Existe uma diferença importante entre um jogo ser divertido e um jogo ser difícil de largar. Splatoon Raiders pertence à segunda categoria. O novo título da Nintendo transforma a tradicional fórmula da franquia em uma aventura focada em PvE e progressão, mas seu maior mérito não está simplesmente em levar Splatoon para outro gênero. Está em entender quais elementos fizeram a série funcionar durante tantos anos e reorganizá-los em um loop extremamente eficiente.
A estrutura é relativamente simples: entrar em uma incursão, enfrentar Salmonids, coletar recursos, encontrar tesouros, voltar para a base, melhorar equipamentos e partir novamente. O segredo está justamente na maneira como essas etapas conversam entre si. Cada expedição oferece recursos que tornam a próxima mais interessante, enquanto novos equipamentos criam possibilidades diferentes para enfrentar os desafios seguintes. É um ciclo que constantemente oferece uma razão para jogar “só mais uma”.

A Nintendo chama atenção para a quantidade de possibilidades disponíveis. São 11 categorias de armas, com variações que alteram características como alcance e consumo de tinta, resultando em mais de 100 armas para descobrir. A isso se somam três tipos de tanques, Power, Speed e Tactical, cada um associado a diferentes gadgets e possibilidades de personalização.
Esse sistema poderia facilmente resultar em uma progressão artificial, criada apenas para aumentar números. Não é o que acontece na maior parte do tempo. A evolução do equipamento está diretamente ligada à maneira como o jogador encara cada incursão. Uma configuração mais ofensiva pode favorecer confrontos diretos, enquanto outra prioriza mobilidade ou controle do campo de batalha. O jogo, portanto, não entrega apenas recompensas: entrega novas maneiras de jogar. E é aí que Splatoon Raiders encontra sua principal força.
Um loop simples que esconde bastante profundidade
O ciclo “pintar, coletar, melhorar e repetir” parece banal quando colocado no papel. Na prática, ele funciona porque cada etapa alimenta a seguinte. A exploração gera recursos; os recursos permitem fabricar e aprimorar equipamentos; os equipamentos facilitam incursões mais difíceis; e essas incursões oferecem recompensas melhores. É uma estrutura conhecida em jogos de ação com elementos de RPG e loot, mas Splatoon Raiders consegue encaixá-la na identidade da franquia sem parecer uma cópia de outras experiências.
O próprio ato de movimentação continua sendo parte fundamental disso. A tinta não serve apenas para causar dano. Ela é caminho, proteção e combustível para a transformação em lula, permitindo atravessar rapidamente os cenários e recuperar tinta. Essa característica, que já diferenciava Splatoon de outros shooters, ganha uma nova função quando colocada em uma experiência PvE.

O resultado é um jogo em que movimentação e combate estão permanentemente conectados. Você não está apenas procurando inimigos para atirar. Está pensando em onde pintar, como se posicionar, quando avançar e qual equipamento pode tornar aquele confronto mais eficiente. Essa é uma das razões pelas quais o jogo consegue ser tão viciante.
O Switch 2 finalmente tem um Splatoon pensado para ele
Tecnicamente, Splatoon Raiders também representa um avanço importante para a franquia. O jogo é exclusivo do Nintendo Switch 2 e utiliza o novo hardware para entregar cenários mais detalhados, maior distância de visão e uma quantidade considerável de efeitos simultâneos na tela. O jogo roda com uma estabilidade em 60 quadros por segundo durante a jogabilidade, algo especialmente importante em um título cuja movimentação e combate dependem de respostas rápidas. Não é apenas uma questão de resolução ou de colocar mais elementos na tela. O ganho técnico beneficia diretamente o design.
Splatoon sempre foi uma franquia construída em torno de velocidade. Correr, mergulhar na tinta, mudar de direção e atacar exigem uma resposta imediata dos controles. Em Raiders, essa característica precisa funcionar enquanto dezenas de inimigos, partículas, efeitos de tinta e objetos interativos podem ocupar o mesmo espaço.

É nesse ponto que o hardware deixa de ser apenas uma especificação técnica e passa a fazer parte da experiência. O Switch 2 oferece margem para que a Nintendo construa confrontos mais movimentados e ambientes mais amplos sem sacrificar a fluidez que define a série.
A Nintendo também soube não transformar tudo em um RPG
Outro acerto está na quantidade de sistemas presentes sem que eles dominem a experiência. Há armas, tanques, gadgets, melhorias, recursos, tesouros e diferentes configurações de personagem. Mesmo assim, a estrutura continua compreensível. A Nintendo não transforma Splatoon Raiders em uma planilha cheia de atributos apenas porque existe um sistema de progressão.
Esse equilíbrio é importante porque o jogo poderia facilmente cair em uma armadilha comum dos títulos baseados em loot: obrigar o jogador a repetir atividades apenas para aumentar números.
Splatoon Raiders evita isso durante boa parte da campanha ao manter missões relativamente curtas e variadas. Há incursões, desafios específicos, exploração e atividades voltadas para diferentes tipos de recompensa. A progressão existe para incentivar a próxima partida, e não simplesmente para preencher uma barra.

É claro que Splatoon Raiders não é perfeito. Algumas atividades podem começar a apresentar sinais de repetição, especialmente quando o jogador avança para o conteúdo mais tardio. Além disso, o jogo não veio com legendas em português do Brasil, o que pode afastar potenciais novos jogadores para a franquia.
Essas críticas são importantes porque impedem que o jogo seja tratado como uma obra sem defeitos. Seu loop é excelente, mas não necessariamente infinito em variedade. A diferença é que Splatoon Raiders consegue fazer o jogador querer continuar mesmo quando a estrutura começa a mostrar suas costuras.
Um dos melhores jogos do Switch 2
Talvez seja justamente essa eficiência que faça Splatoon Raiders se destacar tanto. A Nintendo poderia ter simplesmente criado um novo modo single-player de Splatoon. Em vez disso, construiu uma experiência que pega a movimentação, o sistema de tinta, o combate e a personalidade da franquia e os coloca dentro de uma estrutura de ação e progressão completamente diferente.
O resultado não parece um substituto para Splatoon 3, tampouco uma simples expansão. É uma nova interpretação da série. E isso pode ser ainda mais importante para o futuro da franquia. Splatoon nasceu associado ao multiplayer competitivo, mas Raiders demonstra que seu conjunto de mecânicas funciona muito bem quando o adversário é controlado pela própria inteligência artificial e quando o objetivo deixa de ser simplesmente vencer uma partida.

Mais importante, Splatoon Raiders mostra uma Nintendo disposta a fazer algo que nem sempre é óbvio: pegar uma franquia consolidada e permitir que ela seja diferente.
No fim, talvez seja essa a melhor maneira de explicar por que Splatoon Raiders funciona tão bem. Ele não tenta reinventar cada elemento de Splatoon. Ele identifica o que já era divertido, acrescenta progressão, exploração e personalização e cria um ciclo no qual cada incursão prepara a próxima.
Você entra para conseguir um recurso. Depois quer melhorar uma arma. Então percebe que existe um gadget novo para testar. Aí surge uma missão mais difícil. E, quando percebe, já está pensando em fazer “só mais uma incursão”.
É um design simples na superfície, mas extremamente eficiente em execução. E, em um console que está construindo sua identidade a passos largos, Splatoon Raiders já pode ser colocado entre os exemplos mais fortes do que o Nintendo Switch 2 é capaz de oferecer: não apenas uma versão tecnicamente melhor de experiências conhecidas, mas jogos que encontram novas maneiras de aproveitar aquilo que a Nintendo sabe fazer melhor.
Splatoon Raiders não é apenas um ótimo spin-off. É um dos melhores jogos disponíveis no Switch 2 até agora, e talvez uma das demonstrações mais convincentes de que a Nintendo encontrou mais uma forma de fazer tinta virar diversão.