Décadas atrás, muita gente acabou zombando de um jornalista britânico especializado em games que criticou o fato de Doom não permitir qualquer tipo de interação com seus monstros além do combate. Ainda assim, olhando em retrospecto, talvez a crítica não fosse tão absurda quanto parecia. Afinal, já existiam jogos naquela época que exploravam formas alternativas de lidar com inimigos, indo além da simples violência.
Um dos principais exemplos era Digital Devil Story: Megami Tensei, RPG lançado em 1987 que permitia ao jogador conversar com criaturas encontradas durante a aventura, negociando com elas para convencê-las a abandonar o confronto e até integrar sua equipe. Esse conceito acabou se tornando uma das marcas registradas da franquia Shin Megami Tensei e permaneceu presente em diversos títulos da série e também em alguns de seus spin-offs ao longo dos anos.

Em entrevista recente concedida ao site Encount (posteriormente traduzida pelo site Automaton) o ex-desenvolvedor da Atlus Kazunari Suzuki revelou que a inspiração para o famoso sistema de negociação surgiu a partir de uma experiência frustrante envolvendo sessões de Dungeons & Dragons. Mais especificamente, tudo começou por causa de um Dungeon Master extremamente rígido com as regras.
“Eu nunca consegui entender por que não podíamos conversar com os goblins”, explicou Suzuki. “Eles também são seres conscientes, não são? Possuem idioma próprio, vivem em comunidades e têm sua própria sociedade. Mesmo assim, ao encontrá-los em uma dungeon, não existia qualquer possibilidade de diálogo, o único caminho era derrotá-los. Isso era algo que realmente me incomodava.”
Suzuki também contou que, na época, tentou convencer seu DM a adaptar as regras da mesa para permitir soluções diplomáticas nos confrontos. Porém, a ideia não foi aceita. “Depois que pedi para conversar com os goblins, o DM pegou o livro de regras, verificou as informações e respondeu: ‘Isso não existe nas regras, então você não pode fazer’.”

Foi justamente dessa frustração que nasceu a ideia responsável por uma das mecânicas mais icônicas de Megami Tensei. “Naquele momento eu pensei: ‘Então crie suas próprias regras.’ Foi exatamente desse sentimento que surgiu o sistema de negociação de Megami Tensei.”
No fim, a história acaba reforçando a ideia de que muitas grandes criações surgem justamente da insatisfação. De certa forma, os fãs de Shin Megami Tensei talvez devam agradecer àquele DM inflexível dos anos 80, já que sem ele provavelmente nunca teríamos a oportunidade de negociar com demônios e criaturas absurdas como Mara ao longo da franquia da Atlus.
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