Existe uma consequência inevitável de passar tempo demais lendo Stephen King: em algum momento, você começa a querer entender de onde diabos tudo aquilo veio. Não apenas de onde surgiu Pennywise ou qual experiência serviu de fagulha para O Iluminado, mas como uma pessoa passa décadas produzindo histórias sobre fanatismo religioso, hotéis malignos, cachorros assassinos, cemitérios inconvenientemente eficientes e escritores mantidos em cativeiro sem aparentemente esgotar o estoque de pesadelos.
É justamente essa curiosidade que torna Coração Assombrado: A Biografia de Stephen King, de Lisa Rogak, uma leitura tão interessante.
Publicado originalmente como Haunted Heart: The Life and Times of Stephen King, o livro é uma biografia não autorizada que acompanha King desde a infância até sua transformação em um dos escritores mais populares do mundo. Rogak reconstrói essa trajetória utilizando entrevistas, declarações dadas pelo próprio autor ao longo dos anos, materiais publicados anteriormente e conversas com pessoas próximas a ele. O resultado não é uma investigação escandalosa sobre a vida de uma celebridade, mas um retrato bastante acessível do homem que existe por trás de uma bibliografia que já parece grande demais para ter sido produzida por uma única pessoa. A pesquisa rendeu ao livro indicações aos prêmios Edgar e Anthony.
E talvez esse seja justamente seu maior mérito. Quanto mais conhecemos Stephen King, menos ele parece aquela entidade mitológica chamada “Mestre do Horror” e mais aparece como alguém que, por uma combinação de talento, obsessão e uma quantidade francamente ofensiva de disciplina, conseguiu transformar a escrita em profissão muito antes de saber se algum dia seria possível viver dela.
Sua infância esteve longe de ser confortável. O pai abandonou a família quando King ainda era pequeno, deixando sua mãe, Ruth, responsável por criar os filhos em condições financeiras difíceis. A família passou por diferentes lugares antes de se estabelecer no Maine, região que posteriormente se tornaria praticamente um personagem recorrente de sua ficção. Rogak acompanha essas experiências sem tentar transformar cada acontecimento da infância em uma explicação conveniente para algum monstro que surgiria décadas depois.
Isso é importante porque seria muito fácil escrever uma biografia de Stephen King procurando obsessivamente “a origem do horror”. Uma infância difícil vira Carrie, uma experiência estranha vira It, um hotel vira O Iluminado e pronto, encontramos a fórmula secreta. Coração Assombrado funciona melhor quando evita essa simplificação e mostra que a criação literária de King nasceu de uma mistura muito mais complicada de experiências pessoais, medos, cultura popular, observação e uma compulsão aparentemente inesgotável por contar histórias.
Muito antes dos milhões de exemplares vendidos, King escrevia porque queria escrever. Houve rejeições, dificuldades financeiras e trabalhos que não tinham absolutamente nada de glamoroso, enquanto ele continuava produzindo histórias sempre que conseguia encontrar tempo. O sucesso de Carrie parece extraordinário quando observado isoladamente, mas Coração Assombrado faz questão de mostrar tudo o que aconteceu antes dele. A carreira que posteriormente parece inevitável esteve, durante muito tempo, muito longe disso.
E então entra Tabitha King. A história de que ela encontrou páginas de Carrie no lixo depois que King desistiu do projeto já se tornou quase parte da mitologia literária, mas ganha outro peso quando aparece dentro do contexto maior do relacionamento entre os dois. Tabitha não surge simplesmente como “a esposa que salvou Carrie”. Ela aparece como escritora, leitora e companheira de alguém cuja carreira ainda era apenas uma possibilidade, além de figura fundamental durante períodos muito menos agradáveis que vieram depois do sucesso.
Porque Coração Assombrado também deixa bastante claro que conseguir tudo aquilo que King desejava não resolveu magicamente sua vida.
A ascensão depois de Carrie foi extraordinária. Vieram Salem, O Iluminado, A Dança da Morte, A Zona Morta, Cujo e uma sequência de obras que transformaram King em uma máquina editorial. Ao mesmo tempo, o dinheiro e a fama trouxeram seus próprios problemas, enquanto sua dependência de álcool e drogas se agravava. Rogak aborda esse período sem romantizar a ideia do artista autodestrutivo, mostrando principalmente o impacto que a situação teve sobre King, sua família e seu trabalho. A intervenção organizada por Tabitha e outras pessoas próximas tornou-se um momento decisivo dessa história.
É uma das partes em que a imagem pública do escritor começa a ficar particularmente interessante. Existe uma tendência de transformar autores extremamente produtivos em alguma espécie de criatura sobre-humana, especialmente alguém como King, cuja bibliografia parece aumentar toda vez que você olha para outro lado. Conhecer os períodos difíceis por trás dessa produção desmonta um pouco essa fantasia. A quantidade de livros continua absurda, mas a pessoa que os escreveu se torna muito mais reconhecível.
O mesmo acontece quando a biografia chega ao acidente de 1999 que quase matou King. Ele foi atingido por uma van enquanto caminhava perto de sua casa no Maine e sofreu ferimentos gravíssimos, enfrentando cirurgias e uma recuperação longa e dolorosa. Para alguém cuja vida sempre esteve tão intimamente ligada à escrita, voltar a trabalhar também se tornou parte do processo de reconstrução. Rogak dedica atenção considerável ao acidente e às consequências físicas e criativas daquele período.
Talvez o aspecto mais interessante de Coração Assombrado, porém, seja perceber como acontecimentos da vida real começam a reaparecer dentro da obra sem que exista uma divisão clara entre “Stephen King pessoa” e “Stephen King escritor”. Maine está por toda parte. Seus medos aparecem transformados. A relação com a fama aparece. O alcoolismo aparece. A escrita aparece constantemente, especialmente através daquela quantidade suspeita de protagonistas escritores que povoam seus romances.
Depois da biografia, algumas obras ficam ligeiramente diferentes. Não porque Rogak forneça uma chave definitiva para interpretá-las, mas porque certas recorrências começam a adquirir contexto. É possível enxergar melhor por que King retorna tanto às pequenas comunidades, às famílias quebradas, aos escritores, à infância, ao vício e à maneira como pessoas aparentemente comuns conseguem produzir horrores muito maiores do que qualquer criatura sobrenatural.
Ainda assim, existe uma limitação importante. Coração Assombrado não é uma biografia autorizada, e King não concedeu uma grande entrevista exclusiva para sua elaboração. Rogak reuniu uma quantidade considerável de materiais publicados e entrevistou pessoas ligadas ao escritor; segundo relato contemporâneo do Bangor Daily News, King permitiu que amigos falassem com a biógrafa caso desejassem. Isso produz uma pesquisa ampla, mas também significa que leitores que já consumiram muitas entrevistas, documentários e textos autobiográficos do autor provavelmente reconhecerão várias histórias.
Essa característica também apareceu entre as avaliações críticas da obra. A Publishers Weekly, por exemplo, considerou a biografia eficiente na reunião dos principais fatos, mas apontou que boa parte do material deriva de fontes secundárias e que o livro não se aprofunda tanto quanto poderia no homem ou na obra. É uma crítica justa. Coração Assombrado funciona melhor como um panorama biográfico muito bem organizado do que como uma investigação definitiva sobre Stephen King.
Para fãs, porém, existe prazer justamente em encontrar tudo reunido cronologicamente. Uma curiosidade que você conhecia aparece ao lado de outra que nunca tinha ouvido, então surge a história de determinado romance, uma adaptação, um período familiar, outro livro, outro sucesso. Aos poucos, aquela carreira gigantesca deixa de parecer uma coleção de títulos e passa a formar uma trajetória.
A edição brasileira da DarkSide também merece atenção. Lançada no Brasil em 2013, com tradução de Cláudia Guimarães, ela recebeu o tratamento gráfico característico da editora, além de notas que contextualizam informações para o público brasileiro e um posfácio que atualizava a cronologia em relação à edição original.
Existe, naturalmente, outro problema inevitável em qualquer biografia de Stephen King publicada tantos anos atrás: ele simplesmente continuou vivendo e escrevendo. E escrevendo. E escrevendo mais um pouco. Haunted Heart surgiu originalmente em 2009, portanto não pode oferecer um retrato completo de uma carreira que avançou por mais de quinze anos desde então.
Coração Assombrado é mais interessante quando lido não como a palavra final sobre Stephen King, mas como a história de como aquele garoto criado com pouco dinheiro no Maine conseguiu se transformar no escritor cujo sobrenome sozinho já vende um livro. Entre esses dois pontos existem rejeições, casamento, filhos, pobreza, sucesso quase inimaginável, dependência química, recuperação, um acidente que poderia ter encerrado tudo e, atravessando cada fase, uma insistência quase irracional em continuar escrevendo.
Para quem conhece apenas os romances, é uma excelente porta de entrada para conhecer o autor. Para quem já é fã, funciona como uma oportunidade de reorganizar histórias conhecidas e descobrir outras pelo caminho. E, para quem escreve, existe algo particularmente fascinante em perceber que a carreira de Stephen King não começou quando Carrie foi publicada.
Ela começou muito antes, quando ninguém estava prestando atenção. Talvez essa seja a parte de Coração Assombrado que mais permanece depois da leitura. Por trás de Pennywise, Jack Torrance, Annie Wilkes, Carrie White e todos os outros monstros existe alguém que passou a vida inteira fazendo essencialmente a mesma coisa: sentando e escrevendo a próxima história.