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A Casa do Dragão é uma novela do Walcyr Carrasco e podemos provar

A Casa do Dragão é vendida como uma fantasia medieval sobre dragões, guerras e disputas pelo poder. Mas basta trocar os castelos por mansões para perceber que George R. R. Martin e Walcyr Carrasco compartilham muito mais do que parece. No fundo, ambos contam histórias sobre famílias desestruturadas, sucessões disputadas, casamentos estratégicos, vinganças e jantares que sempre terminam em confusão.

De sobremesa: torta de climão

O primeiro paralelo aparece justamente em um dos momentos mais marcantes da série. No oitavo episódio da primeira temporada, Viserys reúne toda a família para um grande jantar com a esperança de restaurar a paz entre os Targaryen. Durante alguns minutos, todos fingem que as mágoas ficaram para trás. Porém, basta o rei deixar a mesa para que as provocações reapareçam e a reunião termine em completo desastre.

a casa do dragão

A lógica é a mesma dos jantares escritos por Walcyr Carrasco. Em Quem Ama Cuida (2026), por exemplo, Arthur Brandão faz exatamente o oposto de Viserys. Em vez de tentar apaziguar os conflitos, ele apresenta Adriana como sua noiva sabendo que a notícia provocará uma reação em cadeia dentro da família. O objetivo muda, mas a estrutura permanece idêntica: reunir todos os personagens em um único ambiente e servir o climão de sobremesa.

a casa do dragão

A sucessão é pelo trono de ferro, mas poderia ser pela fábrica de chocolates, de sabonetes, bolos, fazendas ou pela joalheria A. Brandão

As disputas pela sucessão também parecem seguir o mesmo manual. Em A Casa do Dragão, os Hightower passam anos articulando para colocar Aegon II no Trono de Ferro, enquanto Rhaenyra luta para manter o direito que lhe pertence. Nas novelas de Walcyr, o objeto da disputa muda, mas o comportamento dos personagens permanece praticamente o mesmo.

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Jesabel faz de tudo para controlar a Fábrica de Bombons, em Chocolate com Pimenta (2004). Josiane, e até mesmo Viviane (aquela que foi criada em um conveto) transformam a disputa pelos Bolos da Paz, em A Dona do Pedaço (2019), em uma verdadeira guerra familiar. Irene movimenta todas as peças para que Daniel herde as fazendas La Selva, em Terra e Paixão (2023). Já Félix trava uma batalha constante pelo reconhecimento e comando do Hospital San Magno, em Amor à Vida (2013). Em Êta Mundo Bom! (2016) e Êta Mundo Melhor! (2025), a Fábrica Aromas (e posteriormente Biscoitos Policarpo) também se torna o principal objeto de desejo dos personagens. O objetivo muda, mas a essência é exatamente a mesma: famílias dispostas a destruir umas às outras pelo poder.

Essa rivalidade inevitavelmente desemboca em outro elemento clássico: a guerra entre irmãos. Rhaenyra e Aegon II transformam a sucessão em uma guerra civil. Da mesma forma, Félix e Paloma vivem em constante disputa pelo reconhecimento do pai e pelo comando dos negócios da família Khoury em Amor à Vida. Os contextos são diferentes, mas o melodrama familiar é idêntico.

O casamento entre uma jovem e um senhor de idade “dono de tudo”

Outro clichê que aproxima essas histórias é o casamento entre uma jovem e um homem muito mais velho, ocupando uma posição de enorme influência. Alicent Hightower se torna esposa do rei Viserys ainda muito nova e muda completamente o rumo da história de Westeros. Walcyr Carrasco já explorou esse tipo de relação diversas vezes. Em Chocolate com Pimenta, Aninha se casa com o poderoso Ludovico para garantir um futuro melhor. Já em Quem Ama Cuida, Adriana aceita construir uma vida ao lado de Arthur Brandão. Em todos os casos, essas uniões redefinem o equilíbrio de poder e desencadeiam boa parte dos conflitos que movem a narrativa.

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A protagonista que “vira” freira

Nem mesmo os disfarces escapam da comparação. Na segunda temporada de A Casa do Dragão, Rhaenyra Targaryen se veste como uma septã para entrar discretamente em Porto Real e se encontrar com Alicent Hightower. A estratégia de assumir uma identidade religiosa para circular sem levantar suspeitas poderia muito bem ter saído de uma novela de Walcyr Carrasco. Afinal, na reta final de Terra e Paixão, Aline Machado também recorre a um hábito religioso ao se disfarçar de freira para fugir das armações dos La Selva.

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Vocês não imaginam o prazer que é estar de volta

Outro recurso que aproxima A Casa do Dragão das novelas de Walcyr Carrasco é o retorno triunfal da protagonista. Depois de ser obrigada a deixar Porto Real, Rhaenyra finalmente retorna para ocupar o Trono de Ferro. É impossível não lembrar de Clara Tavares, em O Outro Lado do Paraíso (2017), quando volta à cidade onde nasceu afirmando: “Vocês não imaginam o prazer que é estar de volta.” – SAME ENERGY!

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E, claro, não poderiam faltar as protagonistas movidas pela vingança após a volta triunfal. Ana Francisca luta para abalar a elite de Ventura e posteriormente recuperar a Fábrica de Bombons. Clara Tavares promete destruir a ex-sogra, a ex-cunhada, o psiquiatra, o delegado e o juíz. Aline Machado decide retomar as famosas “terras vermelhas”. Adriana, assim como suas antecessoras, jura vingança por um crime que não cometeu, definindo seus alvos: a família Brandão, o advogado Ademir, Diná e Tom. Já Rhaenyra Targaryen, por sua vez, transforma a recuperação do Trono de Ferro na missão de sua vida, tendo até que cortar cabeças para isso. Todas compartilham o mesmo arquétipo: mulheres que perderam tudo e voltaram para reivindicar aquilo que acreditam ser seu por direito.

No fim das contas, talvez a maior diferença entre Walcyr Carrasco e George R. R. Martin esteja apenas na ambientação. Um escreve histórias em mansões, hospitais e fazendas e claro, guerras de comida e chiqueiros. O outro prefere castelos, espadas e dragões.

Mas convenhamos: Walcyr Carrasco escreveria Rhaenyra Targaryen sem a menor dificuldade. Já George R. R. Martin jamais escreveria Bernadete e muito menos faria uma feijoada com as carnes de Damião.

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