Algumas leituras chamam atenção pelo texto. Outras pela edição. Mas existem aquelas ocasiões em que o conteúdo, o projeto editorial e o contexto histórico formam uma experiência inseparável. Foi exatamente essa sensação que tive ao receber o livreto de Randalls Round, enviado pela Mão Esquerda Editora.
Antes mesmo de falar sobre a obra, preciso comentar sobre o cuidado colocado em cada detalhe. O livreto é costurado à mão, algo cada vez mais raro em um mercado dominado por processos industriais e a embalagem chegou acompanhada de folhas de louro, marcador de páginas, adesivo e um pôster lindíssimo. Existe uma preocupação evidente em transformar a leitura em uma experiência física, algo que combina perfeitamente com o tipo de literatura que a editora publica.
Mas o que torna esse projeto realmente especial vai muito além da apresentação. A Mão Esquerda Editora nasceu de uma proposta que merece destaque: recuperar autoras esquecidas pela história literária e criar espaço para vozes femininas que foram sistematicamente apagadas ou negligenciadas ao longo do tempo.
Quando pensamos em literatura de horror e ficção gótica, os mesmos nomes costumam aparecer repetidamente. Quase sempre homens. Em alguns casos, surge Mary Shelley como exceção. Mas existe uma quantidade enorme de escritoras que ajudaram a construir o gênero e acabaram empurradas para as margens da história. O trabalho da editora consiste justamente em trazer essas vozes de volta ao debate contemporâneo.
É nesse contexto que surge Randalls Round, coletânea originalmente publicada em 1929 por Eleanor Scott, pseudônimo da escritora Helen Leys. Embora tenha produzido obras em outros gêneros, esta foi sua única coleção dedicada ao estranho, ao sobrenatural e ao horror.
Ler Randalls Round em 2026 é uma experiência curiosa: há algo profundamente diferente na forma como o horror é construído nesses textos. Não estamos diante de sustos fáceis ou violência explícita, o medo nasce do desconforto, da atmosfera e da sensação persistente de que existe algo errado sob a superfície da realidade.
Randalls Round opera em um território que hoje associamos ao folk horror, ao weird fiction e ao horror psicológico, uma narrativa que explora paisagens rurais, tradições antigas, comportamentos estranhos e presenças que nunca se revelam completamente. Eleanor Scott compreende perfeitamente que aquilo que não pode ser explicado costuma ser muito mais perturbador do que qualquer monstro descrito em detalhes.
O resultado é um tipo de leitura que se aproxima muito mais da inquietação do que do medo imediato. São histórias que permanecem na cabeça por dias, não porque provoquem choques espetaculares, mas porque criam perguntas que nunca recebem respostas completas.
Ao mesmo tempo, Randalls Round funciona como um documento histórico valioso. Ler Eleanor Scott hoje é perceber quantas vozes importantes ficaram esquecidas fora dos grandes cânones da literatura fantástica. Também é um lembrete de como a história editorial foi construída por escolhas seletivas, muitas vezes determinadas por questões de gênero muito mais do que por qualidade literária.

Nesse sentido, o trabalho da Mão Esquerda Editora possui uma importância que vai além da publicação de livros. Trata-se de um esforço contínuo de preservação cultural. A editora já alcançou milhares de leitores através de ebooks gratuitos e projetos de resgate histórico, construindo um catálogo que reúne autoras internacionais esquecidas, escritoras brasileiras contemporâneas e artistas gráficas que raramente encontram espaço nas grandes editoras.
Outro aspecto admirável é o modelo de financiamento coletivo mantido pela editora. Através da plataforma Catarse da Mão Esquerda Editora (AQUI), leitores podem contribuir mensalmente para viabilizar novas traduções, publicações e projetos de recuperação histórica. É uma iniciativa que permite que obras como Randalls Round encontrem leitores brasileiros décadas após terem sido publicadas pela primeira vez.
Além disso, a editora disponibiliza diversas obras gratuitas que podem ser acessadas por meio de seu acervo digital. O catálogo reúne resgates históricos, textos inéditos e produções de autoras mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, sempre acompanhados de um cuidado gráfico que se tornou uma das marcas do projeto.
Para quem gosta de horror clássico, folk horror, weird fiction e literatura fantástica escrita por mulheres, esta é uma leitura que merece atenção. E para quem acredita que livros também podem ser objetos de afeto, memória e resistência cultural, o livreto da Mão Esquerda Editora é simplesmente um trabalho admirável.