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Luminária: Audiolivro é considerado leitura?

Prosseguindo o debate da coluna da semana passada, a qual explanei sobre as vantagens e desvantagens dos livros físicos e dos digitais, dessa vez proponho o debate sobre outro formato de leitura: os audiolivros e seu consumo pode ser considerado leitura ou não. Diante disso, retire seus fones de ouvido, aproxime-se da Luminária e vamos conversar sobre audiobooks.

A evolução dos livros em áudio

De acordo com o Gemini (IA do Google), define-se que “audiobook (ou audiolivro) é a gravação em áudio do conteúdo de um livro lido em voz alta. Ele permite que você ‘leia’ ouvindo a obra enquanto realiza outras atividades, sendo também uma importante ferramenta de acessibilidade”.

Por muitos séculos, a História e as histórias foram repassadas pelas gerações através da tradição oral, das rodas de conversas e do ensino prático. Em sociedades onde apenas a monarquia e o clero possuíam conhecimento da leitura e da escrita, os textos podiam ser declamados em praças públicas, realizados por arautos e trovadores.

Gonçalves e Silva (2023) apresentam um breve histórico desta tecnologia fonética. Um dos primeiros modelos de narrativas em formato de áudio foi através de um “phonographic book”, sugerido por Thomas A. Edison, em 1878. Já na década de 1930, surgiram os primeiros discos de vinil contendo gravações de romances e tocados em um “talking book machine”. Este método facilitava a leitura de soldados que perderam parcialmente ou totalmente a visão após a I Guerra Mundial.

Ao longo das décadas e com a evolução da tecnologia, os livros passaram a ser reproduzidos em fitas cassetes, CDs e MP3 player, até a chegada dos smartphones e do amplo acesso à internet. Hoje, obras literárias são disponibilizadas em formato de áudio através de streamings, plataformas de música ou armazenamento em nuvens, que podem ser gravados por seres humanos ou por IAs.

Acessibilidade dos audiolivros

Assim como dito acima, romances em formato de áudio proporcionavam entretenimento e conhecimento aos antigos soldados com visão prejudicada. A primeira vantagem dos audiolivros é proporcionar acessibilidade a pessoas portadoras de cegueira. A Fundação Dorina Nowill para Cegos explica que “são uma ótima opção para pessoas com deficiência visual ou dificuldades de leitura e são populares por sua conveniência”.

Ou seja, obras literárias em formato de áudio promovem acessibilidade de conteúdos que, em sua maioria, são divulgados através da escrita (livros físicos e digitais, folhetins, revistas, jornais…), além de possibilitar a própria autonomia, sem precisar de terceiros para ler em voz alta.

Mas não somente indivíduos com problemas visuais se beneficiam deste formato, analfabetos ou pessoas com baixa escolaridade podem se utilizar deste recurso para ter acesso aos conteúdos, além disso, aqueles que possuem dislexia ou TDAH também podem usufruir da audição para melhor concentração e clareza. Crianças podem ouvir contos de fadas ou narrativas religiosas ao acompanhar um livro nas mãos junto com o áudio (quando criança, eu ralei um CD de contos clássicos de tanto ouvi-lo enquanto olhava meus livrinhos).

Assimilação de conteúdo em áudio

Ler e ouvir são diferentes, a ciência explica que cada ação ativa uma região cerebral diferente. Ler aciona no cérebro regiões responsáveis por reconhecer o código escrito (ex.: alfabeto e ideogramas) de maneira visual, além de ativar áreas pré-frontais que estão ligadas à interpretação e à análise das informações. O processamento visual e analítico favorece tempo para releituras e reflexões, promovendo melhor compreensão e criativa.

Ouvir uma informação ativa o córtex auditivo e as áreas do lobo temporal que integram o significado das palavras. O processamento é mais rápido conforme o ritmo do som, gerando interpretações rápidas e intuitivas, explicou o Metrópoles (2025).

Para Adalberto Studart, da Associação Brasileira de Neurologia, ler e ouvir são ações distintas, mas que no cérebro convergem para áreas da linguagem e da compreensão da mesma forma. O que não pode ser feito é dividir o foco da atenção com outras atividades, como dirigir ou limpar a casa, ações que normalmente as pessoas realizam enquanto escutam suas histórias.

Ainda na matéria do G1 (2024), o uso de ambos os formatos pode ser utilizado para melhor compreensão de uma mensagem. Bernardo Bueno é coordenador do curso de escrita criativa da PUC-RS e opinou que “se for adicionar, como forma complementar, como outra maneira de absorver o conteúdo, seja por causa de déficit de atenção, por exemplo, é benéfico [o uso de audiobooks]”.

Audiolivro é considerado leitura?

Usuários de fóruns online, como o Reddit, empreendem este debate frequentemente. Os apoiadores argumentam que ouvir uma história também é uma forma de se conhecer a narrativa, pois ali cada palavra é enunciada e compreendida por aquele que escuta. Os que contra-argumentam são mais literais quanto ao uso do vocábulo “leitura”, afirmando que seus significados evocam o ato de decodificar uma mensagem visual.

Fiz uma busca no dicionário e o substantivo “leitura” possui várias vertentes de aplicação, mas com base nesta discussão, trago duas situações:

1: Ação de ler; ato de decifrar o conteúdo escrito de algo. Ação de compreender um texto escrito.

“2: Compreensão ou interpretação de qualquer representação: leitura de mapas. [Figurado] Modo de entender, de compreender algo: sua leitura sobre assunto é deficiente.”

A primeira descrição reflete a visão daqueles que defendem que ouvir uma história não é realizar uma leitura. Porém, a palavra não se limita a este significado, podendo ser empregada em outros aspectos sobre a compreensão de uma informação, como ouvir.

Apesar de não ser adepta dos audiobooks, eu concordo que ouvir um livro conta sim como leitura. Uma pessoa que leu um romance contará os mesmos fatos quando comparado com um indivíduo que apenas o ouviu. É uma atitude excludente afirmar que deficientes visuais, crianças e analfabetos não efetuaram uma leitura só porque o método empregado foi diferente.

E se voltarmos ao passado e encararmos que a escolarização da base da sociedade é um fato muito recente, conjectura-se falsamente que lendas, mitos, eventos reais e ensinamentos só foram preservados após o uso de papel (pergaminho, couro, cerâmica). Assim, a transmissão de uma narrativa também pode ser feita em formato de áudio.

Luminária é a coluna literária na qual conversaremos sobre livros a cada quinze dias. Para mais conteúdos literários, acesse o portal.

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