O processo de transição das páginas literárias para as telas exige muito mais do que apenas transcrever diálogos. De fato, em uma entrevista reveladora, o escritor Vitor Martins e o diretor Daniel Lieff discutiram os bastidores da adaptação cinematográfica de Quinze Dias. Assim, a dupla detalhou os medos criativos e as complexas barreiras comerciais que enfrentaram ao longo do projeto.
O desapego do autor e o medo de encarar os fãs
Antes de tudo, Martins explicou que convive com esses personagens na sua mente há quase uma década. Nesse sentido, o autor surpreendeu ao demonstrar total desapego com o próprio texto literário. Ele buscou apenas garantir que o filme mantivesse a alma da obra original. Além disso, o escritor expressou grande orgulho pelo resultado que a equipe alcançou no corte final.
Com efeito, o diretor Daniel Lieff confessou que sentiu um verdadeiro frio na barriga ao assumir o comando da produção. O cineasta reconhece o peso de liderar um projeto com uma base de fãs tão imensa e apaixonada. Por isso, Lieff estabeleceu um diálogo constante com o autor para preservar os pontos fundamentais da trama. O diretor também aproveitou a liberdade criativa que recebeu para inventar novas cenas e expandir o universo do livro.

O fator financeiro e o “tiro no escuro” do mercado
Por um lado, a entrevista tocou em uma ferida antiga do mercado audiovisual brasileiro: a lentidão no investimento de narrativas diversas. Por outro lado, Martins explicou que o mercado editorial consegue arriscar muito mais rápido do que o cinema. Consequentemente, as editoras lançam novos autores com facilidade porque produzir um livro custa infinitamente menos do que rodar um longa-metragem completo.
Desse modo, a indústria do cinema ainda enxerga o protagonismo LGBTQIAPN+ como um investimento arriscado ou um “tiro no escuro”. Os grandes investidores frequentemente temem o cancelamento ou o fracasso de bilheteria nas salas de cinema. Certamente, o sucesso recente de produções internacionais ajudou a mudar a mentalidade dos produtores locais. Lieff pontuou que o público brasileiro agora exige ver as suas próprias histórias na tela grande.
Furando a bolha literária através do audiovisual
Em resumo, os realizadores querem que Quinze Dias conquiste pessoas que as páginas do livro ainda não conseguiram alcançar. Portanto, a equipe utilizou elementos visuais e sonoros potentes para transformar a obra em uma comédia romântica universal. Igualmente, o diretor acredita que a história possui camadas múltiplas que dialogam perfeitamente com qualquer espectador, independentemente de sua orientação.
Em uma análise final, Martins sintetizou o objetivo principal do longa-metragem com uma reflexão profunda sobre o verdadeiro papel da representatividade na cultura:
“Quinze Dias não é um livro que é só para a gente, mas sim um livro sobre a gente que é para todo mundo.”
