Recebi este livro diretamente da autora, em parceria com a Mão Esquerda Editora, para esta resenha. Você pode comprar o livro AQUI.
“Entre as sombras de uma literatura intensa e disruptiva, tão típica do melhor do nosso horror nacional, Camile já diz a que veio.” Márcio Benjamin
Terror e suspense escritos por mulheres já entram automaticamente no topo da minha lista de leituras e quando é literatura nacional, o interesse dobra. Então, quando recebi Por Cima do Teu Cadáver, de Camile Queiroz, já sabia que as chances de gostar eram altas.
Camile Queiroz, autora cearense e finalista do Prêmio Argos de Literatura Fantástica com o conto “O Evento”, estreia no formato de coletânea com Por Cima do Teu Cadáver, e o resultado é um daqueles livros que ficam ecoando na cabeça bem depois da última página.
Do que se trata
São oito contos insólitos que transitam entre o terror sobrenatural e o suspense psicológico. Aqui, o cotidiano funciona como uma fina camada de gelo prestes a se romper, e a morte nunca está longe, seja como ameaça, memória ou presença literal. Cada história adota um estilo narrativo diferente, e os temas variam entre fenômenos incompreensíveis, trauma, vingança, violência e até humor macabro, sempre costurados por uma sensibilidade profundamente humana.
O que dá identidade à coletânea é a ambientação: Camile mergulha no imaginário e no folclore nordestino para construir seu horror. Um dos destaques usa o cenário do cangaço no sertão cearense para tecer uma trama de culpa e vingança envolta em misticismo regional, enquanto outro conto revisita uma figura conhecida do folclore brasileiro, dando a ela uma camada de ameaça ainda mais perturbadora. É um terror enraizado, que não precisa importar fórmulas de fora para assustar.
Estilo e influências
A prosa de Camile tem forte carga imagética e usa o silêncio como elemento narrativo, o que não é dito pesa tanto quanto o que é revelado. Não é à toa que ela é comparada a nomes como Shirley Jackson, Mariana Enriquez e Lygia Fagundes Telles: há um pouco de cada uma nessa mistura de horror doméstico, gótico latino-americano e fantástico brasileiro. Ainda assim, a voz é genuinamente própria, nordestina, brutal e poética ao mesmo tempo.
Fiquei surpresa com Por Cima do Teu Cadáver. É intrigante, assustador e sombrio na medida certa, sem depender de sustos fáceis para incomodar. Alguns contos causam um verdadeiro rebuliço porque soam plausíveis demais e a sensação de que aquilo poderia acontecer na vida real é o que mais fica entalado na garganta.
A escrita é envolvente, e mesmo depois de fechar o livro eu me pegava pensando em certas cenas e certos finais. É o tipo de coletânea que recompensa reler as histórias mais tarde, quando novos detalhes ganham peso diferente. Recomendo especialmente para quem gosta de terror brasileiro com raízes regionais bem definidas, sem abrir mão da densidade psicológica. Por Cima do Teu Cadáver prova que o horror nacional não precisa imitar referências estrangeiras para ser eficaz e que Camile Queiroz é um nome a se acompanhar de perto.