Recentemente, a escritora e velejadora Tamara Klink protagonizou uma polêmica no mundo literário ao pedir para que as pessoas não comprem o seu novo livro. Jornais, revistas e influencers comentaram sobre o impacto deste pedido e vou fazer o mesmo por aqui. Com isso, abaixe as bandeiras, não esvazie o carrinho de compras, acenda a Luminária e vamos falar sobre o livro e seus impactos mercadológicos e ambientais.

Tamara Klink: escritora e velejadora
Ela é a primeira mulher registrada a invernar sozinha no mar congelado do Ártico e, aos 28 anos, é a mulher mais jovem e a primeira pessoa da América Latina a realizar a Passagem Noroeste em solitário. Tamara Klink é filha de Amyr Klink, também navegador brasileiro.
Como resultado de suas aventuras, Tamara já publicou algumas obras: Férias na Antártica (Grão) em 2010; Crescer e Partir, Mil Milhas e Um Mundo em Poucas Linhas (Editora Peirópolis) em 2021 e Nós: O Atlântico em Solitário (Companhia das Letras) em 2023.
O seu mais novo livro chama-se Bom Dia, Inverno e foi lançado em maio deste ano, tornando-se um dos mais vendidos no país. E, com isso, a autora começou a polêmica. No início de agosto, em suas redes sociais, Tamara Klink fez um pedido inusitado ao solicitar que seus leitores parem de comprar seu livro.
Admitindo ser uma declaração polêmica, ela embasou sua solicitação sob a ótica da sustentabilidade. Alegando que, por ser um dos mais vendidos no país, vários exemplares já circulam o suficiente para que, aqueles que já o adquiriram, possam compartilhá-los através de empréstimos. Ela afirmou também que muito material e energia foram gastos usando recursos naturais para que seus livros fiquem presos em estantes pessoais e serem lidos apenas uma vez na vida.

A Polêmica do Recurso Natural
A velejadora justifica seu pedido sem precedentes como uma atitude coerente ao seu posicionamento ideológico quanto a sustentabilidade e a preservação da natureza. Produzir um livro envolve gastos de recursos naturais como madeira para o papel e energia elétrica e a combustão para alimentar maquinários de produção e transporte. Então fabricar centenas ou milhares de objetos gera uma cadeia de consumo destes recursos, por vezes não renováveis, que impactam negativamente no ambiente.
O discurso é bonito, mas mal pensado e precipitado.
Primeiramente, vou quebrar a perspectiva de que livro é algo intocável… Não, o livro é um produto, fruto do capitalismo. E todo produto precisa de matéria para existir (para ser fabricado) e, mais cedo ou mais tarde, irá virar lixo, resíduo. Então, a partir do momento em que tais ativistas usam deste produto para combater a fabricação dele, de forma consciente ou não, reflete a hipocrisia da ação. É o mesmo que usar um papel, provindo de um desmatamento, para escrever a frase “Não ao desmatamento”. No caso de Tamara, escrever um livro para futuramente você alegar “não leia” só demonstra incongruência em suas ações.

É claro que o ser humano é, por vezes, falho e incongruente. Provavelmente, ao solicitar tal atitude, ela não tenha dimensionado a reação que tomou o mundo literário brasileiro. Sim, pode ter sido inocência da parte dela, alguns criticaram como marketing, mas para mim só demonstrou falha no próprio discurso.
Há algumas semanas, expus na coluna “Livro físico ou digital, qual o melhor?”, não somente as vantagens de cada formato, mas também o custo-benefício e os impactos ambientais de ambos. Em resumo, o livro físico gera uma demanda de recurso vegetal para ser produzido (desmatamento de árvores para a produção de papel), além de tinta e maquinário gráfico. Os e-books já são dependentes do extrativismo mineral, pois a produção de aparelhos eletrônicos demanda metais e data centers resfriados em recursos hídricos. Além disso, ambos os formatos usam energia elétrica e transporte (combustão).
Impacto no mercado editorial
Autores, influencers e profissionais de edição se pronunciaram diante de tal pedido de Tamara Klink. Muitos, mesmo compreendendo as intenções da autora, criticaram sua atitude por desestimular o ganha pão do mercado editorial.
Como eu afirmei anteriormente, o livro é um produto, sendo assim, há um mercado por traz da produção e da venda deste artigo. O produto final, que é a obra lançada, mobiliza profissionais de revisão, edição, arte, marketing, vendedores… Profissionais que sobrevivem através do consumo destas obras, que trazem sustento tanto para a empresa quanto para si.
É sabido também que as editoras faturam com margens mínimas de lucros. Em um país onde menos da metade da população leem três páginas de alguma coisa e a produção de um livro é custosa, gera pouco retorno financeiro para as gráficas e agências literárias. No Brasil, se uma obra vender entre 5 e 15 mil exemplares no geral já pode ser considerada um best-seller, em comparação com os Estados Unidos, um campeão de vendas atinge 10 mil cópias em uma semana apenas.
Além dessas realidades, é injusto uma autora pedir para não comprar seus livros por estarem vendendo tanto enquanto muitos escritores sonham em tornar suas obras best-sellers assim como a dela. Sabe-se que o autor nacional enfrenta resistência de conseguir espaço no mercado editorial e batalham para angariar leitores e construir a sua comunidade, uma tarefa que não é fácil e nem rápida.

O pedido de desculpas
Devido a repercussão de seu vídeo, Tamara Klink soltou uma declaração em sua rede social pedindo desculpas, alegou que entendeu os pontos levantados pela comunidade literária e admitiu que errou em não analisar melhor sua decisão. Reforçou que a leitura é um ato necessário e que apoia a causa.

Há um ano, através do projeto do Estadão em mostrar a biblioteca pessoal de famosos, Tamara Klink apresentou as centenas de livros que os pais possuem e mostra aqueles que a inspiraram para desbravar os mares gelados. Ela expõe também que seus exemplares se encontram em seu barco e que são sua companhia na solidão do Ártico.
Esta coluna, de maneira nenhuma, foi escrita para atacar a autora e velejadora. Apenas usei seu caso como exemplo para expor a realidade por traz do glamour dos livros. Produzir tal produto, mesmo encarado como objeto de apego emocional ou arte, ainda sim é um ato comercial que provoca impactos negativos no meio ambiente, mas que também é o sustento de tantas famílias e alimentam o sonho de tantas outras pessoas.
Luminária é a coluna literária na qual conversaremos sobre livros a cada quinze dias. Para mais conteúdos literários, acesse o portal.