Eu tenho um carinho bastante questionável por livros que fazem qualquer pessoa minimamente equilibrada olhar para a capa e decidir que existem maneiras melhores de passar o tempo. Quanto mais grotesca a premissa, maiores as chances de eu querer descobrir até onde o autor está disposto a levá-la. Naturalmente, um romance chamado Tapeworm, com a promessa de uma mistura entre Um Drink no Inferno e O Enigma de Outro Mundo, parecia uma escolha perfeita.
Publicado em inglês, Tapeworm marca a estreia de A.P. Thayer e apresenta uma interpretação particularmente repulsiva dos vampiros. Esqueça criaturas elegantes, castelos antigos e figuras misteriosas que transformam a imortalidade em uma espécie de inconveniente romântico. Aqui, o vampirismo assume uma forma orgânica com vermes parasitas.
O mais interessante, porém, é que Thayer não constrói sua história apenas em torno do grotesco. Por trás de toda a violência física existe um livro sobre solidão, ressentimento, desejo e a dificuldade de aceitar que algumas relações já terminaram, mesmo quando continuamos tentando preservá-las.
A narrativa começa com um prólogo onde Victor e sua esposa, Trish, atravessam os momentos finais de um casamento em ruínas. Uma discussão diante dos amigos expõe tensões que provavelmente já existiam havia muito tempo, mas a situação toma um rumo ainda mais desagradável quando Trish é mordida e infectada por algo desconhecido. O episódio estabelece a ameaça que atravessará o restante da história, embora o autor não tenha qualquer pressa em revelar exatamente o que aconteceu.
Um ano depois, Victor retorna ao deserto da Califórnia, para passar alguns dias com seu antigo grupo de amigos. Agora divorciado, ele tenta recuperar alguma sensação de normalidade, embora esteja bastante evidente que ninguém conseguiu atravessar aquele período sem carregar algum ressentimento.
O que deveria ser uma viagem para reencontrar velhos amigos acaba se transformando em uma experiência desconfortável antes mesmo que qualquer criatura apareça. Essa escolha narrativa é um dos maiores acertos de Tapeworm. Thayer dedica boa parte do romance à construção das relações entre os personagens, permitindo que conheçamos Victor através de suas lembranças, frustrações e tentativas nem sempre bem-sucedidas de compreender o próprio casamento.
Victor é um protagonista interessante justamente porque não foi escrito para ser particularmente admirável. Ele está magoado, solitário e frequentemente perdido em pensamentos sobre aquilo que poderia ter feito de maneira diferente. Em determinados momentos, sua necessidade de conexão parece genuína; em outros, torna-se difícil ignorar o quanto ele ainda está preso à versão da própria vida que gostaria de ter vivido.
O horror corporal em Tapeworm
O horror corporal, ou body horror, sempre funcionou melhor quando a transformação física representa alguma forma de perda de controle. O corpo deixa de ser um espaço familiar e passa a agir segundo regras que não compreendemos, frequentemente contra a nossa vontade. Em Tapeworm, A.P. Thayer explora essa ideia através de uma ameaça parasitária que transforma o vampirismo em algo muito mais próximo de uma infestação biológica do que de uma maldição sobrenatural tradicional.
Vampiros tradicionais podem ser sedutores, inteligentes e até mesmo simpáticos, dependendo da história. Parasitas, por outro lado, dificilmente despertam qualquer sentimento que não envolva repulsa imediata. Thayer aproveita essa reação instintiva para construir algumas das imagens mais desagradáveis do romance.
O romance também trabalha muito bem com o cenário. O deserto californiano oferece uma sensação peculiar de isolamento, diferente daquela encontrada em histórias ambientadas em florestas fechadas ou casas abandonadas. Existe espaço por todos os lados, mas isso não significa liberdade.
Quando a violência finalmente assume o controle, o contraste com a primeira metade do livro torna tudo ainda mais eficiente.
Sexualidade, desejo e a necessidade de pertencer
Outro aspecto que diferencia Tapeworm de muitos romances contemporâneos de horror corporal é a naturalidade com que A.P. Thayer incorpora sexualidade e desejo à narrativa. A presença de personagens e relações queer não funciona como uma tentativa artificial de tornar a história mais provocativa. Esses elementos fazem parte da maneira como Victor compreende suas necessidades emocionais e tenta encontrar intimidade depois do fracasso de seu casamento.
Existe uma tensão sexual constante em determinadas interações, e Thayer parece bastante confortável em explorar a proximidade entre atração e repulsa. É uma combinação especialmente interessante dentro de uma história em que os corpos estão sujeitos a transformações monstruosas e a própria ideia de contato físico passa a carregar consequências potencialmente terríveis.
Uma narrativa lenta que termina em completo caos
Embora Tapeworm não seja um livro considerado “grande”, A.P. Thayer dedica uma parcela considerável de suas páginas ao desenvolvimento psicológico de Victor e à dinâmica entre os amigos. Quem espera encontrar uma sucessão ininterrupta de ataques e transformações monstruosas desde o primeiro capítulo provavelmente precisará ajustar as expectativas.
O horror aparece inicialmente de maneira fragmentada, através de lembranças, acontecimentos inexplicáveis e pequenos sinais de que alguma coisa está se desenvolvendo sob a superfície daquela viagem.
O contraste com o último ato também é bastante evidente. Depois de uma preparação paciente, o romance acelera e mergulha em uma sucessão de acontecimentos violentos, revelações e transformações. A mudança é proposital e combina com a proposta de uma história que começa como um drama sobre relacionamentos e termina em um pesadelo, embora algumas passagens pudessem se beneficiar de um desenvolvimento mais equilibrado.
Mas quando Thayer finalmente decide abandonar qualquer contenção, fica claro que a espera teve uma finalidade.
As cenas de horror corporal são imaginativas e desagradáveis na medida certa para quem aprecia o gênero. Existe violência gráfica, mas ela não parece completamente desconectada dos temas que o romance desenvolveu anteriormente. O parasitismo funciona tanto como ameaça física quanto como extensão das relações de dependência, possessividade e desgaste emocional presentes na história.
É uma combinação que poderia facilmente parecer pretensiosa, mas que funciona porque Thayer nunca perde completamente o senso de humor. Mesmo nos momentos mais grotescos, existe uma irreverência que impede o romance de se levar excessivamente a sério.
Veredito: vale a pena ler Tapeworm?
Tapeworm é uma estreia bastante promissora para A.P. Thayer e uma leitura especialmente interessante para quem procura histórias de horror corporal que ofereçam algo além de violência gráfica. O romance consegue equilibrar elementos de terror biológico, suspense paranoico, sexualidade e drama psicológico sem abandonar a atmosfera desagradável que sua premissa promete.
Não é uma leitura indicada para quem possui aversão a descrições gráficas de mutilação, parasitas ou transformações corporais. O livro também exige alguma paciência durante sua primeira metade, especialmente de leitores que preferem histórias de horror com ritmo acelerado desde o início.
Para quem gosta de body horror, entretanto, essas características provavelmente funcionarão como incentivo.
Terminei Tapeworm com a impressão de que A.P. Thayer compreende muito bem o potencial do gênero para explorar sentimentos que normalmente preferimos manter escondidos.