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Oasis: Don’t Look Back in Anger transforma resentimento e perdão em espetáculo

Existe uma ironia no fato de Oasis: Don’t Look Back in Anger ser um filme sobre reconciliação produzido em torno de uma banda cuja própria história parece incapaz de existir sem conflito. Durante décadas, Liam e Noel Gallagher transformaram a relação entre irmãos em parte indissociável do mito do Oasis. A música era gigantesca, mas as brigas também eram. O documentário dirigido por Dylan Southern e Will Lovelace, com criação e roteiro de Steven Knight, parte justamente do acontecimento que parecia improvável demais para ser verdade: depois de mais de 15 anos separados, os Gallagher voltaram a dividir um palco na turnê Oasis Live ’25.

A questão é que Don’t Look Back in Anger não está particularmente interessado em descobrir por que eles voltaram. Seu interesse está em mostrar o que significa o fato de eles terem voltado. E essa escolha determina praticamente tudo o que funciona, e tudo o que limita o documentário.

A estrutura do filme prepara o espectador, inicialmente, para acompanhar uma espécie de bomba-relógio. A ruptura de 2009 é apresentada como o ponto de partida: Oasis chega ao fim depois do conflito entre os irmãos em Paris, e a história salta então para os ensaios de 2025, quando a banda precisa descobrir se aquela reconciliação realmente será possível.

É uma premissa naturalmente cinematográfica. O problema é que o documentário rapidamente deixa claro que não pretende explorar o conflito com a mesma intensidade com que explora sua consequência. Liam e Noel aparecem muito mais interessados em seguir em frente do que em revisitar os motivos que os mantiveram afastados durante tantos anos.

Isso poderia ser uma fraqueza decisiva. Afinal, um documentário sobre a reunião do Oasis parece ter acesso a uma das histórias mais fascinantes possíveis: como dois irmãos que passaram anos trocando farpas conseguiram sentar na mesma sala e decidir que era hora de voltar? O filme, porém, não oferece uma resposta realmente satisfatória.

Há entrevistas, ensaios e momentos de proximidade, mas a intimidade prometida pela premissa é cuidadosamente controlada. Até mesmo o aguardado encontro dos irmãos em entrevista conjunta, o primeiro em mais de duas décadas, funciona mais como confirmação de que a reconciliação aconteceu do que como investigação sobre ela. É aí que Don’t Look Back in Anger revela sua verdadeira natureza: ele não quer desmontar o mito do Oasis. Quer preservá-lo.

E talvez seja justamente por isso que ele funciona tão bem. O Oasis de 2025 não é apresentado apenas como uma banda que voltou a tocar. É apresentado como uma memória coletiva que ganhou a oportunidade de acontecer novamente. A diferença é enorme.

A reunião aconteceu depois de uma geração inteira ter crescido, envelhecido e construído suas próprias vidas. Muitos dos fãs que estiveram nos shows originais levaram seus filhos aos novos concertos. Outros conheceram Oasis justamente durante os anos em que a banda não existia. A turnê, portanto, não representa simplesmente um retorno aos anos 1990: ela permite que pessoas de épocas diferentes compartilhem a mesma experiência.

É nesse aspecto que o filme encontra sua melhor ideia. Os Gallagher podem ser os personagens mais famosos da história, mas o documentário percebe que o fenômeno Oasis pertence também ao público.

As histórias individuais de fãs, os estádios lotados e a maneira como determinadas músicas assumiram novos significados ao longo dos anos ajudam a construir uma percepção de que aquelas canções deixaram de pertencer exclusivamente aos seus autores. Don’t Look Back in Anger, em particular, já havia adquirido uma dimensão que ultrapassava a própria banda, especialmente depois de ser associada ao luto coletivo após o atentado de Manchester em 2017, durante um show da Ariana Grande.

O filme entende isso muito bem: Oasis não é somente uma discografia. É uma experiência compartilhada. E quando as câmeras deixam os Gallagher e observam o público depois de um show, essa ideia ganha uma força que nenhuma entrevista poderia produzir.

Mas existe uma linha tênue entre registrar uma emoção e fabricar uma emoção. Don’t Look Back in Anger frequentemente se aproxima demais dessa segunda possibilidade.

Uma das escolhas mais questionáveis é justamente a tentativa de transformar a reconciliação dos Gallagher em uma espécie de parábola espiritual. O documentário utiliza, por exemplo, a participação de um padre que associa a relação dos irmãos a uma passagem bíblica sobre perdão. A ideia é coerente com o tema do filme, mas também deixa evidente o quanto algumas dessas situações parecem construídas para reforçar uma interpretação que o documentário já decidiu oferecer ao espectador.

O problema não é ser sentimental. O problema é que Oasis nunca precisou que alguém explicasse por que sua música provoca emoção. As próprias músicas já fazem isso.

Quando o filme coloca uma camada de discursos sobre redenção, esperança, reconciliação e comunidade sobre imagens de milhares de pessoas cantando juntas, existe o risco de transformar algo genuinamente poderoso em uma mensagem corporativa sobre união.

E isso é particularmente estranho quando se trata do Oasis. A banda sempre foi marcada por uma combinação muito particular de arrogância, humor, espontaneidade e desordem. O documentário é muito mais polido do que a história que está contando.

Há, porém, uma consequência positiva dessa abordagem excessivamente controlada: ela permite enxergar algo que talvez seja mais interessante do que uma nova briga entre Liam e Noel. O Oasis de 2025 não é o mesmo Oasis dos anos 1990.

Liam aparece mais disciplinado, profissional e consciente da dimensão do projeto. Noel, por sua vez, surge mais reflexivo e menos interessado em transformar cada interação em uma disputa. A química entre os dois continua existindo, mas agora existe também uma consciência muito clara de que ambos envelheceram.

Isso muda a própria natureza do conflito. O Oasis original parecia viver permanentemente à beira da implosão. O novo Oasis parece entender que a oportunidade de voltar a fazer aquilo talvez seja mais importante do que continuar alimentando as mesmas guerras.

O documentário poderia explorar essa transformação com muito mais profundidade. Em vez disso, frequentemente prefere simplesmente celebrar o resultado. Ainda assim, há algo poderoso nessa imagem: dois homens que passaram boa parte da vida transformando a própria relação em espetáculo finalmente percebem que não precisam mais fazê-lo. É nos shows que o documentário finalmente encontra uma linguagem que dispensa explicações.

A produção utiliza uma estrutura visual gigantesca, com diferentes câmeras registrando palco e público, e transforma os concertos em grandes acontecimentos audiovisuais. Ainda assim, observa-se que a variedade técnica nem sempre se converte em uma montagem igualmente inventiva, especialmente quando várias apresentações começam a adquirir uma aparência semelhante.

Don’t Look Back in Anger não reinventa o filme-concerto. E provavelmente não precisava reinventar. Porque existe uma diferença fundamental entre assistir a uma apresentação do Oasis e observar milhares de pessoas assistindo ao Oasis. O primeiro é entretenimento. O segundo é o assunto do filme.

A câmera frequentemente encontra seu melhor material no rosto de quem está na plateia. Pessoas chorando, sorrindo, abraçando desconhecidos ou simplesmente paradas diante do palco ajudam a explicar por que uma banda que não lança um álbum de estúdio desde 2008 ainda consegue provocar tamanha mobilização. É por isso que o filme funciona mesmo quando sua investigação jornalística é limitada. A música fornece a evidência que as entrevistas não conseguem.

Talvez sua maior fragilidade seja justamente aquilo que ele deliberadamente evita. Não há interesse significativo em discutir o dinheiro envolvido na reunião. Não existe uma investigação aprofundada sobre os preços dos ingressos. As circunstâncias concretas que tornaram possível a reconciliação permanecem relativamente nebulosas. E a própria relação entre os Gallagher é apresentada de maneira muito mais conciliatória do que conflituosa.

Isso faz sentido comercialmente. Também faz sentido dentro da proposta do filme. Mas limita seu valor enquanto documentário. A produção tem acesso privilegiado a um dos maiores acontecimentos da história recente do rock britânico e, em muitos momentos, escolhe não olhar para os cantos mais desconfortáveis dele.

É justamente essa contradição que impede Don’t Look Back in Anger de ser um retrato definitivo do Oasis. Ele não é Supersonic atualizado. Não é uma investigação sobre os Gallagher. E tampouco é uma desconstrução do mito. É, essencialmente, um registro daquilo que acontece quando um mito volta à vida. Oasis: Don’t Look Back in Anger estreia nos cinemas nesta quinta-feira, dia 10 de Setembro.

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