitada, embora longe de ser unanimidade.
Entre os textos críticos, o contraste é evidente. Veículos como Los Angeles Times, Decider, Variety e The Times destacaram a força do elenco, a escrita afiada e o modo como a série explora relações emocionalmente bagunçadas. O Decider, por exemplo, ressaltou que a tensão entre Alice e Steve se torna mais engraçada à medida que cresce, porque a amizade entre os dois é bem estabelecida antes da ruptura. Já o Metacritic reúne avaliações que apontam Nicola Walker como um dos principais motivos para a série funcionar, mesmo quando há ressalvas sobre o tom.
Por outro lado, críticas como a do Collider e do The Guardian foram mais duras. O Collider apontou confusão tonal, sugerindo que a série alterna com dificuldade entre comédia de vingança, drama familiar e romance incômodo. O Guardian foi ainda mais severo ao considerar que a obra não convence na forma como lida com o relacionamento entre Steve e Izzy. Essa divergência mostra que o principal risco da série é também sua principal identidade: Alice e Steve depende de o espectador aceitar uma premissa espinhosa e acompanhar personagens que nem sempre agem de forma agradável.

O incômodo é defeito ou proposta?
A pergunta mais interessante talvez não seja se Alice e Steve é confortável de assistir. Ela não parece querer ser. O ponto é entender se o desconforto funciona como linguagem ou se atrapalha a narrativa. Em alguns momentos, a série parece consciente do terreno perigoso que escolheu. Em outros, pode dar a impressão de não aprofundar todas as implicações éticas de sua premissa com a mesma força com que explora o caos cômico.
É aí que o debate fica mais produtivo. A série não trata uma história convencional com um acabamento estranho. Ela nasce estranha. Seu conflito central envolve uma violação de confiança que atinge todas as vunerabilidades dos envolvidos. A comédia vem da reação desproporcional dos personagens, mas a dor por trás dela é real. Por isso, reduzir Alice e Steve a uma comédia romântica sobre diferença de idade seria pouco. Também não basta chamá-la de drama familiar. Ela opera no meio do caminho, como uma obra interessada em mostrar adultos perdendo a pose.
A série cresce quando aceita essa sujeira. Sua melhor qualidade está em não transformar sentimentos ruins em lição edificante. Ciúme, vergonha, raiva, desejo e orgulho aparecem como forças desorganizadas, capazes de tornar pessoas maduras tão impulsivas quanto adolescentes. Nesse sentido, Alice e Steve se torna uma história sobre o que acontece quando as pessoas confundem amor com posse e intimidade com direito adquirido.
Uma comédia para quem aceita personagens difíceis
Para o público brasileiro, Alice e Steve pode funcionar como uma boa porta de entrada para uma tradição de comédias britânicas mais desconfortáveis, nas quais o humor não nasce apenas da piada, mas da inadequação social. A série tem elementos de drama familiar, comédia de vingança e anti-romance, mas seu centro está no constrangimento. É uma obra sobre gente adulta tomando decisões ruins e tentando justificar o injustificável.
A presença de Nicola Walker e Jemaine Clement ajuda a sustentar esse equilíbrio. Walker dá densidade emocional a uma personagem que poderia virar apenas uma mãe histérica, enquanto Clement transforma Steve em uma figura ao mesmo tempo patética, engraçada e irritantemente vulnerável. Yali Topol Margalith e Joel Fry completam o núcleo ao mostrar que o conflito não pertence apenas aos dois amigos, mas a toda uma família reorganizada pela escolha deles.
O resultado é uma série imperfeita, mas difícil de ignorar. Alice e Steve não é uma produção feita para agradar todo mundo. A premissa afasta parte do público, o tom incomoda e algumas críticas apontam que a narrativa nem sempre resolve bem tudo o que levanta. Ainda assim, há algo de corajoso em uma comédia que escolhe olhar para o amor não como território de redenção, mas como campo de disputa e ressentimento.
Alice e Steve não pergunta apenas se um relacionamento pode dar certo. Ela pergunta o que alguém está disposto a destruir para provar que tem razão. E, nessa guerra entre amizade e família, ninguém sai ileso.
Fontes: Canneseries, Tribeca, Rotten Tomatoes, Metacritic, The Guardian, Decider, Variety e Collider
