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Luminária: , amor, e a retratação de doenças na literatura

Acompanhar um jornal é ver notícias sobre futebol, guerras, escândalos políticos e doenças. Recentemente, o mundo assustou-se com as mortes em um cruzeiro devido à uma cepa específica do Hantavírus e com o aumento de casos de Ebola na África. Apesar de ser farmacêutica, não irei aqui dar uma aula de virologia, mas sim, comentar o elo desta ciência biológica com a literatura, com foco especial no livro “, amor,” de Mateus Ântoni Rúbia.

Com isso, use sua máscara e pegue seu álcool em gel, sente-se a uma distância segura, mas ainda sim debaixo da Luminária, pois iremos conversar sobre a abordagem de doenças através dos livros.

Epidemias e Pandemias

A arte imita o mundo ou o mundo imita a arte, uma frase icônica e clichê que retrata o entrelace e a inspiração dos artistas em suas obras ao expressarem a realidade. Uma obra pode se basear em algum conflito específico entre povos e territórios, ou em um aspecto político, ou em figuras históricas, ou em invenções e tecnologias revolucionárias, ou em doenças que dizimaram uma população.

De acordo com o Instituto Butantan, “uma enfermidade se torna uma pandemia quando atinge níveis mundiais […] a epidemia ocorre um aumento no número de casos de uma doença em diversas regiões, estados ou cidades, porém sem atingir níveis globais”. Os vírus e as bactérias são os principais responsáveis por esta condição, com possibilidade de causar mortes ou debilidades permanentes.

A mais recente enfermidade que acometeu a humanidade foi a COVID-19, um vírus que se espalhou globalmente, com alta taxa de mortalidade e provocando consequências recuperáveis ou não. Entre 2020 e 2022, o mundo viveu trancado dentro de casa, com sobrecarga no sistema de saúde, luto de familiares e notícias alarmantes e por vezes falsas nos meios de comunicação.

Mas esta não foi a única infestação a gerar tamanho prejuízo na história do mundo. Ao longo dos séculos, marcados por uma localidade ou não, algumas doenças provocaram verdadeiros extermínios. Posso citar a peste negra (peste bubônica) na Europa durante o século XIV ou a gripe espanhola no início do século XX.

Alguns autores, sendo a trama central de seus livros ou não, abordaram o impacto destas enfermidades em seus personagens. A ficção, vinculada a pesquisa e/ou a vivência do escritor, eterniza esse momento histórico nas páginas de um romance.

As Doenças na Literatura

“A Peste”, de Albert Camus, é um romance de 1947 e narra a história de trabalhadores que descobrem a solidariedade durante uma peste que assola a cidade de Oran, na Argélia. O autor inspirou-se na epidemia de cólera que dizimou grande proporção da população deste município em 1849. Alguns afirmam que a peste retratada no livro pode ser uma metáfora aos horrores da Segunda Guerra Mundial.

Ainda sobre a cólera, um autor que empregou esta infecção bacteriana em uma obra literária foi o colombiano Gabriel García Marques em seu livro “Amor nos Tempos do Cólera”. Apesar de não se tratar do foco narrativo, a infecção permeia o romance e conta a história do amor de Florentino por Fermina, que passam mais de 50 anos quase sem nenhum contato. É um realismo fantástico durante o século XIX.

Ainda dentro da América Latina, o livro Capitães de Areia, do escritor baiano Jorge Amado, narra o episódio da varíola que acometeu a capital durante o início do século passado, conhecida popularmente como “doença da bexiga”. Apesar da enfermidade não ser o aspecto central da narrativa, o autor dedica uma parte da história para contar sobre esta mazela, principalmente na população mais pobre.

Em si tratando de escritores baiano, o autor Mateus Ântoni Rúbia tratou da pandemia do COVID-19 em seu livro “, amor,”. Nesta obra, um casal de jovens enfrenta os desafios desta doença que marcou a última geração.

Sinopse de “,amor,”

Durante sua viagem a um cenário belo e atemporal, dois jovens se encontram e gradualmente descobrem entre si um sentimento forte e transformador que parece transcender a própria realidade em que vivem. No lugar quase mágico em que se encontram, ambos se sentem imersos em uma realidade paralela, em que a paixão juvenil floresce igual a delicadas flores.

Porém, à medida que a conexão entre eles se fortalece, o mundo fora desse paraíso se vê tomado por uma pandemia devastadora, que se espalha pelos países do globo, trazendo turbulências, crises e decisões cruciais para a humanidade.
Enquanto a paixão entre os jovens cresce, a pandemia do covid-19 assola implacavelmente o mundo, forçando-os a enfrentarem o distanciamento social, o isolamento e a quarentena, contrariando seus desejos e anseios de estarem juntos.

Entre o florescer da paixão e a assolação da pandemia, os protagonistas se veem diante de uma encruzilhada: precisam descobrir como lidar com o amor em meio ao caos, em uma realidade contaminada pela desconfiança, cólera, ódio e desumanidade.

Afinal, poderá o amor sobreviver em um mundo que clama por distanciamento?

Os Aspectos do Livro

A começar pelo título, é curioso a escolha do autor em retratar uma “pausa” ao usar vírgulas antes e depois, simulando a estagnação na vida de todos. Entre estes sinais ortográficos, a palavra amor pode significar tanto o sentimento que uniu o jovem casal na narrativa quanto o sentimento universal de abdicar de algo em prol do outro, o mundo restringiu sua liberdade para que o bem-estar e a saúde dos demais fosse minimamente afetada.

Outra abordagem interessante é a escolha dos nomes dos protagonistas: João e Maria. Nomes populares, comuns em todo o país, quase genéricos, remontando uma representatividade do povo brasileiro com intencionalidade de imergir o leitor naquela realidade.

A trama gira em torno do relacionamento destes dois personagens, que se conhecem uma viagem no paraíso do interior brasileiro. Ao voltarem para à cidade, a magia é quebrada com as notícias de um vírus que se espalhou pelo mundo e o lockdown que isolou tudo e todos. Em Maria, acompanhamos o perfil de pessoas que se engajaram verdadeiramente em cumprir os requisitos pedidos pelas autoridades de saúde, mas que também sofreram na solidão e no tédio de suas casas, principiando quadros de ansiedade. João é a persona mais irresponsável ou ingênuo, aquele que transgride as regras e que traz o vírus para seu lar. O final é a esperança do recomeço de uma vida nova e combalida.

Encarava-o sem saber muito bem o que sentia. Havia, com certeza, uma boa dose de surpresa, mas também havia uma preocupação latente que ofuscava todos os seus demais pensamentos. Ele talvez apenas pressentisse o seu olhar, pois se encontrava de cabeça baixa, buscando com muito esfoço conrolar a respiração arquejante, pondo a mão no peito convulso. […]” – página 173 de “, amor,” de Mateus Ântoni Rúbia, ed. Viseu.

Ler este livro é voltar a sentir aquilo que agonizou nossos dias durante o início da década de 20. É rememorar as discussões de família, os embates políticos e o desespero de crises respiratórias. Não encaro este livro como um retorno ao sofrimento que não queremos mais, mas uma imortalização de um período histórico que traz reflexões a quem viveu ou não esta realidade.

A narrativa em tom poético traz grandes parágrafos assim como Saramago. O romance divide-se em treze capítulos, além de uma introdução e um prefácio. Humildemente (mas nem tanto), revelo que a prefaciadora desta história é a mesma que escreve esta coluna. Mateus e eu fomos colegas na escola e o amor pela literatura nos une nesta parceria até hoje.

“[…] Ao desviar-se, no entanto, entreviu, à passagem do veículo no qual se encontravam, o esplendor úmido e macio da flor que com coragem abria-se delicadamente, como milagre, no cacto. Como se desperceber a visão da flor temporã representasse uma perda inestimável da qual alguém nunca poderia se recuperar […]” – página 23 de “, amor,” de Mateus Ântoni Rúbia, ed. Viseu.

Porém, não deixo de recomendar seu livro devido as qualidades que este tem, independente do nosso vínculo de amizade. A obra tem o seu valor por descrever na ficção um marco histórico da realidade, neste caso, a pandemia do coronavírus é o plano de fundo que movimenta a narrativa, que traz conflitos e consequências. Escrever um livro retratando uma infestação viral ou bacteriana não é uma novidade da literatura, sendo explorada por grandes autores nacionais e internacionais.

Luminária é a coluna literária na qual conversaremos sobre livros a cada quinze dias. Para mais conteúdos literários, acesse o portal.

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