Quem Ama Cuida exibiu, no capítulo do último sábado (11), uma das sequências mais delicadas da novela até agora. Sem apostar em grandes confrontos ou discursos expositivos, a trama colocou em evidência uma realidade que ainda faz parte da vida de muitos jovens LGBTQIAPN+: o preconceito que nasce dentro de casa e, muitas vezes, se esconde atrás da ideia de cuidado.
Acredito que você caro leitor e cara leitora que acompanha a saga de Adriana Brandão saiba de qual cena estamos falando. Otoniel (Tony Ramos) encontra um livro sobre uma relação homoafetiva que Maurício, o Mau Mau (João Victor Gonçalves), lia escondido. Depois de relembrar as tragédias que marcaram a família desde o início da trama, ele reage com indignação: “Só me faltava isso. Eu tenho um neto gay?, equiparando o desejo sexual de seu neto à prisão injusta de Adriana e à enchente lá dos primeiros capítulos.
Logo em seguida, Adriana (Letícia Colin) interrompe o avô e defende o irmão.
“Em primeiro lugar, o livro não define a orientação sexual de alguém. Em segundo, o desejo do Maurício ou de qualquer pessoa não diz respeito à ninguém, muito menos a você, meu avô.”
Na sequência, a novela mostra o impacto daquele confronto em uma “simples” porém significativa cena de um banho, onde vemos Maurício desabar em choro sozinho, antes de sua irmã o acolher.
“IMPOSSÍVEL NÃO SE EMOCIONAR COM ESSA DE QUEM AMA CUIDA. só quem já chorou, precisou se diminuir, reprimir seus sentimentos e até esconder seus desejos por conta da família, sociedade, religião e tantas outras coisas, sabem o que o Mau Mau vive em #QuemAmaCuida” – disse um usuário do X (antigo Twitter) sobre esta cena
“mau mau estar nu falando com a adriana é uma construção muito linda pra mostrar o quanto ele tá vulnerável e confia em ficar assim com a adriana”- disse outro espectador

Quem Ama Acolhe
No entanto, a força dessa sequência não está apenas na discussão entre avô e neto e no acolhimento de Adriana. Antes mesmo de Otoniel questionar a orientação sexual de Maurício, a novela já havia revelado algo ainda mais significativo: o rapaz sentia a necessidade de esconder um livro dentro da própria casa.
Esse detalhe transforma completamente a cena. Afinal, Maurício não escondia apenas uma leitura; ele escondia a possibilidade de ser julgado. O medo antecedia qualquer conversa ou descoberta. A simples escolha de ler um livro sobre uma relação homoafetiva já parecia suficiente para despertar receio.
Assim, a novela retrata uma violência que costuma passar despercebida. Quando um jovem acredita que precisa esconder um livro, uma música, uma roupa ou qualquer aspecto da própria personalidade para evitar críticas, a liberdade já foi comprometida muito antes de qualquer agressão explícita.
Além disso, o conflito não surge de forma isolada. Desde os primeiros capítulos, Otoniel demonstra carinho pelo neto, mas também tenta controlar a maneira como ele fala, gesticula e se comporta. Repetidamente, pede que Maurício “fale direito” e “abaixe suas asas”, como se corrigir seus trejeitos fosse uma forma de protegê-lo.
É justamente nesse ponto que a novela constrói sua principal reflexão. Em vez de retratar a homofobia apenas por meio de ofensas ou rejeições diretas, a trama evidencia as microviolências que se repetem dentro de muitas famílias. Comentários aparentemente inofensivos, cobranças constantes e expectativas sobre como um rapaz deve agir também comunicam que existe algo nele que precisa mudar para ser aceito.

Ao mesmo tempo, a novela evita transformar Otoniel em um vilão. Pelo contrário, o personagem acredita sinceramente que está cuidando do neto. Em sua visão, corrigir Maurício significa prepará-lo para enfrentar um mundo preconceituoso. No entanto, esse cuidado esconde uma contradição: ele parte da ideia de que o rapaz precisa modificar sua forma de existir para merecer aceitação.
Outro acerto de Quem Ama Cuida está na escolha de quem protagoniza esse conflito. A novela não coloca a homofobia na fala de um grande vilão ou de um personagem conhecido pela intolerância. Ela surge justamente em Otoniel, um dos personagens mais queridos da trama, um avô que ama os netos e que, ao longo da história, demonstra inúmeras vezes seu desejo de proteger a família. Se o preconceito viesse de Pilar, de Tom ou de qualquer outro personagem já associado a atitudes condenáveis, a reação do público provavelmente seria a esperada: indignação diante de um vilão. Com Otoniel, porém, a situação ganha outra dimensão.
Por isso, a sequência convida o público a refletir sobre um comportamento que ainda se repete em muitas famílias. Existe uma diferença profunda entre proteger alguém e tentar moldá-lo. O cuidado acolhe, fortalece e respeita. Já o controle limita, silencia e impõe condições.
No fim das contas, Quem Ama Cuida lembra que a homofobia nem sempre chega por meio da agressividade. Muitas vezes, ela aparece em pequenas correções, olhares de reprovação e discursos que se apresentam como preocupação. No entanto, quando o amor exige silêncio, faz alguém esconder um livro ou vigiar a própria maneira de falar, esse cuidado deixa de acolher. Em seu lugar, surge um desgosto disfarçado de afeto, capaz de ferir justamente quem mais precisava encontrar, dentro de casa, um espaço de liberdade.
